OZZY OSBOURNE: 35 anos de “No More Tears”, quando o Madman desafiou seu próprio tempo

Por Leandro Nogueira Coppi

Há 35 anos, no dia 17 de setembro de 1991 Ozzy Osbourne colocou no mercado um álbum que, olhando hoje, parece ter chegado ao mesmo tempo no lugar certo e no momento mais improvável possível. No More Tears encontraria um público acostumado ao Ozzy de Blizzard of Ozz, Diary of a Madman The Ultimate Sin, mas também precisaria sobreviver a uma transformação profunda no heavy metal. Naquele mesmo período, Metallica lançava seu “Black Album”, Guns N’ Roses as duas partes do audacioso projeto Use Your IllusionNirvana colocava Nevermind nas lojas e o grunge começava a alterar radicalmente o centro de gravidade da música pesada.

Ainda assim, o Madman não apenas permaneceu relevante. Ele entregou um de seus trabalhos solo mais bem-sucedidos, ampliou seu alcance sem abandonar as guitarras pesadas e reuniu uma formação criativa que ajudaria a transformar No More Tears em um dos discos mais marcantes de sua carreira.

Uma nova década para Ozzy

No More Tears foi o sexto álbum de estúdio solo de Ozzy e representou uma continuidade natural do caminho iniciado no injustiçado No Rest for the Wicked, de 1988. Zakk Wylde, então ainda relativamente jovem, já havia se tornado peça fundamental na identidade musical da banda, trazendo uma combinação de peso, virtuosismo e influência de Randy Rhoads que se encaixava perfeitamente no universo de Ozzy.

A produção ficou a cargo de John Purdell e Duane Baron, enquanto a composição contou com a participação de nomes que iam muito além da formação oficial do grupo.

O resultado não era simplesmente um disco de heavy metal tradicional. Havia peso, mas também havia espaço para melodias mais acessíveis, baladas, experimentações e arranjos que ajudavam Ozzy a dialogar com um público muito maior.

Isso fica evidente logo na faixa de abertura, Mr. Tinkertrain, uma das composições mais sombrias do álbum. O personagem do título é associado a um predador infantil, e a letra aborda o abuso de crianças por meio de uma narrativa deliberadamente perturbadora.

Em outro extremo, Time After Time apresenta uma faceta muito mais melódica, enquanto Road to Nowhere adota um tom introspectivo. O disco transitava por diferentes estados de espírito sem perder sua identidade.

A faixa que deu nome ao disco

A história de No More Tears também passa por uma mudança importante na sonoridade do baixo.

A ideia inicial para a linha de baixo surgiu de Mike Inez, então integrante do Alice in Chains. A gravação definitiva, porém, ficou associada a Bob Daisley, baixista que já havia desempenhado papel fundamental em vários dos primeiros trabalhos solo de Ozzy. Mike Inez criou aquele riff de baixo durante os ensaios para o álbum. Zakk Wylde confirmou que Inez foi o ponto de partida da música: ele começou tocando o riff, Randy Castillo entrou com a bateria e John Sinclair acrescentou os teclados. Porém, quem gravou o baixo no disco foi Bob Daisley, não Inez. O próprio Daisley confirmou isso posteriormente: segundo ele, Inez criou aquela ideia inicial, mas Daisley modificou parte da colocação rítmica e gravou o restante da linha de baixo.

E por que Mike Inez não gravou? Porque, na época da gravação de No More Tears, Mike Inez já era o baixista oficial da banda de Ozzy, mas a situação no estúdio acabou sendo diferente. Segundo o próprio Bob Daisley, ele foi chamado por Ozzy Osbourne praticamente de última hora porque o Madman não estava satisfeito com o resultado obtido com Inez no estúdio. Daisley conta que Sharon Osbourne o procurou e depois Ozzy pediu que ele fosse gravar o álbum.

