Por Marcelo Gomes
Fotos: André Santos
O que era para serem dois dias de evento sob o nome de MAD Festival acabou virando uma verdadeira novela mexicana. Tudo começou com a reportagem do programa “Fantástico”, da Rede Globo de Televisão, que denunciou bandas brasileiras que faziam apologia ao nazismo. A partir dessa exposição, algumas pessoas começaram a denunciar também bandas estrangeiras que participariam do festival. Diante da polêmica, o produtor do evento, Marlon da Silva Rocha, retirou algumas bandas e fez ajustes no line-up. Muitos reclamaram, outros pediram reembolso, e a situação tornou-se uma bola de neve. Às vésperas do festival, o produtor cancelou o evento, deixando algumas bandas já presentes no Brasil completamente desamparadas.
Diante desse cenário, a produtora Mosh se uniu à tiqueteria do evento, Bilheto, e ambas decidiram salvar pelo menos um dia do festival, reduzindo o número de bandas e mantendo o headliner, Dark Funeral. Com Suicidal Nazareth (México), Luxúria de Lillith (Brasil), Mystifier (Brasil) e Besatt (Polônia), o festival aconteceu no mesmo dia e local originalmente programados, ou seja, 8 de março, na Vip Station. Talvez se desde o início o festival tivesse sido mais enxuto, todo esse transtorno poderia ter sido evitado.
O Suicidal Nazareth chegou diretamente do México e abriu os trabalhos do dia. Apresentaram músicas dos seus dois álbuns de estúdio, Nazareno Suicida (2014) e Odio Y Arrogancia (2021) para um público que ainda chegava na casa e em sua maioria desconhecia o material dos mexicanos. Contudo, a banda mostrou boa presença de palco e um material consistente, conquistando os presentes com sua sonoridade brutal e bem executada.
O Luxúria de Lillith trouxe um show carregado de blasfêmia e teatralidade, com uma performance marcante e cheia de energia. A mistura de black e death metal da banda ressoou fortemente na Vip Station, hipnotizando o público com seus vocais rasgados e instrumentais pesados. A atmosfera ritualística criada foi um dos pontos altos do festival.
Encerrando a participação brasileira no evento, o lendário Mystifier entregou um set brutal e repleto de clássicos, reafirmando seu status como uma das maiores referências do black metal nacional. Com uma execução impecável e uma presença de palco avassaladora, a banda manteve o público participando ativamente com rodas durante todo o show. Um dos destaques foi Nightmare, cover do Sarcófago, que contou com os backing vocals de Beldaroh, do Besatt. Nem é preciso dizer que os fãs ficaram extasiados. Em outro momento, Armando, guitarrista da banda, foi ao microfone para dedicar Give Human Devil His Due à miséria dos países ricos e criticou o presidente americano Donald Trump, além de Elon Musk. Ele também expressou o desejo de que o ex-presidente Jair Bolsonaro fosse preso e punido. A banda se despediu com Belzebuth, trazendo o peso dos riffs e uma aura obscura, tornando a apresentação uma experiência surreal.
O Besatt, uma das bandas mais icônicas do black metal polonês, entregou um show profano para seus seguidores fanáticos. Com uma atmosfera densa e obscura, a banda subiu ao palco para apresentar um setlist curto, mas brutal e repleto de hinos anticristãos, reafirmando sua posição como uma das forças mais implacáveis do underground. O line-up atual da banda conta com Beldaroh (vocal e baixo), Astaroth (guitarra), Colossus (guitarra) e Dertalis (bateria), músicos que trouxeram uma energia visceral à apresentação.
A abertura com Gloria Cause Satani já deixou claro que a noite seria uma imersão no caos e na blasfêmia. A introdução sombria rapidamente se transformou em uma tempestade sonora, com riffs rápidos e a bateria impiedosa de Dertalis ditando o ritmo da destruição. Infelizmente, o som estava um pouco baixo e sem definição, principalmente a bateria, que soava fraca e ofuscada. Sem dar tempo para o público recuperar o fôlego, a banda emendou Master of Ceremonies, faixa com forte peso ritualístico, evocando uma aura maligna que envolveu a plateia em uma hipnose coletiva.
