LEFT TO DIE – SÃO PAULO (SP)

09 de setembro de 2026 - Burning House

Por Leandro Nogueira Coppi

Fotos: Daniel Agapito

É triste pensar que o Death integra a seleta lista de bandas que encerraram suas atividades sem nunca terem visitado o Brasil, como Type O Negative, Bathory e Bolt Thrower, por exemplo. No caso de algumas dessas bandas, cujos principais integrantes já faleceram, é inadmissível para muitos fãs a ideia de os remanescentes se reunirem e saírem tocando ao vivo. No caso do Death, porém, há um agravante: Chuck Schuldiner, fundador, principal compositor, vocalista, guitarrista e figura central de toda a trajetória da banda, morreu em 2001, aos 34 anos. Tido como um gênio por sua contribuição ao metal extremo, Chuck deixou uma obra cuja importância faz com que muitos fãs desprezem qualquer movimento envolvendo o nome do Death sem a sua presença. Ainda assim, a música que criou permanece viva, e isso acabou dando origem não a uma, mas a três bandas tributo criadas especificamente para levar as composições do Death aos palcos: Death to All, Left to Die e Living Monstrosity. Apesar de alguns torcerem o nariz para essas reuniões, outros tantos preferem entender que a história de uma banda também é formada pelo legado deixado por todos os seus integrantes e que há valor na oportunidade de vê-los ao vivo, tocando músicas que foram importantes para os fãs.

É justamente nesse contexto que se insere o Left to Die, banda que conta com dois ex-integrantes do Death: os lendários Rick Rozz, guitarrista que cofundou a banda ao lado de Chuck Schuldiner e Kam Lee, e Terry Butler, baixista. O grupo estreou em solo brasileiro em janeiro de 2025. Na ocasião, durante a turnê “Scream Bloody Leprosy Over Latin America”, o grupo montou um repertório baseado nos dois primeiros álbuns do Death, Scream Bloody Gore (1987) e Leprosy, este último executado na íntegra. No último dia 9 de setembro, a banda retornou ao Brasil para uma série de seis apresentações, encerrada em São Paulo, trazendo algumas mudanças em relação à passagem anterior.

A principal delas estava no conceito da nova turnê, “Scream Bloody More – Latin American Tour”, dedicada à execução integral de Scream Bloody Gore, além de algumas músicas de Leprosy e outras novidades. Houve também uma mudança de endereço: se na primeira visita o grupo se apresentou no Fabrique Club, desta vez o palco foi a Burning House. Nesse intervalo, o Left to Die ainda lançou, em 2026, seu primeiro álbum, Initium Mortis, resgatando composições que circularam por diferentes formações da banda entre 1983 e 1987.

A formação que desembarcou no Brasil também sofreu uma alteração de última hora. Rick Rozz, Terry Butler e o vocalista e guitarrista Matt Harvey (Exhumed/Gruesome) chegaram ao país acompanhados do baterista Gus Rios (Gruesome, ex-Malevolent Creation), mas o músico precisou retornar aos Estados Unidos depois de apresentar problemas de visão ao chegar ao Aeroporto Internacional de Guarulhos, em São Paulo. Gus foi levado a um atendimento oftalmológico, e a avaliação constatou uma condição que exigia atenção imediata. Por recomendação médica, ele deveria retornar o quanto antes aos Estados Unidos para iniciar o tratamento adequado.

A situação ganhou contornos ainda mais preocupantes porque, segundo o próprio Gus, há histórico do mesmo problema em sua família, inclusive com casos que resultaram em perda de visão. Diante disso, a prioridade passou a ser seu retorno para casa e o início do acompanhamento especializado. Para cumprir os compromissos no Brasil, o Left to Die contou com Vinícius Talamonte, baterista do Flageladör. Já nas apresentações pelos demais países da América Latina, as baquetas ficaram a cargo de Lee Harrison, fundador do Monstrosity.

Assim como no ano passado, o público compareceu em bom número para reencontrar o Left to Die. O recinto já apresentava uma movimentação considerável desde as atrações de abertura, que, a propósito, foram escolhas certeiras para preparar os presentes para a apresentação da banda americana. Afinal, a ligação com o cinema de terror é um dos elementos que aproximam o Scream Bloody Gore do Flageladör e, principalmente do Cemitério, que também incorpora essa temática em sua proposta.

