Por Leandro Nogueira Coppi
Em 17 de setembro de 1991, o Guns N’ Roses fez algo que, para os padrões da indústria fonográfica daquele momento, beirava a insanidade: colocou simultaneamente nas lojas não um álbum novo, mas dois. Eram Use Your Illusion I e Use Your Illusion II, 30 músicas distribuídas em mais de duas horas e meia de música que ampliavam brutalmente a paleta apresentada quatro anos antes em Appetite for Destruction. Hoje, 35 anos depois, os dois discos continuam como o retrato mais grandioso, ambicioso e contraditório da banda em seu auge.
Mais do que sucessores de um dos maiores álbuns de estreia da história do hard rock, os dois Use Your Illusion registraram um Guns N’ Roses em plena transformação. A banda ainda carregava a sujeira, a agressividade e o espírito de rua de seus primeiros anos, mas agora queria orquestrações, pianos, coros, baladas épicas, blues, country, músicas extensas, covers, experimentações e espaço para praticamente todas as ideias que seus integrantes tinham acumulado ao longo dos anos.
E havia uma razão para tanta música: boa parte daquele repertório não havia surgido depois de Appetite for Destruction. Algumas das composições eram muito mais antigas.
O problema de suceder Appetite for Destruction
Depois do impacto de Appetite for Destruction, lançado em 1987, o Guns N’ Roses tinha um problema que poucas bandas enfrentam: como continuar depois de ter criado um fenômeno?
A resposta não foi tentar repetir Welcome to the Jungle, Paradise City e Sweet Child o’ Mine. O grupo decidiu fazer exatamente o contrário.
Canções que já existiam havia anos começaram a ganhar nova vida. Don’t Cry, Back Off Bitch, Bad Obsession, The Garden, You Could Be Mine e November Rain eram anteriores ao lançamento de Appetite for Destruction. Algumas remontavam aos primeiros anos do grupo e outras já haviam sido trabalhadas antes mesmo de o Guns N’ Roses conquistar seu contrato com a Geffen Records.
Don’t Cry, por exemplo, nasceu nos primeiros tempos da banda, enquanto November Rain era uma composição que Axl Rose carregava havia anos, originalmente em uma concepção muito mais centrada no piano. A música chegou a ser trabalhada em versões preliminares antes de ganhar a forma monumental que o público conheceria em 1991.
A diferença é que, agora, o Guns tinha dinheiro, estúdio, liberdade artística e uma expectativa gigantesca em torno de seu próximo passo.
O resultado foi um excesso deliberado.
Trinta músicas — e dois discos em vez de um álbum duplo
Os trabalhos não foram apresentados simplesmente como um álbum duplo tradicional. Use Your Illusion I e Use Your Illusion II eram dois lançamentos separados, cada qual com sua própria identidade, capa, sequência de músicas e duração.
O primeiro traz 16 faixas e aproximadamente 76 minutos. O segundo reúne 14 músicas e dura cerca de 76 minutos. Juntos, são 30 faixas e mais de duas horas e meia de material.
A ideia de dividir o repertório permitiu que a banda não precisasse comprimir seu material em um único álbum convencional.
E Axl Rose enxergava o projeto como um todo. A própria concepção do trabalho fazia mais sentido quando as 30 músicas eram consideradas em conjunto, e não necessariamente como dois discos completamente independentes.
A divisão, entretanto, acabou criando uma discussão que permanece até hoje entre fãs: qual dos dois é melhor?
A resposta muda conforme a preferência.
Use Your Illusion I concentra alguns dos momentos mais imediatamente reconhecíveis da fase: Right Next Door to Hell, Dust N’ Bones, Live and Let Die, Don’t Cry, Perfect Crime, Bad Obsession, November Rain, Garden of Eden, Dead Horse e a épica Coma.
Já Use Your Illusion II apresenta uma sequência particularmente forte de composições como Civil War, 14 Years, Yesterdays, Knockin’ on Heaven’s Door, Get in the Ring, Breakdown, Pretty Tied Up, Locomotive, Estranged e You Could Be Mine.
Não por acaso, os dois discos possuem personalidades distintas sem deixarem de pertencer ao mesmo universo.
