EDU FALASCHI – SÃO PAULO (SP)

5 de julho de 2025 – Tokio Marine Hall

Por Fernando Queiroz

Fotos: Andre Santos

Não foi a primeira, nem a segunda, mas a terceira celebração a Temple of Shadows feita por Edu Falaschi em São Paulo – nem sequer a primeira com Kai Hansen participando ou com orquestra. O que teríamos de diferente, então? Simplesmente, o retorno de ninguém menos que Roy Khan, ex-vocalista do Kamelot, às suas raízes, cantando músicas de sua ex-banda. Mais que isso, celebrando outro icônico álbum, The Black Halo. Isso simplesmente já valeria a ida para apreciadores do bom e velho power metal dos anos 2000. Diferente do álbum brasileiro de 2004, celebrado não só por Edu, mas também pelo próprio Angra, o disco do Kamelot seria, realmente, algo inédito, embora não tocado na íntegra, e isso indicava que teríamos casa cheia; bem, tivemos, embora não lotada, muito por conta do tempo curto do show de Roy, que deveria, dada a ocasião especial na carreira do cantor, ser o show principal da noite, e o horário que, como sempre acontece no Tokio Marine Hall, desagrada muita gente – e com razão, pois um show começar às 22h30 e acabar perto da 1h da manhã é simplesmente absurdo, para não falar outra coisa. E não demorou para o perrengue de horário começar! Marcada para às 18h, a entrada do público atrasou alguns bons minutos, cerca de vinte. Apesar disso, o fluxo foi tranquilo e sem maiores problemas.

Mesmo para um público ainda bem abaixo do completo, a noite começou bem. Os baianos do Auro Control, com seu power metal bem padrão, não decepcionaram em sua performance, apresentando um som que agrada qualquer um que tenha alguma afinidade com o gênero. Ao vivo funciona muito bem! Nitidamente bem entrosada e preparada para a apresentação, a banda sofreu com alguns problemas de som, em especial o fato de o baixo estar muito mais alto que o resto dos instrumentos, principalmente na pista premium, chegando até a vibrar a cabeça do público – e, acredite, eram muitas notas, como é de se esperar do estilo de música deles. Esse som estourado persistiu por todo o show, embora ao longo da apresentação conseguiram deixar o excelente vocal de Lucas de Ouro mais nítido. As guitarras, porém, eram difíceis de ouvir, assim como os pratos e tons da bateria, que eram totalmente encobertos por bumbo e caixa. Apesar dos problemas de som, típicos do que quase sempre acontece com bandas de abertura, mandaram bem, e a escolha das cinco músicas para o set foi certeira, não deixando em momento algum sensação de cansaço, tanto que, no meio do set, mais e mais pessoas iam entrando na pista do Tokio Marine para vê-los.

Pior foi o caso dos veteranos do Noturnall. Já com casa mais cheia, a banda, que já tem sua base de fãs consolidada e uma carreira de inquestionável sucesso, subiu ao palco após poucos minutos de intervalo. Logo no começo, já começaram os problemas técnicos: o microfone do vocalista Thiago Bianchi falhou repetidamente ao longo da primeira música, que teve que ser parada e reiniciada, com o cantor se desculpando pelo ocorrido. Voltaram a tocar a abertura, mas mesmo assim, sem sucesso: a guitarra desafinada atrapalhou a performance e assim continuou. Claramente, a equipe técnica e de roadies estava completamente perdida do início ao fim do show. Quando o som funcionava, provavelmente era um dos melhores da noite, mas era raro funcionar. Carismático e simpático com o público, Thiago tentava animar a plateia e descontrair o ambiente, mas sua frustração era nítida. O show acabou tendo quase a metade das músicas que deveria, e todas cheias de contratempos. Acabaram saindo do palco sem “missão cumprida”. O público percebeu os problemas, viu que não era um erro da banda em si e, em apoio, gritava o nome do grupo em coro. Após a apresentação, conseguimos informações sobre o que ocorreu. Um roadie novo, que fazia parte da equipe da turnê, não da banda, afinou errado as guitarras de Guilherme Torres, entregou equipamentos errados em determinados momentos e posicionou a antena do microfone sem fio num local em que havia muita interferência; para piorar, não conectaram o microfone com fio que tinham como reserva. Uma pena, e não foram só esses os “xabus” da parte técnica. Falaremos mais adiante.