O Cemitério abriu os serviços. O grupo paulistano, formado pelo experiente Hugo Golon (vocal e baixo) — músico conhecido na cena com passagens por inúmeras bandas, entre elas o próprio Flageladör —, Douglas Gatuso (guitarra) e Guilherme Fructuoso (bateria), destilou seu death/thrash metal baseado principalmente no ótimo álbum de estreia homônimo, lançado em 2014. E se há algo capaz de despertar a atenção de um aficionado por cinema de terror, como este repórter, são títulos como Sexta-Feira 13, Holocausto Canibal e a A Volta dos Mortos Vivos, presentes no repertório e suficientes para provocar aquela inevitável vontade de matar a saudade de alguns filmes clássicos do gênero.

Além também de músicas do EP Oãxiac Odèz (sacou o título? Não? Então leia de trás para frente), o grupo ainda incluiu Damien, cover dos cariocas do Taurus, registrado no lendário álbum de estreia, Signo de Taurus (1986). No decorrer da apresentação do trio, um fato curioso aconteceu nas últimas músicas: por algum motivo, a guitarra de Gatuso continuava soando mesmo quando ele não estava tocando o instrumento. Na primeira vez em que percebeu a falha, o próprio guitarrista brincou com a situação ao observar o som de sua guitarra saindo do amplificador: “Olha só, estou tocando sem as mãos”. Pode ter sido apenas uma questão técnica, claro, mas, depois de uma apresentação repleta de referências ao horror, seria até decepcionante se não houvesse ao menos uma guitarra possuída.

Em seguida, foi a vez de o Flageladör, grupo formado em Niterói (RJ) no ano de 2000 e comandado por Armando Exekutor (vocal e guitarra), tomar o palco de assalto. Com um som veloz, o grupo descarregou seu speed/thrash metal e, assim como o Cemitério, obteve uma resposta altamente positiva do público. Acompanhado por Alan Magno (baixo e backing vocals), Júnior Bzrra (guitarra) e Vinícius Talamonte (bateria), Armando, com seu tradicional capuz de executor — peça que torna impossível não lembrar da capa do EP In the Sign of Evil, do Sodom — e ilustrado no backdrop no fundo do palco, era o elemento de maior destaque no palco. No entanto, toda a banda agitava bastante, inclusive protagonizando algumas coreografias em que o trio de frente agitava de forma sincronizada, ao melhor estilo Judas Priest em seus melhores anos.

O repertório foi especial. Celebrando 20 anos do lançamento de seu álbum de estreia, A Noite do Ceifador, o grupo o tocou na íntegra, respeitando a sequência das faixas do disco. Enquanto isso, Rick Rozz e Matt Harvey transitavam tranquilamente na pista e visitavam a banquinha de merch. Ao final da execução do disco, o Flageladör mandava Conjuração, única do trabalho mais recente, Culto aos Decibéis, lançado em 2024. Dali por diante, o grupo apresentou músicas dos outros três álbuns. A cada uma tocada, ficava mais evidente que os 26 anos de estrada não transformaram o Flageladör em uma banda presa ao próprio passado. Pelo contrário: naquela noite, A Noite do Ceifador foi apenas a porta de entrada para um repertório que atravessou duas décadas de velocidade, sujeira e riffs sem pedir licença. Ao final, a resposta veio na forma de uma sonora ovação do público.

Pouco antes do horário marcado para o início do show, 21h30, os integrantes do Left to Die, incluindo o baterista suplente Vinícius Talamonte, surgiram no palco e cuidaram dos últimos ajustes. Poucos minutos depois, desceram e, assim como em 2025, deram lugar a um trecho da sinistra instrumental E5150, do Black Sabbath, que começou a rolar no som mecânico. Instantes depois, Matt Harvey, Rick Rozz, Terry Butler e Talamonte reapareceram no palco e trouxeram o caos à Terra com Infernal Death, que começou sob a ovação dos headbangers, aos gritos de “hey, hey, hey…” em coro, antes de se formar o primeiro de vários circle pits que viriam na apresentação. Ao fundo do palco, destacava-se o backdrop com o logotipo do Left to Die, remetendo ao original do Death e preservando detalhes que foram sendo eliminados da arte principal ao longo dos anos, como o sangue na foice, a aranha fiando sua teia, a pira sobre a letra “T” ainda estilizada como uma cruz invertida, e o próprio ceifador.