O Guns N’ Roses ficou maior — e mais complicado
O Guns N’ Roses que gravou Use Your Illusion não era exatamente o mesmo quinteto de Appetite for Destruction.
Dizzy Reed havia entrado para a formação em 1990, acrescentando teclados, piano e órgão à sonoridade da banda. E Matt Sorum, ex-baterista do The Cult, assumiu as baquetas depois da saída de Steven Adler.
A mudança de baterista não foi um detalhe.
Steven Adler participou da gravação de Civil War, que acabou sendo sua última contribuição com o Guns N’ Roses. Os problemas relacionados ao uso de drogas já vinham comprometendo sua capacidade de trabalhar, e a gravação da música evidenciou uma situação que a banda já não conseguia contornar.
Matt Sorum, por sua vez, ajudou a estabelecer uma nova dinâmica rítmica para o grupo.
Curiosamente, uma das primeiras gravações feitas com ele foi justamente Knockin’ on Heaven’s Door, de Bob Dylan, registrada originalmente para a trilha sonora de Days of Thunder, filme de 1990 estrelado por Tom Cruise. A experiência ajudou a preparar o terreno para o trabalho que viria depois.
A formação que efetivamente colocou os Use Your Illusion no mundo era, portanto, um sexteto:
Axl Rose — vocais, piano e teclados
Slash — guitarra
Izzy Stradlin — guitarra, vocais e violão
Duff McKagan — baixo, vocais e outros instrumentos
Matt Sorum — bateria
Dizzy Reed — teclados e piano
E a música começava a soar como tal…

36 músicas em 36 dias
As gravações principais começaram em janeiro de 1990 e se estenderam até agosto de 1991, passando por diferentes estúdios de Los Angeles e também pelo Metalworks Studios, no Canadá.
Em uma das etapas iniciais, Slash e os demais músicos trabalharam em um ritmo impressionante. O guitarrista posteriormente descreveu uma sequência em que foram registradas 36 músicas em 36 dias durante a fase de gravação das bases.
Isso não significa que os dois álbuns tenham sido simplesmente capturados em pouco mais de um mês. O trabalho posterior de overdubs, vocais, teclados, guitarras adicionais, mixagem e finalização consumiria muitos meses.
E aí começou outro problema.
Quando 21 mixagens foram para o lixo
A banda inicialmente trabalhou com o renomado engenheiro de mixagem Bob Clearmountain, que chegou a finalizar 21 faixas.
O resultado, porém, não agradou ao grupo.
As mixagens foram descartadas e o trabalho recomeçou com Bill Price, profissional conhecido por seu trabalho com Sex Pistols e The Clash.
A decisão mostra o tamanho da preocupação do Guns N’ Roses com a sonoridade daqueles discos. Não bastava ter as músicas. A banda queria que elas soassem da maneira que imaginava.
E havia outra complicação: a turnê mundial já estava acontecendo.
Parte do material ainda estava sendo concluída enquanto o Guns N’ Roses percorria o mundo. As últimas faixas receberam gravações, overdubs e ajustes em diferentes estúdios durante intervalos entre apresentações. Bill Price chegou a viajar com fitas para apresentar mixes aos músicos nos bastidores.
Ou seja: o álbum estava sendo finalizado enquanto a banda já estava na estrada divulgando um disco que sequer havia chegado às lojas.
A turnê começou antes dos discos
Esse é um dos detalhes mais curiosos da história.
A Use Your Illusion Tour começou em maio de 1991, meses antes do lançamento oficial dos álbuns.
Isso permitiu que o público ouvisse ao vivo músicas que ainda não existiam comercialmente.
Em janeiro daquele ano, no Rock in Rio, no Brasil, a banda já havia apresentado parte desse futuro repertório. Matt Sorum e Dizzy Reed apareceram com o grupo, e músicas que posteriormente seriam associadas aos Use Your Illusion começaram a ganhar vida diante de dezenas de milhares de pessoas.
Foi uma situação incomum: o Guns N’ Roses estava apresentando sua próxima era ao vivo antes que o público pudesse comprá-la.
E a espera só aumentava a expectativa.
A escolha das capas
As capas dos dois discos também carregavam uma ideia artística comum.