No meio do set, a execução de Baphomet e Kingdom of Hatred trouxe um equilíbrio entre agressividade e melodia, mostrando a habilidade do Besatt em criar composições brutais e envolventes. Os riffs de Astaroth e Colossus soaram como verdadeiros chicotes demoníacos, enquanto Beldaroh comandava o público com sua presença intimidadora. Hatred e Ave Master Lucifer foram bem recebidas, embora o público mais observasse o show do que agitasse.
O encerramento com Mad Minds foi simplesmente devastador. A intensidade crescente da faixa fez com que o show terminasse em um clímax apoteótico, deixando os fãs em transe. Apesar do setlist curto, aproximadamente 43 minutos, o Besatt provou mais uma vez por que é uma das bandas mais respeitadas do black metal, entregando uma performance crua, impiedosa e absolutamente memorável.
Com um palco mais clean, apenas com a bateria e um telão ao fundo, o Dark Funeral transformou o espaço em um altar de pura brutalidade e atmosferas sombrias. Atualmente, formado por Heljarmadr (vocal), Lord Ahriman (guitarra), Chaq Mol (guitarra), Adra Melek (baixo) e Jalomaah (bateria), os suecos abriram com Nosferatu, preparando o terreno para uma noite devastadora. A faixa, vinda do álbum We Are the Apocalypse (2022), mostrou que o público estava pronto para mergulhar na escuridão. Vale mencionar que o som estava bem mais alto que o das bandas anteriores e melhor equalizado, o que proporcionou um melhor espetáculo.
Em seguida, Atrum Regina e To Carve Another Wound mantiveram a intensidade, com guitarras pesadas e a bateria rápida de Jalomaah soando como uma metralhadora. O vocalista Heljarmadr, com sua presença intrigante, comandava a horda de seguidores e aproveitou para dizer que, apesar de toda a confusão causada pelos cancelamentos, estavam muito felizes por estarem de volta a São Paulo. Isso foi o suficiente para que a banda fosse ovacionada.
Quando The Arrival of Satan’s Empire foi executada, o público foi à loucura. Esse clássico do álbum Diabolis Interium (2001) é um dos hinos definitivos da banda, e sua performance ao vivo gerou uma intensa roda próxima ao palco. A emoção tomou conta da Vip Station com When I’m Gone, canção melancólica que adicionou um toque mais soturno ao set. No entanto, qualquer resquício de calmaria foi esmagado por As One We Shall Conquer e Unchain My Soul, que trouxeram de volta a fúria avassaladora que define o Dark Funeral.
O setlist especial dedicado ao EP Dark Funeral de 1994 foi um presente para os fãs mais antigos. Open the Gates, Shadows over Transylvania, My Dark Desires e In the Sign of the Horns transportaram o público diretamente para os primórdios da banda, resgatando o espírito cru e impiedoso do black metal norueguês dos anos 90. O encerramento veio com Let the Devil In e Where Shadows Forever Reign. A primeira, do álbum mais recente, trouxe uma aura mais melancólica, enquanto a segunda encerrou a noite com uma trilha de destruição, causando um verdadeiro pandemônio na pista.
No fim, o show do Dark Funeral em São Paulo foi mais do que uma simples apresentação: foi uma aula de brutalidade. A banda demonstrou uma performance impecável, tanto tecnicamente quanto na entrega emocional, e o público correspondeu à altura. Em meio à receptividade do público, ao caos e à energia quase demoníaca, ficou claro que o Dark Funeral continua sendo uma das forças mais poderosas do metal extremo. E vale dizer que, mesmo com as polêmicas e os cancelamentos que ocorreram, a produção que assumiu o show conseguiu reverter a situação e entregou um grande evento para o público.
Setlist Besatt
Gloria Cause Satani
Master Of Ceremonies
Final War
Baphomet
Kingdom of Hatred
Hatred
Ave Master Lucifer
Mad Minds
Setlist Dark Funeral
Nosferatu
Atrum Regina
To Carve Another Wound
The Arrival of Satan’s Empire
When I’m Gone
As One We Shall Conquer
Unchain My Soul
Open the Gates
Shadows Over Transylvania
My Dark Desires
In the Sign of the Horns
Let the Devil In
Where Shadows Forever Reign
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