EDU FALASCHI – SÃO PAULO (SP)

15 de agosto de 2026 – Tokio Marine Hall

Por Fernando Queiroz

Fotos: Anderson Hildebrando

É interessante pensar que desde a última vez que escrevemos sobre um show solo de Edu Falaschi tanta coisa mudou – e em tão pouco tempo! Da histórica reunião com o Angra, no Bangers Open Air, ao lançamento de seu novo álbum, Mi’raj, são tantas coisas para falar que fica até difícil. O que podemos ter certeza é que esse não seria “mais um” show dele; foi um momento que, ao menos assim vejo, era para festejar. E festa nós tivemos! Tanto por conta dos convidados especiais, do setlist escolhido e da longa duração, essa foi uma apresentação que mudou os ares do que estávamos acostumados. E foi uma mudança para melhor! Muito melhor!

Serei bem direto: Edu fez algumas escolhas que considero erradas ao longo dos anos. Da insistência em requentar álbuns do Angra ano após ano, turnê após turnê, a simplesmente renegar muitas obras de seu passado. Essa primeira, em especial, foi benéfica no curto prazo – sim, ele lotou shows e mais shows tocando os discos que o consagraram –, mas criou um vício no público no longo prazo, e pudemos ver a principal consequência agora. Infelizmente, desta vez o show não teve um grande público. Ao contrário, foi um dos mais vazios que presenciei no Tokio Marine Hall. Claro, não apenas pelo que já foi falado, mas outros fatores também ajudaram: teremos shows do Angra, agora com nova formação, pouco mais para frente no ano, e a própria quantidade insana de outras datas dos inúmeros artistas do dito “angraverso” também acabam por prejudicar. De toda forma, o que posso dizer é, parafraseando grande amigo que me acompanhou lá, “azar de quem não foi!” De fato, a premissa de tocar vários materiais fora de sua carreira no Angra, passeando pela atual carreira solo, seu material no Almah e até mesmo no Symbols, Mitrium e Venus, é um prato cheio para os conhecedores e apreciadores de sua obra. Para os fãs especificamente do Angra, nem tanto, o que é uma pena. São músicas que merecem ser ouvidas e funcionaram muito bem ao vivo. Dito tudo isso, vamos aos shows!

A abertura de uma festa dedicada à carreira de Edu ficou a cargo do nome mais condizente possível: Tito Falaschi, irmão mais novo da atração principal e que também foi seu parceiro de banda no Symbols, na qual ambos dividiam os vocais (e Tito também tocava o contrabaixo). O “Falaschi mais novo” já passou por várias bandas ao longo de sua jornada na música, mas seu foco sempre foi na produção e na engenharia de áudio. Apesar disso, ele já lançou dois discos solo com seu nome, e não poderia haver oportunidade melhor para apresentar seu som que para o público de seu irmão mais velho. Infelizmente, novamente, esse público ficou a desejar em quantidade, e havia ainda menos gente no momento que a banda de Tito tocava – banda essa que, diga-se de passagem, conta com músicos extraordinários! Bem, a falta de gente para vê-los definitivamente não os desanimou ou intimidou, e do começo ao fim o que se viu e ouviu foi um grupo muito entrosado, apresentando canções que iam do metal mais tradicional ao hard rock e, claro, com aquela pitada de power metal. Vale dizer, essa mistura ficou muito boa nos discos, que valem muito a pena serem ouvidos, em especial o último, Time to Move On, e funcionaram perfeitamente ao vivo.

Em termos de qualidade de som, inclusive, em muitos momentos acabou ficando melhor do que durante o próprio show de Edu. E a ideia de fecharem seus pouco mais de trinta minutos de palco com um cover de Iron Maiden também caiu como uma luva – quem não se anima com The Evil that Men Do, não é mesmo? Valeu a pena ter chegado um pouco mais cedo para prestigiar. Para quem (creio que a maioria ali) nunca tinha visto Tito cantando e tocando ao vivo – ele também cuida do baixo no show – viu que sua voz é bem parecida com a do irmão, embora um bocado mais aguda, chegando em altíssimos tons. E isso ficou ainda mais evidente durante o evento principal, do qual falaremos logo mais, mas já posso adiantar que a dinâmica dos irmãos no palco é incrível.

Assim, chegamos ao momento esperado, o show do icônico vocalista Edu Falaschi, um dos mais importantes nomes do heavy metal brasileiro – ontem, hoje e, não tenho a menor dúvida, sempre. Como dito anteriormente, sua carreira não é impecável, e muitos dos erros ao longo dela parecem se refletir agora. Em especial, sua dependência em tocar músicas do Angra e celebrar incansavelmente álbuns dessa época em sua carreira solo criaram um vício oculto no público, que aparentemente tende a esperar isso dele em qualquer ocasião. É um dos motivos pelos quais, nessa noite, mesmo com ampla divulgação e tantos convidados, chegou a hora de seu show e as duas pistas – premium e comum – estavam com pouca gente. Tanto que uma parte, já mais atrás, estava fechada e inacessível, com uma cortina cobrindo. Claro, isso era para tentar fazer as pessoas se juntarem mais. Novamente, uma pena, e quem deixou de ir, perdeu um grande espetáculo. Na verdade, posso dizer com propriedade que perdeu um dos melhores shows que Edu fez em toda sua carreira solo até hoje!