Ambas foram baseadas em detalhes de The School of Athens, obra do pintor italiano Rafael, com adaptação de Mark Kostabi. A imagem é essencialmente a mesma, mas com diferentes combinações de cores, criando duas identidades visuais que funcionam juntas.
O conceito combinava com a própria estrutura do projeto: dois objetos distintos, mas pertencentes à mesma obra.
Mais tarde, a estética seria reutilizada em compilações e edições relacionadas ao material.
Use Your Illusion I: o disco das grandes explosões
O primeiro volume abre com Right Next Door to Hell, uma pancada que deixa claro, logo nos primeiros segundos, que a banda não pretendia fazer uma continuação comportada de Appetite for Destruction.
Dust N’ Bones traz Izzy Stradlin nos vocais e um clima mais próximo do blues e do rock de raiz. Bad Obsession segue caminho semelhante, enquanto You Ain’t the First mergulha no country e no acústico.
E então aparece November Rain.
Com 8 minutos e 57 segundos, a música representa talvez o maior símbolo da transformação do Guns N’ Roses entre 1987 e 1991. Piano, orquestrações, vocais grandiosos e os solos de Slash transformaram uma composição antiga de Axl Rose em uma das maiores baladas épicas do rock.
O single chegou ao terceiro lugar da Billboard Hot 100, feito extraordinário para uma música de quase nove minutos que dependia de uma construção progressiva e de um arranjo extremamente elaborado.
Mas November Rain não estava sozinha.
The Garden, com participação de Alice Cooper, é uma das faixas mais estranhas e atmosféricas do projeto. Garden of Eden é praticamente o extremo oposto: curta, veloz e furiosa.
E no encerramento está Coma, uma viagem de mais de dez minutos que funciona quase como um resumo de toda a megalomania musical daquele momento.
Não era uma faixa pensada para rádio.
Era uma declaração.
Use Your Illusion II: mais sombrio, político e introspectivo
Se o primeiro volume alterna explosões, baladas e experimentações, o segundo apresenta uma atmosfera frequentemente mais pesada e introspectiva.
Civil War é um dos exemplos mais claros.
A música havia sido composta ainda durante o período posterior a Appetite for Destruction e se tornou uma das peças mais importantes da transição para os Use Your Illusion. Também carrega um significado especial por ser a última gravação de Steven Adler com o Guns N’ Roses.
Depois vem 14 Years, com Izzy Stradlin assumindo os vocais, seguida por Yesterdays e pela releitura de Knockin’ on Heaven’s Door.
A versão de Bob Dylan já havia sido registrada para Days of Thunder, mas ganhou uma dimensão muito maior no repertório do Guns N’ Roses.
Get in the Ring mostra outro lado do grupo: agressivo, confrontador e disposto a transformar conflitos com a imprensa e a indústria em matéria-prima para uma música.
Já Breakdown e Pretty Tied Up mostram como a banda podia se afastar do hard rock mais direto sem perder sua identidade.
Locomotive: uma das joias escondidas
Entre as músicas mais cultuadas pelos fãs está Locomotive.
A faixa tem quase oito minutos e demonstra como o Guns N’ Roses estava disposto a deixar as músicas respirarem. Há mudanças de clima, longos trechos instrumentais e uma estrutura muito menos preocupada com a lógica de single.
É um dos melhores exemplos de como Use Your Illusion funcionava como um projeto de álbum, e não simplesmente como uma coleção de faixas destinadas às rádios.
So Fine e a voz de Duff
Outra mudança importante foi o espaço concedido aos demais integrantes.
Duff McKagan assume os vocais principais de So Fine, uma homenagem a Johnny Thunders, enquanto Izzy Stradlin canta 14 Years.
A presença de diferentes vozes ampliava a personalidade do grupo e ajudava a impedir que os dois discos se transformassem em um exercício exclusivamente centrado em Axl Rose.
Isso é particularmente interessante porque a banda começava, ao mesmo tempo, a caminhar justamente para uma estrutura em que Axl teria cada vez mais controle sobre sua direção artística.
E então veio Estranged
Se November Rain é o grande monumento do primeiro disco, Estranged ocupa posição semelhante no segundo.
Com mais de nove minutos, a música é uma das composições mais ambiciosas de Axl Rose.