Por mais que não fosse a atração principal e tivesse um set reduzido, possivelmente a atração mais esperada da noite era o vocalista Roy Khan. Iniciando no Brasil sua carreira solo, o ex-Kamelot prometia um momento histórico, tocando pela primeira vez em quinze anos um setlist do álbum The Black Halo, que comemora vinte anos em 2025. O cantor vinha acompanhado dos músicos da banda Maestrick como apoio e da Orquestra Sinfônica Jovem de Artur Nogueira (OSJAN), mesma que acompanharia Edu Falaschi posteriormente. Ele prometeu um repertório de clássicos da sua ex-banda e foi exatamente o que tivemos!

Começou sua apresentação com When the Lights Are Down e aqui vimos que, mesmo não perfeito, era o melhor som da noite até então. A voz de Roy continua a mesma, com toda sua dramaticidade, interpretação e afinação, além da linguagem corporal, conjunto que fez dele um ícone do power/symphonic metal. Era tão nítido que ele era o destaque da noite que a cada música ouvíamos coros com seu nome, além daquele famoso “olê olê olê, Roy Khan, Roy Khan” que só nós, latinos, sabemos fazer. Moonlight foi a segunda e depois Soul Society. Para onde você olhasse havia pessoas e quase todas cantando as letras a plenos pulmões – inclusive gente de outros países, como um casal da Guatemala que portava a bandeira de seu país e estava lá especialmente para ver o vocalista.

Foi em The Haunting (Somewhere in Time) que tivemos a primeira participação da noite, com a talentosíssima cantora Adrienne Cowan, da banda Seven Spires e do Avantasia, que já esteve esse ano no país com o projeto de Tobias Sammet no Bangers Open Air. Ela fez as vozes que originalmente foram de Simone Simons, do Epica, mas o resultado não foi dos melhores, pois a música exige canto lírico e Adrienne é uma cantora popular. De toda forma, a canção tirou literalmente lágrimas de pessoas no lugar. Ela continuou no palco para a balada Abandoned, com performance muito melhor já que é uma música que casa bem com sua voz, assim como em Memento Mori. Era difícil entender, porém, o motivo de não utilizarem a excelente Juliana Rossi, que estava no palco e tem tessitura e timbre mais propícios para algumas dessas músicas. Talvez tivesse sido uma melhor ideia. Em especial nessas duas últimas, a orquestra foi o destaque, dando a elas uma intensidade única, algo que todos os fãs de Kamelot sempre quiseram ouvir. A apresentação terminou como todos esperavam, com uma bela versão de March of Mephisto, também com Adrienne nos guturais e Bill Hudson na segunda guitarra. Roy Khan realmente está de volta, e em sua plena forma, para alegria de quem gosta de um bom metal anos 2000, o ápice do power e do sinfônico no mundo. A verdade é que esse deveria ter sido o show principal, e o público concorda! Muitas pessoas com quem falamos estavam lá para vê-lo, principalmente. Imagine só se tivesse tocado também sons dos álbuns Karma e Epica!

O “dono da noite”, porém, era Edu Falaschi. O icônico vocalista de uma das fases clássicas do Angra apresentaria, pela terceira vez em São Paulo e segunda com orquestra, o álbum Temple of Shadows na íntegra, além de alguns clássicos de sua carreira. Programado para às 22h30, o que por si só já é algo injustificável, o show teve atraso de quase 20 minutos. Um show começando quase 23h é algo que muitos vêm insistentemente reclamando, mas continuam fazendo, e sempre no Tokio Marine Hall. Seria um problema da casa? Bem, se for, não é o único problema de lá.

Ovacionado, Edu começou seu show com Spread Your Fire, faixa de abertura do álbum comemorado, e assim continuou com ele na ordem do disco. Edu está em boa fase, cantando bem, dentro de seus limites de saúde, e continua com uma das melhores presenças de palco que você verá em qualquer ocasião. O cara realmente tem domínio do palco!  O que ficava nítido, porém, era o mesmo problema que assolou o show da cantora Tarja Turunen, no mesmo local este ano: não se ouvia a orquestra. Diferente do show de Tarja, porém, que em determinados momentos mais leves se podia ouvir os instrumentos orquestrais, ali não se escutava nada. Parecia que a enorme orquestra estava ali apenas de enfeite. Pior ainda, nem sequer os teclados de Fábio Laguna eram audíveis e, assim como na apresentação do Auro Control, baixo e bateria estavam altos demais. Como sempre, entre as músicas, Edu se comunica com o público, e é tão bom nisso que você até se sente próximo do cantor de tanto que ele sabe interagir. Um frontman nato! De forma geral, o show agradava o público, mas para quem esteve na primeira ocasião em que ele fez o show nesse formato ficou claro que não era a mesma coisa, por conta de não haver mais o “fator novidade”. O som, na ocasião anterior, também estava bem melhor. A plateia percebeu isso e se mantinha tímida, não sendo barulhenta como anteriormente – possivelmente também pelo cansaço por conta dos três shows anteriores na abertura.

