DR. CHUD’S X-WARD – SÃO PAULO (SP)

16 de agosto de 2026 – Hangar 110

Por Marcelo Gomes

Fotos: Roberto Sant’Anna (*exceto onde indicado)

No domingo, dia 16 de agosto, o Hangar 110 recebeu Dr. Chud’s, o lendário baterista que marcou época nos Misfits nas eras American Psycho (1997) e Famous Monsters (1999) e que chegou ao Brasil para encerrar sua turnê latino-americana à frente do Dr. Chud’s X-Ward, não atrás das baquetas, mas como frontman. Mas, logo que cheguei à casa, notei poucas pessoas presentes e surgiu a preocupação de que o pequeno público pudesse afetar o desempenho da banda. Ledo engano. O que se viu foi justamente o contrário: Dr. Chud assumiu o palco como um verdadeiro frontman, teatral, irreverente e absolutamente imune às circunstâncias, enquanto Sobera (guitarra), William Vazquez (baixo) e Edgar Avian (bateria) formavam uma base sólida e precisa para sustentar a apresentação. O Hangar 110, frequentemente apontado como uma espécie de CBGB’s brasileiro por sua importância para a cena underground, acabou se transformando no cenário perfeito para uma noite dedicada ao legado dos Misfits.

A primeira surpresa veio justamente na posição ocupada por Dr. Chud. Conhecido principalmente por sua trajetória como baterista dos Misfits, ele apareceu à frente do palco como vocalista, uma escolha que poderia gerar dúvidas, mas que rapidamente se mostrou acertada. A introdução instrumental, lenta, arrastada e carregada de uma atmosfera doom, remetia diretamente ao Black Sabbath e serviu de trilha para uma entrada performática, com Chud rastejando pelo palco e explorando cada espaço como um personagem de filme de terror. Em seguida, Lost in Space, dos Misfits, colocou a apresentação definitivamente nos trilhos. Antes de Mommy Made Luv 2 an Alien, o vocalista explicou que aquele era o último show da turnê e que havia escrito a música para os próprios pais, revelando um lado mais pessoal em meio ao universo sombrio do repertório.

Os imprevistos, longe de prejudicar o espetáculo, acabaram se tornando parte dele. Uma corda da guitarra de Sobera quebrou e obrigou a banda a fazer uma pausa. Dr. Chud aproveitou o momento para explicar que aquela turnê representava seu legado ao passado e uma oportunidade de mostrar como seria sua interpretação das músicas como cantor. Também revelou que, voltando para casa, pretende começar a trabalhar em um novo disco. Enquanto William Vazquez e Edgar Avian improvisavam uma jam, Chud brincou dizendo que achava que Joey Ramone estava por ali e, para completar a cena, pegou um par de baquetas e entrou na jam. Quando tudo voltou ao normal, Speak of the Devil, Crimson Ghost, Fiend Club e Saturday Night elevaram definitivamente a temperatura do Hangar 110, com o público cantando em alto e bom som e abrindo rodas no meio da pista.

A relação de Chud com os fãs foi um dos pontos altos da noite. Entre uma música e outra, o vocalista conversava, fazia piadas e demonstrava uma espontaneidade que aproximava ainda mais o público do artista. Ao comentar que não havia fumado maconha durante toda a turnê e que gostaria de fazê-lo na próxima, arrancou risadas dos fãs. Pouco depois, outra corda da guitarra se rompeu, e Chud arriscou falar em português: “Estourou a corda”, provocando nova explosão de risadas e aplausos.

O repertório continuou passeando pela história dos Misfits, com The Hunger, Hate the Living, Love the Dead, Hunting Humans, Resurrection, Die Monster Die e Astro Zombies, além de faixas da carreira de Chud, como Rabid, Goodbye, Spiderbaby, Blue Skin, Bury You Alive e Powerless. Em Bury You Alive, Chud se empolgou tanto com a reação do público que desceu do palco para entrar nas rodas enquanto cantava em meio à festa que faziam.

Um dos momentos mais carregados de significado aconteceu quando Dr. Chud apresentou Walking Dead, explicando que a música vinha de uma banda anterior aos Misfits, o Sacred Thrash, e dedicando-a ao brasileiro Marcelo Liotti, falecido recentemente. Na sequência, a atmosfera ganhou contornos ainda mais inusitados quando surgiu a referência a Joey Ramone. “Meu Deus, ele realmente está aqui”, brincou Chud ao anunciar o cover de Do You Wanna Dance?, com um Joey caracterizado e reproduzindo de maneira bastante convincente sua voz e presença. A homenagem continuou em 1969, dos Stooges, que também apareceu no álbum solo de Joey Ramone, Don’t Worry About Me (2001), e que contou, em sua gravação original, com a participação de Dr. Chud e Jerry Only. A noite ainda teve Forbidden Zone, com Chud assumindo a bateria para matar as saudades dos fãs e a participação do vocalista do Sangre, banda tributo aos Misfits.

Se a performance já havia sido intensa, o encerramento transformou a apresentação em uma verdadeira celebração. Para completar a festa ao som de um dos grandes clássicos dos Misfits, tocaram Dig up Her Bones, com Dr. Chud ainda na bateria, enquanto uma série de convidados tomou o palco, incluindo até uma criança que fazia os backings durante o refrão. Um final grandioso para um show que, a princípio, gerava certa desconfiança. Se a quantidade de pessoas presentes poderia ter sido motivo de preocupação no início da noite, aqueles que compareceram compensaram qualquer ausência com entrega absoluta. Em seu novo posto, Dr. Chud provou ser um frontman carismático, teatral e incansável, capaz de transformar imprevistos em diversão e um público pequeno em uma multidão barulhenta. No Hangar 110, o legado dos Misfits foi honrado com uma noite intensa, divertida e genuinamente punk.

Foto: Marcelo Gomes

Setlist

Intro
Lost in Space (Misfits)
Mommy Made Luv 2 an Alien
Speak of the Devil (Misfits)
Crimson Ghost (Misfits)
Fiend Club (Misfits)
Saturday Night (Misfits)
The Hunger (Misfits)
Hate the Living, Love the Dead (Misfits)
Walking Dead
Hunting Humans (Misfits)
Do You Wanna Dance? (Ramones)
Resurrection (Misfits)
Rabid
Goodbye
Die Monster Die (Misfits)
Spiderbaby
Blue Skin
Astro Zombies (Misfits)
Bury You Alive
Powerless
1969 (Joey Ramone)
Forbidden Zone (Misfits)
Dig Up Her Bones (Misfits)

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