Ela também integra, junto com Don’t Cry e November Rain, a famosa trilogia de videoclipes dirigida por Andy Morahan. Os vídeos possuem conexões narrativas e visuais e foram inspirados em elementos do universo de Del James, amigo de Axl e autor da história Without You.
O videoclipe de Estranged, lançado posteriormente, levou o conceito ainda mais longe — incluindo cenas marítimas, helicópteros, uma produção cinematográfica gigantesca e até os famosos golfinhos. Na época, os custos bateram recordes.
Era o Guns N’ Roses transformando uma música de quase dez minutos em um evento televisivo.
You Could Be Mine e o exterminador do futuro
Antes mesmo do lançamento dos álbuns, outra música já havia se tornado conhecida.
You Could Be Mine foi escolhida para integrar a trilha de Terminator 2: Judgment Day, de James Cameron, lançado em 1991.
O videoclipe misturava o Guns N’ Roses com imagens do filme e apresentava Arnold Schwarzenegger como o T-800.
A música também tinha uma ligação curiosa com o passado do grupo: havia sido composta antes de Appetite for Destruction, mas Slash considerava que seu caráter mais direto remetia demais ao primeiro álbum. Mesmo assim, ela acabou se tornando uma das faixas mais emblemáticas da nova fase.
Foi uma combinação perfeita de dois fenômenos gigantescos daquele ano: Guns N’ Roses e Terminator 2.
Don’t Cry: duas versões da mesma história
Outro detalhe que torna os dois discos particularmente interessantes é a presença de duas versões de Don’t Cry.
No Use Your Illusion I está a versão original.
No Use Your Illusion II, aparece uma gravação com letra alternativa.
A música, entretanto, é muito mais antiga do que os dois álbuns.
Ela nasceu nos primeiros dias do Guns N’ Roses, antes mesmo da assinatura com a Geffen Records, e acabou atravessando anos de mudanças até finalmente chegar aos discos de 1991.
A participação de Shannon Hoon, futuro vocalista do Blind Melon, nos vocais de apoio também é um dos detalhes que ligam Use Your Illusion à cena de Los Angeles daquele período. Hoon aparece em várias faixas do projeto e também no videoclipe de Don’t Cry.
Live and Let Die: o cover que virou clássico do Guns
Se há uma coisa que o Guns N’ Roses nunca teve medo de fazer foi resgatar músicas de outros artistas.
Em Use Your Illusion I, a banda gravou Live and Let Die, composta por Paul McCartney e Linda McCartney e originalmente lançada pelo Wings.
A versão do Guns N’ Roses transformou a música em uma explosão hard rock, com guitarras, bateria pesada e uma produção grandiosa.
O resultado foi tão forte que a gravação recebeu indicação ao Grammy de Melhor Performance de Hard Rock com Vocal em 1993.
No ano anterior, o próprio Use Your Illusion I havia sido indicado ao Grammy na mesma categoria. O prêmio, porém, ficou com o Van Halen por For Unlawful Carnal Knowledge.
O lançamento foi um acontecimento comercial
A estratégia de colocar os dois discos nas lojas simultaneamente funcionou de maneira espetacular.
Na semana de lançamento, Use Your Illusion II estreou em primeiro lugar na Billboard 200, enquanto Use Your Illusion I entrou em segundo.
Foi a primeira vez que uma mesma banda ocupou simultaneamente as duas primeiras posições da principal parada de álbuns dos Estados Unidos. O feito também se repetiu nas paradas do Reino Unido, Austrália e Japão.
Segundo os números de primeira semana registrados na época, Use Your Illusion II vendeu cerca de 770 mil cópias, enquanto Use Your Illusion I alcançou aproximadamente 685 mil.
A soma de vendas no primeiro dia também foi extraordinária: os dois discos chegaram a aproximadamente 960 mil cópias comercializadas naquele período inicial, um número que ajudou a transformar o lançamento em um acontecimento sem precedentes para uma banda de rock.
A RIAA posteriormente certificou ambos os álbuns, com registros de certificação para Use Your Illusion I e Use Your Illusion II em julho de 1997.
O Guns N’ Roses no topo — e o mundo mudando
Há uma ironia histórica em tudo isso.
Enquanto o Guns N’ Roses lançava dois discos gigantescos, produzia videoclipes cinematográficos, excursionava pelo mundo e consolidava sua posição como uma das maiores bandas do planeta, o cenário musical estava começando a mudar.
