
Por Fernando Queiroz
Fotos: Belmilson Santos
A “paternidade” do death metal melódico é algo contestado – uns a atribuem ao Carcass, outros ao At the Gates (voltaremos a falar dessa banda ainda aqui) e por aí vai. Fato notório e consumado é que um dos maiores nomes da história do gênero é o Dark Tranquillity. A cena de Gotemburgo não é fraca, não, vale dizer!
Pouco menos de dois anos após fazerem uma das melhores apresentações (com sobras!) da edição de 2024 do Summer Breeze Brasil, atual Bangers Open Air, os suecos ícones do gênero menos extremo dentre os extremos voltaram ao nosso país. Dessa vez, chegaram para uma apresentação de repertório completo e especial, comemorando os trinta anos do álbum Gallery, seu segundo full-lenght, e 20 do icônico Character.
Sua última apresentação solo em terras paulistanas e brasileiras havia sido no já distante ano de 2017, na finada Clash Club. Então, havia uma grande e justificada expectativa. Será que valeu a longa espera?
Num domingo, primeiro mês do ano, em um fim de semana recheado de shows grandes, confesso que não sabia se teríamos um bom público no Carioca Club. Acho que subestimei a grandeza do Dark Tranquillity. Cerca de uma hora antes da abertura das portas, pouca gente ainda se concentrava na fila. Aos poucos, porém, mais pessoas iam chegando, e mais próximo do horário marcado para a entrada, já havia uma certa concentração de fãs. A previsão era o público começar a entrar às 18h30, mas tivemos grata surpresa: dez minutos antes liberaram a entrada. Tranquilamente e sem problemas, as pessoas foram se acomodando lá dentro. Tínhamos ainda uma hora e meia de espera para o começo do show, então a pouca quantidade de gente naquele começo foi pouco a pouco mudando de figura, com grande volume de fãs entrando na casa. Finalmente, quando menos percebemos, logo antes de começar o show, o local estava bem cheio – definitivamente não lotado, mas suficientemente cheio para podermos falar que foi um sucesso, ainda mais levando em conta ser uma banda de um gênero relativamente “nichado” no país.
Geralmente, elogios para a pontualidade da Overload, produtora responsável pelo evento, são padrão. Dessa vez, não tanto. Previsto para às 20h, apenas 5 minutos depois as luzes foram se apagar e o show começava. Por um lado, 5 minutos ainda é atraso; por outro, é um atraso tão pequeno que se não podemos elogiar, impossível também criticar, visto que muitas vezes temos atrasos muito maiores em eventos de algumas outras produtoras. O fato de ser um bom horário, e sem banda de abertura, ameniza ainda mais esse discreto atraso. No fim, posso dizer com quase certeza que não incomodou ninguém.

O primeiro bloco do show do Dark Tranquillity foi composto de um repertório do clássico disco Gallery, que ano passado completou trinta anos. No início, ao tocarem a primeira música, Punish My Heaven, foi possível perceber alguns problemas de som: voz baixa, tons da bateria quase inaudíveis. Por sorte, isso foi mitigado ainda antes de ela terminar e ao tocarem Edenspring, os problemas já eram quase imperceptíveis. Melhor ainda foi em Lethe, que correu sem problema algum e com uma performance impecável – a mais famosa do disco em questão realmente não poderia ter percalços. A partir daí, só alegria! Stanne mostrava, como sempre, porque é um dos vocalistas mais respeitados e admirados do mundo, e tanto na sua bonita e grave voz limpa, quanto em seu gutural, o que se ouvia era simplesmente igual ao gravado em CD – quando não ainda melhor, visto que ele evoluiu muito nos anos seguintes àquele álbum. Sua interação com o público era intensa, e até destoante; enquanto parece um demônio cantando, falando ele sorri, coloca a mão no peito, é delicado e tem uma conexão com o plateia que deixa até o mais turrão emocionado. Frontman completo e inquestionável.

A performance da banda estava irretocável. Sem pôr nem tirar, eram aquelas músicas – cinco delas – tocadas exatamente como se espera. Cheguei a pensar, naquele momento, que se o álbum fosse tocado na íntegra, valeria a pena uma gravação ao vivo, pois a versão de estúdio, por melhor que seja, é antiga e de uma banda que na época não tinha um grande orçamento. Sou contra regravações de estúdio, mas ao vivo seria incrível como material a ser lançado. Finalizaram o bloco inicial com The Emptiness from Which I Fed e The Dividing Line. Finalização em alto estilo!
A banda fez questão que soubéssemos que o “bloco” iria mudar. Saíram rapidamente do palco, e quando voltaram o próprio pano de fundo foi mudado, assim como o tom da iluminação. Era hora de uma sequência de seis sons do disco Character, o aniversariante de vinte anos.