Antes da próxima música, os fãs começaram a gritar o nome da banda. Quem esperava que viesse Zombie Ritual, mantendo a sequência de Scream Bloody Gore — álbum que, como divulgado, seria executado na íntegra —, acabou se surpreendendo quando Harvey anunciou: “Ei, São Paulo, esse é um tema de Scream Bloody Gore: Mutilation!”. Até então, a explicação mais óbvia era que a banda havia simplesmente optado por alterar a ordem das faixas em relação à do disco. Então, segue o jogo…

Na primeira pausa, o simpático e sorridente Matt Harvey, que tem um estilo vocal que impressiona por lembrar muito o de Chuck Schuldiner, comentou: “Tudo bem meus amigos? Bom estar de volta aqui em São Paulo. Acho que temos um amigo aqui de vocês na bateria que vocês devem reconhecer, certo?”. Em resposta, o público começou a gritar o nome de Vinícius. Interrompendo, Harvey perguntou se todos ali conheciam também os outros caras que o acompanhavam e apresentou a banda de um modo peculiar: “Na guitarra, o cara, a regra, a Bíblia. Vocês devem respeitar o nome dele, porque seu nome é Rick ‘fucking’ Rozz!”. A histeria foi geral. Continuando, ele disse: “E esse cara aqui, há muitas décadas, saiu de uma selva na Flórida e entrou na história do Death Metal. Mostrem um pouco de amor para o senhor Terry Butler!”. Após a ovação ao baixista, Harvey anunciou: “A próxima música é o tema do álbum que vocês provavelmente conhecem. Ela se chama Leprosy!”.

Com a poderosa faixa que dá nome ao também aclamado segundo álbum do Death, ficou claro que a banda intercalaria músicas dos dois álbuns, em vez de iniciar a apresentação com uma sequência formada apenas por faixas do debut.

Em nova pausa, Matt Harvey antecipou que a música seguinte também seria do Leprosy e ressaltou que aquele era o último show da turnê brasileira. Aproveitou para elogiar e agradecer ao Cemitério e ao Flageladör, e dedicou a próxima aos dois grupos: “Essa é sobre o death metal, o jeito brutal, o jeito old school. Essa música se chama Primitive Ways!”.

Aqui já me antecipo para dizer que, apesar de ter assumido o que para muitos seria uma árdua tarefa  — substituir, em cima da hora, o baterista do Left to Die e aprender todas as músicas do repertório —, para Vinícius tudo parecia ter sido moleza. Diria até que a impressão era de que, por ser fã do Death, ele já devia saber tocar aquelas músicas. Afinal, tirou tudo com exímia precisão e, assim como demonstra no Flageladör, tocou com segurança e muita pegada as músicas originalmente gravadas por Chris Reifert e Bill Andrews, respectivamente nos dois primeiros álbuns da banda.

Lembrando que, recentemente, o Left to Die lançou um álbum que reúne regravações de músicas dos primórdios do Death, inclusive da época em que a banda ainda atendia por Mantas, Matt Harvey preparou o terreno para a primeira surpresa do repertório: “Agora nós temos um novo álbum, chamado Initium Mortis. Não se preocupem, são músicas muito, muito velhas. Essa é do novo álbum, mas também da primeira demo do Mantas (N.R.: Death by Metal), de 1984. Essa música se chama Legion of Doom”. Naquele momento, a roda na pista ficou ainda mais insana!

Após tocarem a música que abre o disco Initium Mortis, o Left to Die voltou a dar atenção ao homenageado Scream Bloody Gore. Harvey anunciou: “Então, essa é a faixa-título do primeiro LP do Death, certo?”. Pausadamente, ele pronunciou o nome da música, acompanhado pelo público, que, junto com ele, gritou: “Scream / Bloody / Goooore!”. Depois deste clássico, Harvey perguntou: “Estamos nos divertindo até agora, né? Tudo bem, vamos voltar até o começo de tudo. A faixa-título da demo do Mantas de 1984, essa música se chama Death by Metal!”.