Uma semana depois de Use Your Illusion, o Nirvana lançaria Nevermind.
O hard rock de estádio que parecia destinado a dominar os anos 1990 começaria a dividir espaço com o grunge, o rock alternativo e uma nova estética cultural.
Mas reduzir a história a uma simples troca de guarda seria simplificar demais o que aconteceu.
Use Your Illusion foi lançado no auge do Guns N’ Roses e, ao mesmo tempo, documentou uma banda que já estava mudando internamente.
O conflito entre Axl Rose, Slash, Izzy Stradlin e os demais integrantes se tornaria cada vez mais evidente.
Izzy sai — e a história começa a desandar
Apenas dois meses depois do lançamento dos discos, Izzy Stradlin deixou o Guns N’ Roses.
Sua saída foi um golpe profundo porque Izzy não era simplesmente o segundo guitarrista. Ele havia sido um dos principais parceiros de composição de Axl, além de uma das figuras responsáveis pelo equilíbrio entre a grandiosidade do vocalista e a simplicidade que definia o grupo.
Gilby Clarke assumiu seu lugar.
A mudança de formação seria apenas a primeira de uma série que modificaria completamente a identidade do Guns N’ Roses nos anos seguintes.
E a própria Use Your Illusion Tour se transformaria em um dos capítulos mais caóticos da história do rock.
A turnê que virou uma lenda
A excursão começou em maio de 1991 e só terminou em julho de 1993.
Foram centenas de apresentações em uma escala gigantesca, passando por arenas e estádios de diversos países.
No caminho, aconteceram atrasos, cancelamentos, tumultos, problemas com autoridades, conflitos internos e episódios que alimentaram ainda mais a reputação do Guns N’ Roses como uma banda impossível de controlar.
Um dos acontecimentos mais lembrados ocorreu em julho de 1991, em St. Louis, quando Axl Rose deixou o palco durante um show após uma briga envolvendo um fotógrafo e a equipe de segurança. O episódio desencadeou um tumulto gigantesco e se tornou uma das histórias mais famosas da turnê. A frase relacionada ao incidente chegou até mesmo às notas dos álbuns.
A turnê também passou pelo Brasil em 1993, consolidando uma relação especialmente intensa entre o Guns N’ Roses e o público brasileiro.
O espetáculo se tornou tão grande quanto a música
Durante a era Use Your Illusion, o Guns N’ Roses deixou de ser apenas uma banda de rock.
Virou uma produção.
Os shows eram longos, havia solos de Slash, momentos de piano com Axl, mudanças de instrumentos, covers, músicas acústicas e uma quantidade enorme de material.
Isso se refletia nos próprios álbuns.
November Rain não era simplesmente uma faixa: era uma experiência audiovisual.
Estranged tinha um videoclipe que parecia um curta-metragem.
You Could Be Mine estava ligado a uma das maiores produções cinematográficas do período.
Don’t Cry fazia parte de uma narrativa maior.
E a banda ainda tinha músicas como Coma, Locomotive e Breakdown, que jamais poderiam ser consideradas escolhas convencionais para singles.
O Guns N’ Roses tinha chegado ao ponto em que podia fazer praticamente qualquer coisa.
O preço do excesso
Quanto maiores ficavam os discos, mais complexa se tornava a relação entre os integrantes.
Axl Rose queria explorar novas possibilidades e tinha uma visão cada vez mais abrangente para a banda. Slash permanecia ligado à guitarra, ao blues e ao hard rock. Izzy Stradlin preferia uma abordagem mais direta e simples. Duff McKagan trazia influências do punk. Dizzy Reed ampliava o espectro harmônico. Matt Sorum oferecia uma bateria diferente daquela de Steven Adler.
Use Your Illusion conseguiu reunir todas essas personalidades.
Mas também expôs suas diferenças.
Nesse sentido, os dois discos funcionam quase como uma fotografia do último momento em que todas essas peças ainda estavam reunidas.
O curioso caso de My World
E então, depois de quase 150 minutos de grandes composições, experimentações, baladas, hard rock, blues, country e orquestrações, Use Your Illusion II termina com My World.
