MEGADETH – MEGADETH [9,0/10]

BLKIIBLK - IMP.

Por Leandro Nogueira Coppi

Quando Dave Mustaine anunciou, em 2025, que o novo e homônimo álbum marcaria a despedida do Megadeth, a reação inicial foi marcada por desconfiança. Para muitos fãs, soou como mais um anúncio calculado — um golpe de marketing do tipo que tantas bandas usam para inflar expectativas, impulsionar vendas e, no fim, voltar atrás. No entanto, esse ceticismo começou a se dissipar quando o icônico fundador, vocalista e guitarrista de uma das bandas mais importantes do thrash metal detalhou as razões por trás da decisão. Ao expor as limitações físicas que vêm comprometendo sua execução na guitarra — incluindo a progressão da contratura de Dupuytren, condição degenerativa que afeta os tendões das mãos, além de dores crônicas e problemas na coluna —, o discurso ganhou peso real. A partir daí, a ansiedade dos fãs se intensificou, e a espera pelo disco deixou de ser apenas curiosidade para assumir contornos de comoção, tristeza e gratidão. O álbum Megadeth passou a ser percebido não só como um lançamento aguardado, mas como um possível ponto final carregado de significado para uma das carreiras mais longevas e influentes do metal. Ao admitir que já não consegue tocar a própria música que criou com o mesmo conforto, Mustaine, de 64 anos, transforma este 17° álbum de estúdio em um registro de despedida consciente, marcado pela noção de encerramento e pela necessidade de concluir o ciclo em seus próprios termos.

Apesar dos problemas relatados, Mustaine não aliviou nos riffs e solos. Ao lado de seu novo companheiro de cordas, o finlandês Teemu Mäntysaari, entrega um trabalho visceral, à altura de uma banda que, ao longo de sua trajetória, se tornou referência para gerações de guitarristas. Na cozinha, Dirk Verbeuren e James LoMenzo — baixista que registra aqui seu terceiro trabalho de estúdio com a banda, 17 anos após Endgame — formam uma espinha dorsal afiada ao longo de todo o disco e também encontram espaço para momentos de destaques individuais.

Megadeth, aliás, entra na prateleira dos trabalhos mais colaborativos da banda. Exceto por uma única música assinada apenas por Dave Mustaine, todas as demais contam com participações de outros integrantes no processo de composição. Mäntysaari, por exemplo, estreia quebrando o recorde do brasileiro Kiko Loureiro, que no álbum anterior do Megadeth selou parceria com Mustaine em oito músicas, tornando-se agora, com nove coautorias, o guitarrista que mais colaborou em composições em um único disco do grupo.

De modo geral, Megadeth não soa como uma simples continuidade dos trabalhos anteriores, o premiado Dystopia (2016) e The Sick, The Dying… And the Dead! (2022). Trata-se de um disco que preserva o peso e a velocidade característicos da banda, mas que vai além ao resgatar referências do início de carreira e, sobretudo, o senso melódico, mais cadenciado e climático, explorado em álbuns como Countdown to Extinction (1992), Youthanasia (1994) e Cryptic Writings (1997). Há ainda pequenos acenos a outros trabalhos posteriores, enquanto as composições se mostram mais diretas, com estruturas mais enxutas e objetivas.

Por carregar esse caráter de despedida, Megadeth não se presta a uma análise superficial ou restrita às faixas de maior impacto. Com ótima produção, novamente assinada por Chris Rakestraw e Dave Mustaine — parceria iniciada em Dystopia —, o disco pede um olhar direto, música por música, já que cada faixa cumpre um papel na construção desse possível encerramento. Um ‘track by track’ se mostra, portanto, a abordagem mais adequada para compreender o álbum em sua totalidade.

Foto: Future

Track by Track

Tipping Point: primeiro single do álbum, abre o novo material com um riff, executado por Teemu que gruda de imediato. Em seguida, um breve solo de Mustaine antecipa um segundo e mais furioso riff de seu parceiro, imprimindo à composição uma velocidade atroz, especialmente sob a condução voraz de Dirk Verbeuren.  Após os solos principais, a música desacelera gradualmente até ganhar um ‘plot twist’, com novo riff e uma levada claramente inspirados pela N.W.O.B.H.M.

I Don’t Care: única faixa do disco assinada exclusivamente por Dave Mustaine. Iniciada por uma levada simples, guiada pelo baixo pulsante de LoMenzo, este segundo single se destaca dentro da discografia do Megadeth como a faixa em que Mustaine expõe de forma mais direta seu assumido lado punk, influenciado por bandas como Dead Kennedys, F.E.A.R., e Sex Pistols. Em tom anárquico, ele voscifera a letra, construída a partir de uma postura declaradamente confrontacional, ao melhor estilo “estou pouco me fodendo para você”.

Hey, God?!: em levada mid tempo, a faixa oferece alguns instantes de calmaria em meio à porradaria estabelecida pelos três primeiros singles do disco — sendo o terceiro deles Let There Be Shred, que surge logo na sequência. Mais introspectiva e escrita em primeira pessoa, trata-se de uma música que reflete a maturidade de um Dave Mustaine disposto a admitir suas fragilidades. Isso fica evidente no refrão — um dos mais marcantes do álbum — em que ele canta: “Às vezes eu me sinto tão inseguro / enquanto caminho solitário por essas ruas”. O viés melódico lembra sutilmente a aura de algumas músicas de álbuns como Countdown to ExtinctionYouthanasia, Th1rt3en Super Collider.