Na sequência, Harvey apresentou a última surpresa da noite. “Aqui vai mais uma música do caralho dos tempos do Mantas. É uma música incrível, é uma música do Death; é uma música do Massacre; é a porra da Corpse Grinder!”. Explicando o motivo do frontman mencionar as duas bandas como detentoras da controversa faixa envolvida em uma disputa de autoria entre Schuldiner e Rozz — história para outra hora —, ela surgiu originalmente na segunda demo ao vivo do Death, lançada em setembro de 1984, e foi posteriormente gravada pelo Massacre, de Rick, sob o título Corpsegrinder, em seu álbum de estreia, o clássico From Beyond (1991). A música, porém, não foi regravada pelo Left to Die em Initium Mortis.

Passadas as surpresas, a banda voltou a focar suas atenções nos dois primeiros álbuns do Death. A próxima música do set foi a própria Left to Die, de Leprosy, que foi muito bem recebida pelo público, que novamente gritou o nome da banda em coro. No entanto, o momento de maior euforia de toda a noite veio a seguir. Antes, porém, Harvey enfatizou: “São Paulo, vocês são do caralho! Sinceramente.” Em seguida, agradeceu a todos por terem comparecido para prestigiá-los, arrotou feito um bebê e disse: “Essa é a última, todos cantem junto, ok?” — mas, peraí: como assim a última, se ainda faltava um monte de músicas de Scream Bloody Gore? — pensei.

Então, Harvey pediu que todos fizessem barulho e, sem mencionar qual música viria, as guitarras deram início a Zombie Ritual. O que aconteceu na pista, você deve estar se perguntando? Caos total! Ao final deste hino do death metal, a banda se retirou do palco.

Instantes depois, o Left to Die ressurgiu no palco e, de fato, encerrou a noite com dois outros grandes clássicos do Death (Metal): Pull the PlugEvil Dead. Nesta última, Matt Harvey ainda exibiu uma flag recebida de um fã, ilustrada com a capa de Initium Mortis.

Mas, espere aí de novo: e a prometida execução na íntegra de Scream Bloody Gore? Pois é…. não passou de propaganda enganosa, já que ficaram de fora nada menos que Denial of Life, Sacrificial, Regurgitated GutsBaptized in Blood Torn to Pieces. Prefiro pensar, porém, que tudo não passou de um equívoco na divulgação — restou bater um papo com os amigos e voltar para casa. Ainda assim, isso está longe de tirar o brilho de uma apresentação impecável. Afinal, somente as três surpresas do repertório — Legion of Doom, Death by Metal e Corpse Grinder, nenhuma delas tocada em 2025 — já seriam suficientes para fazer daquela noite algo especial. Entre clássicos e uma pista transformada em desordem controlada, o Left to Die mostrou mais uma vez que sabe encontrar maneiras de surpreender até quem conhece cada nota daqueles discos e, sobretudo, manter viva a obra de Chuck Schuldiner, reverenciado em determinado momento do show pela banda e pelos fãs.

Left To Die – setlist:
Infernal Death
Mutilation
Leprosy
Primitive Ways
Legion of Doom (cover do Mantas)
Scream Bloody Gore
Death By Metal (cover do Mantas)
Corpse Grinder
Left to Die
Zombie Ritual
Pull the Plug
Evil Dead

Flageladör – setlist:
Ultimatum / Flageladör
Perseguir e Exterminar
Cruzada ao Lado de Satã
Expresso Para o Inferno
A Noite do Ceifador
Carnificina
Unidos Pelo Metal
Forjado em Aço e Fogo
Conjuração
Assalto da Motosserra
Obcecado Por Sangue
Queimando nas Chamas do Heavy Metal
Máxima Voltagem
Nas Minhas Veigas Corre Fogo
Ao Vivo No Inferno

Cemitério – setlist:
Massacre no Texas
Tara Diabólica
Oãxiac Odèz
O Dia de Satã
A Sentinela dos Malditos
Sexta-Feira 13
Holocausto Canibal
Natal Sangrento
A Volta dos Mortos Vivos
A Vingança de Cropsy
Quadrilha de Sádicos
Damien (cover do Taurus)
Pague Para Entrar, Reze Para Sair

 

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