A faixa tem pouco mais de um minuto e meio e soa quase como um fragmento experimental colocado deliberadamente no encerramento.
É uma maneira bastante apropriada de terminar um projeto tão caótico.
Depois de Estranged, que dura mais de nove minutos e apresenta algumas das ideias musicais mais elaboradas de toda a carreira do grupo, surge uma música curta, estranha e quase desconcertante.
Como se o Guns N’ Roses dissesse: ainda podemos fazer qualquer coisa.
O legado de 30 músicas
Em retrospecto, é possível entender por que Use Your Illusion I e Use Your Illusion II permanecem tão discutidos.
Eles não são discos perfeitos no sentido convencional.
Há momentos de absoluta inspiração ao lado de faixas deliberadamente exageradas. Há músicas que parecem feitas para estádios e outras que soam como experimentos pessoais de seus autores. Há clássicos universais e faixas que se tornaram tesouros principalmente para os fãs mais dedicados. Influências de Queen e Elton John também são palatáveis.
Mas é justamente essa irregularidade que torna o projeto tão interessante.
O Guns N’ Roses não estava tentando fazer um disco enxuto.
Estava tentando colocar dentro de dois álbuns tudo o que acreditava ser capaz de fazer naquele momento.
E conseguiu.
35 anos depois
Em 2022, a banda revisitou aquela época de maneira particularmente generosa com uma caixa comemorativa de Use Your Illusion, reunindo versões remasterizadas dos dois álbuns, gravações ao vivo e material adicional. A edição Super Deluxe chegou a sete CDs e um Blu-ray, incluindo o histórico show no Ritz, em Nova York, de 16 de maio de 1991, além de registros da turnê de 1991/1992.
O conteúdo dessa edição também deixa clara a quantidade de material que existia ao redor daqueles discos. Entre os registros ao vivo aparecem participações especiais, covers e performances que mostram uma banda ainda funcionando como uma unidade — pouco antes de a formação clássica começar a se desfazer.
Hoje, Use Your Illusion I e Use Your Illusion II podem ser vistos de várias maneiras.
São os sucessores de Appetite for Destruction.
São a obra mais ambiciosa do Guns N’ Roses.
São o documento de uma banda no auge da fama.
São a trilha sonora de uma das maiores turnês da história do hard rock.
São também o ponto em que as diferenças internas começaram a ficar tão grandes quanto a própria música.
Mas, acima de tudo, são dois discos que só poderiam ter sido feitos naquele momento.
Em 17 de setembro de 1991, o Guns N’ Roses não lançou simplesmente 30 músicas. A banda abriu as portas para tudo o que havia acumulado desde os primeiros dias em Los Angeles e decidiu não escolher entre o hard rock direto de Appetite for Destruction, o blues, o punk, o country, as baladas, o piano, as orquestrações, os covers e as longas viagens instrumentais.
Colocou tudo dentro da mesma obra.
E talvez seja exatamente por isso que, 35 anos depois, Use Your Illusion I e Use Your Illusion II continuem parecendo tão grandes.
Porque eles registraram o Guns N’ Roses no instante em que a banda tinha conquistado poder suficiente para transformar qualquer excesso em música — e ainda acreditava que não precisava escolher entre ser uma banda de rua e a maior banda de rock do mundo.
O repertório completo
Use Your Illusion I
- Right Next Door to Hell
- Dust N’ Bones
- Live and Let Die
- Don’t Cry
- Perfect Crime
- You Ain’t the First
- Bad Obsession
- Back Off Bitch
- Double Talkin’ Jive
- November Rain
- The Garden
- Garden of Eden
- Don’t Damn Me
- Bad Apples
- Dead Horse
- Coma
Use Your Illusion II
- Civil War
- 14 Years
- Yesterdays
- Knockin’ on Heaven’s Door
- Get in the Ring
- Shotgun Blues
- Breakdown
- Pretty Tied Up
- Locomotive
- So Fine
- Estranged
- You Could Be Mine
- Don’t Cry
- My World
35 anos depois, uma pergunta continua perfeitamente válida: ouvir os 30 temas em sequência ainda parece exagero? Talvez. Mas era justamente esse o ponto. O Guns N’ Roses de 1991 não queria ser razoável. Queria ser enorme.
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