Como anunciado previamente, foi em Temple of Hate que tivemos a mais importante participação da noite: Kai Hansen, do Helloween. Foi o momento em que a plateia mais se animou, e não se esperava menos, pois, como Edu falou, “esse cara é uma das maiores lendas do power metal do mundo”. Adrienne Cowan também voltou ao palco para No Pain For the Dead, originalmente cantada por Sabine Edelsbacher, e aqui sua voz casou muito bem com a música, assim como mostrou sua versatilidade vocal em Winds of Destination, gravada por Hansi Kürsch. O show seguiu como começou, com o disco em sua ordem e os problemas de som persistindo. Ao fim do álbum, vieram os clássicos avulsos: após sua única música solo do set, The Ancestry, Edu mostra, como em todas as ocasiões, que tem bom humor de sobra, e em Bleeding Heart, ele puxa a “versão forró”, em português, gravada pelo Calcinha Preta. Outra música que marcou sua carreira, Pegasus Fantasy, da trilha sonora de “Cavaleiros do Zodíaco” – que, diga-se de passagem, ajudou a impulsionar sua carreira – é outra que não poderia faltar. Para finalizar o set, a dupla Rebirth e Nova Era, como de praxe, foi tocada após uma fala do guitarrista Diogo Mafra, que fazia aniversário no dia (felicidades, Diogo!). Mas não acaba por aí! Naquele momento “festa”, todos os convidados sobem ao palco novamente e, com Kai Hansen assumindo a guitarra, o clássico do Helloween I Want Out fecha a noite no momento mais divertido possível, mas no pior horário, já próximo da 1h da manhã.

O saldo final da noite foi misto. Embora tivemos apresentações muito legais, casa cheia e clássicos atrás de clássicos, do jeito que mais gostamos, os problemas técnicos da apresentação do Noturnall frustraram, além do demasiado curto setlist de Roy Khan, que fez a melhor apresentação da noite – e merecia ter tocado muito mais tempo –, além de uma “orquestra de enfeite” que não podia ser ouvida, o horário complicado – algo que precisa ser revisto urgentemente! – e uma qualidade de som abaixo do esperado tiraram o brilho do que poderia ter sido uma noite perfeita. Não apenas isso, embora seja sempre divertido ouvir esse conceituado e emblemático álbum da carreira de Edu e do Angra na íntegra, por se tratar da terceira ocasião que ele foi apresentado neste formato, já não traz mais o mesmo impacto. Um show cujo formato parece já estar esgotado, ou ao menos está se esgotando, ainda vale a pena para quem não viu; é certeza de presenciar um show agradável, e a performance de Edu como frontman continua icônica. Sua banda, igualmente, está ainda melhor, em especial agora com o guitarrista Victor Franco, que, diferente de seu antecessor, toca os solos originais nota por nota, quase sem improvisar em cima. No mais, para quem já viu o espetáculo, se não fosse pela fantástica, porém curta, apresentação de Roy Khan, fica difícil recomendar ver novamente, pois não traz quase nenhuma novidade. Talvez seja hora de Edu olhar para outros discos de sua rica discografia para o caso de tocar um álbum na íntegra. Quem não gostaria de ouvir o Rebirth na íntegra, por exemplo?

Setlist Auro Control

Not Alone

Feel the Fire

Rise of the Phoenix

The Harp

Heads up High

Setlist Noturnall

Try Harder

No Turn at All

Reset the Game

Shadows

Sugar Pill

Nocturnal Human Side

Setlist Roy Khan

When the Lights are Down

Moonlight

Soul Society

The Haunting (Somewhere in Time)

Abandoned

Memento Mori

March of Mephisto

Setlist Edu Falaschi

Deus Le Volt/Spread Your Fire

Angels and Demons

Waiting Silence

Wishing Well

The Temple of Hate

The Shadow Hunter

No Pain for the Dead

Winds of Destination

Sprouts of Time

Morning Star

Late Redemption

The Ancestry

Bleeding Heart/Agora Estou Sofrendo

Pegasus Fantasy

Rebirth

Nova Era

I Want Out

 

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