Se houve mudança na estética, o mesmo não se pode dizer da performance da banda: continuavam impecáveis! Não apenas Mikael, mas os guitarristas Johan Rainholdz e Peter Lyse Karmark reproduziam cada riff e cada solo fielmente, mesmo não sendo os músicos que gravaram o disco. O mesmo vale para o baixista Jonathan Thorpenberg, que tem um timbre singular no baixo, e o baterista Joakim Strandberg Nilsson, que mantém exatamente o que o álbum pede. Quero dar um destaque ao tecladista Martin Brandström, membro mais antigo do Dark Tranquillity depois do vocalista e letrista Stanne, e um dos principais compositores de todos os grandes discos que marcaram a carreira da banda – o grupo é o que é hoje por causa dele, e não para menos, pois é um músico de mão cheia!

As faixas do disco em questão escolhidas para formarem essa parte do show… Bem, eu sinceramente não sou a melhor pessoa do mundo para dizer se foram as melhores escolhas, já que gosto desse disco por completo e igualmente (sabe aqueles trabalhos que são tão bons que simplesmente não dá para decidir quais faixas são as melhores? Esse é um deles), então digo com segurança que ali não tem erro. Foram elas: The New Build, One Thought, The Endless Feed, Through Smudged Lenses, My Negation e, finalmente, a fantástica Lost to Apathy, um hino incontestável do gênero.

Com já onze faixas de dois álbuns icônicos apresentadas, o melhor momento ainda estava por vir: quando o backdrop foi retirado e o telão ligado, as músicas “sortidas”, aquelas de álbuns diversos ao longo da carreira, foram tocadas. Novamente, mais acertos! Bem, com uma discografia tão rica e apenas mais nove músicas a serem executadas, era difícil agradar a todos; sempre vai ficar faltando alguma ou outra, mas escolheram bem. É claro que o disco mais recente, Endtime Signals, não podia faltar, e dois temas dele foram apresentados inicialmente, The Last Imagination e Unforgivable. Entre elas, a mais famosa da fase mais “crua” da banda, ThereIn – fase essa que até hoje divide a opinião dos fãs, mas é fato que essa canção em específico é quase unanimidade, e foi muito celebrada quando anunciada. Outra que não podia faltar foi Atoma, faixa-título do disco de 2016, que por muitos é considerado o melhor da banda (que, aliás, está completando 10 anos em 2026; não seria nada mal alguns shows comemorativos tocando-o na íntegra). Not Nothing, outra do disco do ano retrasado, e a clássica Terminus (Where Death Is Most Alive), do álbum Fiction, fecharam a parte antes do bis. Vale dizer que o disco há pouco citado foi o mais contemplado nessa parte do show. Terminaram o que parecia ser o fim de seu set com Phantom Days e Misery’s Crown.

Mas não acabou por aí! Emocionado, Mikael começou a falar sobre um de seus amigos mais antigos e próximos, segundo suas palavras – aquele a quem, de acordo com ele, devemos todos agradecer pela cena de Gotemburgo existir, e um dos maiores no gênero: Tomas Lindberg. O vocalista do At the Gates, falecido no ano passado, exatamente no dia em que o próprio Stanne tocava no Brasil com o Cemetery Skyline, merece todo tipo de homenagem, e assim foi. Tocaram um cover de Blinded By Fear, do citado At the Gates. Embora já tenha feito essa homenagem diversas vezes desde então, seu amor pelo falecido amigo é nítido e toda vez ele se emociona. Aí, sim, show terminado com outra música do At the Gates, The Flames of the End, tocando em playback com a foto de Tomas no telão, e mais emoção.

Ainda é cedo para falar de “show do ano”, claro, mas o Dark Tranquillity apresentou o que se esperava: qualidade nas músicas e dos músicos, repertório completo e bem escolhido. Se não podemos falar ainda nos melhores, ao menos, como disse Fernanda Torres no comercial pseudopolêmico das sandálias havaianas, começamos o ano de 2026 na parte musical não com o pé direito, mas com os dois pés. Que não demorem a voltar, seja sozinhos, ou novamente no Bangers Open Air!

Setlist
Punish My Heaven
Edenspring
Lethe
The Emptiness from Which I Fed
The Dividing Line
The New Build
One Thought
The Endless Feed
Through Smudged Lenses
My Negation
Lost to Apathy
The Last Imagination
ThereIn
Unforgivable
Atoma
Not Nothing
Terminus (Where Death Is Most Alive)
Phantom Days
Misery’s Crown
Blinded by Fear
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