Programado para as 21h, Edu veio ao palco com exatamente dez minutos de atraso. Está dentro da “margem de erro” e totalmente tolerável. É bem verdade que, pela duração prevista da apresentação, com vinte e seis músicas no repertório, poderia ter sido marcado para meia hora antes, mas nos acostumamos a esperar horários ainda piores, no geral. Era um sábado, dava para tolerar. Bem, como esperado, o vocalista e sua banda – formada por Diogo Mafra e Victor Franco nas guitarras, Rafael Dafras no baixo, Fabio Laguna nos teclados e Jean Gardinalli na bateria, além da recente adição de Marcus César na percussão – começaram com a faixa de abertura de Mi’raj, a típica canção ‘speed’, Watchers of the Light. Como quase todas as faixas de abertura de álbum que ele já compôs, essa também funciona perfeitamente para começar um show, e embora eu tenha algumas reservas quanto ao disco em si, não dá para negar que segue o que todo fã dele, em especial em seus dias de Angra, quer ouvir. E falando em Angra, em seguida veio uma de um dos álbuns mais polêmicos deles, Ego Painted Grey, do famigerado Aurora Consgurgens, do já distante ano de 2006 – disco esse que apenas mais recentemente se mostrou com uma base bem consistente de admiradores, algo que não era aparente quando foi lançado.

Em seguida, chamou seu irmão Tito de volta ao palco, junto ao guitarrista Demian Tiguez, e contou histórias de como, à época do Symbols, a ideia foi fazer uma espécie de Supertramp do metal, com dois vocalistas. Assim foi. Tocaram a mais famosa música dessa banda, que, como Edu disse, foi sua primeira experiência realmente mais profissional. A clássica Eyes in Flames mostrou, para todos os efeitos, como o Symbols deveria ter sido uma banda mais bem-sucedida. A dinâmica de ambos irmãos no palco é incrível, e me faz pensar que, talvez, essa parceria deveria ficar de forma mais “permanente”, talvez em algum futuro projeto. Confesso, porém, que gostaria que a canção escolhida para representar essa fase de sua carreira tivesse sido The Traveller. Quem sabe em outra oportunidade, mas fica a dica, Edu, que essa deveria ser tocada em algum momento.

Acho que nesse momento, já podemos fazer uma análise preliminar da coisa. Bem, no começo, ainda na primeira música, Edu não entrou cantando tão bem, e isso é inegável. Derrapou em várias partes e não atingiu tons. Porém, como um carro que pega no tranco, ao longo dos minutos seguintes sua voz melhorou muito e já no dueto com seu irmão estava “zero bala”, como costumávamos dizer lá em mil novecentos e guaraná com rolha.

Mais um som de seu novo disco, Echoes of Vows, e então Running Alone, de Rebirth, sua estreia no Angra. Essa, lá atrás, era considerada uma música até meio “esquecida” daquele álbum, e nem sequer está no DVD da turnê dele, de 2001; apenas recentemente voltou a ser lembrada. Ainda bem, pois é uma ótima música. Seguimos com Eyes of Time, do Mitrium, essa sim a primeira banda da carreira de Edu, ainda no começo dos anos 90. Como ele disse, provavelmente essa foi a última vez que tocou aquela música, então quem viu, viu. Outra surpresa foi Lease of Life, a icônica balada do álbum Aqua, de 2010. Embora seja um disco problemático por alguns motivos, essa canção foi extremamente celebrada por todos presentes. Talvez a que mais animou todos até aquele momento, fosse por ser realmente uma faixa muito querida, ou pela surpresa de ter sido tocada. Muitos, eu incluso, não esperavam por ela no repertório. É, sim, possível dizer que valeu a noite para vários presentes. Era hora de mais uma participação e dessa vez quem subiu ao palco foi Thiago Bianchi, do Noturnall, para um dueto em The Ancestry, do disco Vera Cruz, o primeiro da carreira solo de Edu. Novamente, ouviu-se uma performance sólida de ambos. E sólida também foi a participação do saxofonista Wagner Barbosa em Unchained. Ele até arriscou mandar o clássico riff de sax de Careless Whisper, de George Michael.