O curioso é que não houve exatamente uma substituição de Inez por causa da introdução de No More Tears. Inez já havia criado aquela ideia durante uma sessão de ensaio. Ele próprio contou que estava testando um amplificador e começou a tocar aquelas notas; Ozzy ouviu, pediu que aquilo virasse uma música, e Zakk Wylde, Randy Castillo e John Sinclair entraram na construção do tema.

Depois, Daisley foi chamado para regravar o baixo do álbum inteiro. E aí está o detalhe importante: Daisley não simplesmente copiou a parte de Inez. Ele explicou que pegou a ideia inicial da introdução, alterou a maneira como algumas notas caíam no tempo e criou o restante da linha de baixo.

E há uma razão adicional para a confusão nos créditos: Inez continuou sendo o baixista da banda de Ozzy na estrada, aparecendo nos vídeos e na turnê de No More Tears. Por isso seu nome permaneceu associado ao álbum, embora o baixo de estúdio tenha sido gravado por Daisley.

Musicalmente, a faixa-título se tornou uma das mais reconhecíveis da carreira de Ozzy. A introdução de teclado, o baixo destacado, a bateria de Randy Castillo e a guitarra de Zakk Wylde criaram uma atmosfera diferente daquela encontrada em boa parte da produção anterior de Ozzy.

É uma música pesada, mas construída com uma dinâmica que a torna imediatamente identificável.

Curiosamente, No More Tears não era o título inicialmente cogitado para o álbum. Entre as possibilidades discutidas esteve Say Hello to Heaven, ideia que acabou abandonada.

Lemmy, Ozzy e quatro músicas

Uma das colaborações mais importantes do disco aconteceu longe dos holofotes: Lemmy Kilmister, do Motörhead, participou da composição de quatro faixas.

São elas I Don’t Want to Change the World, Mama, I’m Coming Home, Desire e Hellraiser.

A parceria entre Ozzy e Lemmy produziu algumas das letras mais memoráveis do álbum, mas nenhuma delas teve impacto tão particular quanto Mama, I’m Coming Home.

A balada foi escrita por Lemmy, Zakk Wylde e Ozzy Osbourne e acabou se tornando uma das músicas mais populares da carreira solo do vocalista. A letra foi inspirada em Sharon Osbourne, sua esposa e empresária, e mostrou um lado de Ozzy que não costumava aparecer com tanta clareza em seus trabalhos.

A música chegou ao segundo lugar da parada Mainstream Rock e ao 28º posto da Billboard Hot 100. Durante a vida de Ozzy, foi seu único single solo a entrar no Top 40 da parada americana.

Uma mesma música, duas bandas

A parceria com Lemmy ainda produziu uma das curiosidades mais interessantes do álbum.

Hellraiser foi gravada tanto por Ozzy Osbourne quanto pelo Motörhead. A versão de Ozzy apareceu em No More Tears, enquanto a do Motörhead foi registrada em March ör Die, lançado em 1992.

As duas gravações ganharam identidades próprias. No caso de Ozzy, a música se encaixava perfeitamente no peso e na grandiosidade de sua produção solo. Com o Motörhead, ganhou naturalmente a crueza característica da banda de Lemmy.

É um daqueles casos em que uma mesma composição funciona como uma ponte entre dois mundos que, apesar das diferenças, sempre estiveram muito próximos.

Três décadas depois, Hellraiser ganhou uma nova vida na edição comemorativa de 30 anos de No More Tears, lançada em 2021. A nova versão é um mash-up que combina os vocais de Ozzy Osbourne com a participação póstuma de Lemmy Kilmister, recuperada da gravação do Motörhead, criando um dueto que nunca havia existido dessa forma. Para acompanhar o lançamento, Ozzy e Lemmy também foram transformados em personagens de um clipe animado, produzido pela Hey Beautiful Jerk e dirigido por Mark Szumski e Gina Niespodziani. A animação começa com os dois no Rainbow Bar & Grill, em Los Angeles, antes de transportá-los para um cenário pós-apocalíptico no qual enfrentam forças malignas — uma homenagem bem-humorada à amizade dos dois. O vídeo foi lançado em 29 de outubro de 2021.