Let There Be Shred: uma das mais velozes do disco, é basicamente uma ode direta à guitarra e ao heavy metal. Liricamente, carrega a ingenuidade e a paixão pela música descritas em algumas letras do início de carreira de várias bandas de speed/thrash metal. Instrumentalmente, a faixa também olha para o passado, soando como um encontro entre as composições que Dave Mustaine levou para o Metallica e Poison Was the Cure, presente no aclamado quarto álbum do Megadeth, Rust in Peace.

Puppet Parade: outra das mais melódicas do disco, remete a diferentes momentos do Megadeth nos anos 1990. No riff inicial, por exemplo, é até possível cantarolar as primeiras estrofes de Almost Honest, do álbum Cryptic Writings, de 1997. No entanto, durante o decorrer, Puppet Parade ganha tanto em peso quanto em ritmo e atmosfera, como nos tempos de Countdown to Extinction e Youthanasia.

Another Bad Day: entre as mais legais do álbum, aparece bem posicionada no tracklist logo após Puppet Parade, já que também compartilha um andamento cadenciado. O refrão é simples, sustentado pela repetição do próprio título, mas ainda assim gruda com facilidade, muito por conta da linha melódica conduzada por Dave Mustaine. Resquícios de ideias presentes nos álbuns Super ColliderThe System Has Failed United Abominations são perceptíveis ao longo da faixa.

Made to Kill: talvez a mais pesada e veloz do álbum, tem tudo para transformar a pista em caos caso seja incluída nos setlists da turnê de despedida do Megadeth. A música se inicia com uma introdução de bateria criativa e pulgente de Dirk Verbeuren e logo em seguida mergulha no peso absoluto, remetendo à estrutura inicial de Blackmail the Universe, faixa de abertura de The System Has Failed, além de dialogar com momentos mais agressivos do álbum anterior, The Sick, The Dying… And the Dead!. A partir daí, a composição alterna trechos ainda mais velozes com passagens mais moderadas, sem nunca perder a pegada visceral que a define.

Obey the Call: uma das mais obscuras do disco, começa com dedilhados de guitarra e uma introdução de Dirk aos tambores, elementos esses que remetem à Trust, um dos grandes hits da carreira do Megadeth. O refrão, de caráter climático, confere à música um tom quase lisérgico. Quando tudo indica que a faixa caminha para o encerramento no mesmo andamento moderado, ela surpreende com uma passagem veloz e solos ensandecidos, culminando em um desfecho abrupto e atordoante, com Mustaine decretando: “Obedeça ao chamado!”.

I Am War: uma das faixas mais melódicas do disco, é a única assinada pelos quatro integrantes. Destaca-se logo de início pelo uso de phaser no riff de guitarra inicial. Ainda no campo das guitarras, o solo — apesar de curto — figura entre os mais bonitos do álbum. O refrão forte e repetitivo também causa impacto, com Mustaine personificando o conflito como algo interno e permanente ao cantar: “Eu sou a guerra, sou dor e sofrimento / sou miséria / estou perdido e sou tristeza / eu sou a guerra”.

The Last Note: fechando o disco, a música, de autoria de Dave Mustaine e Teemu Mäntysaari, chama atenção desde o título, que, em tradução livre, significa “o último registro”. Título esse que tem um peso maior em se tratando de ser a música de encerramento de um álbum de despedida. A música começa com um dedilhado melancólico, com cara de terra arrasada, e Mustaine cantando quase que balbuciando. Na estrofe, a música ganha peso e assim segue até o momento em que um violão surge solando antes das guitarras. A letra provoca um sentimento automático de tristeza, principalmente as últimas palavras proferidas por Mustaine: “Eu vim, eu comandei e agora desapareço”.

Ride the Lightning: como se não bastasse surpreender a comunidade metálica ao anunciar Megadeth como o álbum de despedida da banda que criou em 1983, Dave Mustaine foi além ao incluir, como faixa bônus, uma versão de Ride the Lightning, uma das músicas que ajudou a compor ainda no Metallica e que viria a dar título ao segundo álbum de sua ex-banda. Mustaine explicou que essa foi uma forma de prestar respeito ao ponto onde minha trajetória começou.” Justo. É provável que, ao dar o primeiro play no disco, muitos ouvintes comecem justamente por essa faixa antes de seguir para o restante do álbum. O aspecto mais interessante da versão está na fidelidade à composição original, sem alterações estruturais. As principais diferenças aparecem na afinação mais baixa das guitarras e do baixo, além do vocal de Mustaine, que adota uma abordagem menos gritada do que a do então jovem James Hetfield. O grande destaque da gravação fica por conta dos solos, executados de forma cavalar por Dave e Teemu. Não se trata aqui de comparar versões ou apontar qual é superior, mas de observar a gravação repaginada pelo peso histórico que carrega — um registro simbólico que fecha um ciclo iniciado décadas atrás.

Megadeth, o álbum, reúne diferentes facetas da banda — do peso mais agressivo às passagens melódicas e introspectivas — sem parecer uma colagem de referências ao passado. Não há aqui a tentativa de criar algo para bater de frente com os álbuns clássicos, mas sim de fechar a trajetória com coerência e dignidade, mantendo o nível artístico e a personalidade que sempre definiram a banda. Em sua cartada final, Mustaine não se deixou levar pelo ego, pelo contrário, ao invés de assumir sozinho as rédeas, abriu espaço para um trabalho coletivo sólido. Sustentado por composições que dialogam com diferentes fases da carreira, o disco cumpre seu papel como despedida sem apelar para excessos, encerrando a história do Megadeth de forma consciente e fiel à sua própria essência.

 

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