Depois de A Monster in Her Eyes, outra grata surpresa: a balada Leaving the Light, da banda Venus, da qual Edu fez parte durante curto período. O baixista original da banda, Kao, foi chamado ao palco para a bela música ser executada. Era, de fato, uma celebração a toda a carreira do vocalista, que já completa 35 anos nesse ramo. Provavelmente essa é a única e última oportunidade que muitos tivemos de ouvir algumas dessas faixas mais “obscuras” da carreira dele. Um privilégio. Mas não posso dizer o mesmo de Arising Thunder. Desde que foi lançada, sempre achei essa uma música forçada e soando como uma cópia de tudo que já fizeram, mas sem a mesma grife. Facilmente poderia ser trocada pela excelente Rage of the Waters, do mesmo disco Aqua. Mas o momento fraco não durou, e logo o ótimo medley de Land Ahoy e Eldorado, com a participação de Fabio Caldeira (da banda Maestrick) melhorou tudo. Outra que facilmente poderia ser trocada é The Voice Commanding You, embora entendo que é uma que conquista o público.

A mais curiosa participação da noite, porém, foi de Fernando Anitelli, do grupo O Teatro Mágico. Confesso que desconheço por completo o trabalho desse artista e seu conjunto, mas seu visual baseado em circo e com rimas complexas e trocadilhos inteligentes na música que ele cantou ali demonstrou que é um letrista de mão cheia. Quem se juntou a eles, então, foi ninguém menos que Rafael Bittencourt! O ex-colega de Edu no Angra tocou, junto de ambos, Intuição, também do último e novo disco. O convidado seguinte foi outro membro do Angra, Felipe Andreoli, que também fez parte do Almah. Tocaram exatamente uma dessa banda, Birds of Prey. Agora, sim, a cartela do bingo de bandas por onde Edu passou estava completa. Mas o show não estava nem perto de acabar, e em mais um momento que animou o público, foi a vez de Bleeding Heart para delírio de todos. Como sempre, Edu insistiu em falar sobre aquela ser uma música que ultrapassou os limites do universo do rock, e cantou partes em português da versão forró gravada pelo Calcinha Preta. Isso foi legal nas primeiras vezes, mas já faz quase uma década que ele incessantemente fala exatamente a mesma coisa sobre essa faixa. Espero que um dia possamos ouvi-la ao vivo sem essas partes desnecessárias, tocada como foi gravada originalmente do início ao fim, mas do jeito que vai, dificilmente isso ocorrerá.

A próxima convidada a subir ao palco foi também a primeira internacional, a italiana Veronica Bordacchini da banda de death metal Fleshgod Apocalypse. Ela cantou Spread Your Fire, e então fez o melhor número da noite, com um solo de voz lírica de deixar qualquer um de queixo caído! Por fim, cantou a faixa-título do último disco de Edu, Mi’raj. A cantora deu lugar a outra atração “gringa”, o vocalista Dino Jelusic. Sua performance em Heroes of Sand deixou a desejar; é uma canção que exige vocais suaves e o croata tem aquela voz cheia de drive, como bom discípulo de David Coverdale. Excelente, porém não combina. Ele só foi realmente mostrar a que veio em Stand Up and Shout, de Dio, e em Here I Go Again, do Whitesnake. Ali, sim, ele se sobressai! Quando saiu do palco, veio outro momento de serviço aos fãs com Pegasus Fantasy, do desenho japonês Os Cavaleiros do Zodíaco – essa, inclusive, é uma das músicas que impulsionou a carreira de Edu entre os então jovens do começo dos anos 2000.

Ainda tinha espaço para mais, e faltava algo. Não mais! Rafael Bittencourt e Felipe Andreoli voltaram ao palco e as saideiras Rebirth e Nova Era fecharam a noite. E que noite!

Entre erros e acertos, até mesmo quando errou, Edu conseguiu agradar. O público, apesar de diminuto e um pouco apático, formado majoritariamente por pessoas mais velhas e que acompanham há muito tempo a carreira do vocalista, saiu de lá satisfeito. Desde que ele começou seu trabalho solo, poucas foram as vezes – talvez nenhuma vez, diga-se de passagem – em que ele foi tão ousado em seu setlist e nas participações. Mostrou, naquele momento, que é um artista e músico por si só, e não apenas um ex-membro do Angra. Passeando por sua carreira, Edu Falaschi entregou um dos melhores shows de sua trajetória com seu próprio nome até o momento – ao menos dos que estive presente, com sobras foi o melhor. Cantou bem, estava leve e solto no palco, e finalmente em paz para poder entregar o show que quer e que deve. Espero que possamos ver mais momentos como esse, com ele debulhando toda sua jornada, do começo até o presente momento, e revisitando músicas que poucas vezes foram tocadas.


 

Setlist

Watchers of the Light

Ego Painted Grey

Eyes in Flames

Echoes of Vows

Running Alone

Eyes of Time

Lease of Life

The Ancestry

Unchained

A Monster in Her Eyes

Leaving The Light

Arising Thunder

Land Ahoy/Eldorado

The Voice Commanding You

Sintaxe à Vontade / Da Luta

Intuição

Birds of Prey

Bleeding Heart

Spread Your Fire

Ode to Art (de’ Sepolcri)

Mi’raj

Heroes of Sand

Stand Up and Shout

Here I Go Again

Pegasus Fantasy

Rebirth

Nova Era

 

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