Zakk Wylde em plena ascensão

Se Ozzy Osbourne era o nome que comandava o projeto, No More Tears também ajudou a consolidar definitivamente Zakk Wylde como um dos grandes guitarristas de sua geração.

Seu trabalho não se resume aos solos. Há riffs, harmonias, texturas e arranjos que contribuem diretamente para a personalidade do álbum.

A influência de Randy Rhoads continuava perceptível, mas Zakk já começava a estabelecer uma linguagem própria. O resultado seria determinante para sua trajetória posterior, tanto com Ozzy quanto em seus próprios projetos.

Faixas como I Don’t Want to Change the World, Desire e No More Tears mostram diferentes facetas de seu trabalho, enquanto A.V.H. traz uma curiosidade particular: as iniciais remetem a Aston Villa Highway, referência ao clube de futebol inglês Aston Villa.

O disco que enfrentou o próprio momento

O contexto do lançamento torna a trajetória de No More Tears ainda mais interessante.

O álbum chegou às lojas em uma época de transformação. Metallica havia acabado de lançar Metallica, popularmente conhecido como Black Album —, Nirvana colocaria Nevermind no mercado poucos dias depois, e nomes como Pearl Jam e Soundgarden ajudariam a consolidar uma nova geração de rock pesado.

O som dominante começava a mudar, mas Ozzy Osbourne não precisou abandonar aquilo que havia construído para continuar relevante.

No More Tears alcançou a sétima posição da Billboard 200 e permaneceu 86 semanas na parada. Nos Estados Unidos, recebeu certificação quádrupla de platina da RIAA.

Mais do que números, o álbum provou que ainda havia espaço para um veterano do heavy metal no centro da cultura pop justamente quando uma nova geração começava a ocupar esse espaço.

O último grande álbum antes da despedida que não foi

Pouco depois, Ozzy Osbourne anunciou a turnê No More Tours, apresentada inicialmente como uma despedida dos palcos.

O nome da excursão, naturalmente, brincava com o título do álbum. E, como a história mostrou, aquela não seria a última vez que Ozzy sairia em turnê.

Ainda assim, o período marcou o encerramento de uma fase particularmente importante de sua trajetória. No More Tears ficaria como o registro de um artista que, depois de mais de uma década de carreira solo, chegava aos anos 1990 ainda capaz de competir em um cenário que estava mudando rapidamente.

Um álbum que permaneceu

A importância de No More Tears não está apenas em seus singles ou em sua posição nas paradas. O disco conseguiu reunir diferentes lados de Ozzy Osbourne sem parecer uma tentativa desesperada de acompanhar tendências. É justamente essa variedade que ajudou o álbum a envelhecer tão bem.

Três décadas depois, No More Tears continua funcionando como retrato de uma fase em que Ozzy Osbourne já era uma instituição do heavy metal, mas ainda encontrava maneiras de se reinventar sem perder sua personalidade.

Setlist:

  1. Mr. Tinkertrain
  2. I Don’t Want to Change the World
  3. Mama, I’m Coming Home
  4. Desire
  5. No More Tears
  6. Won’t Be Coming Home (S.I.N.)
  7. Hellraiser
  8. Time After Time
  9. Zombie Stomp
  10. A.V.H.
  11. Road to Nowhere
  12. Don’t Blame Me (faixa bônus presente em edição de 2022)
  13. Party with the Animals (faixa bônus presente em edição de 2022)

 

Em 2021, o álbum ganhou uma edição comemorativa de 30 anos com material adicional, incluindo versões demo e registros ao vivo, reforçando o lugar que esse trabalho ocupa dentro da discografia de Ozzy Osbourne.

Mais do que uma coleção de grandes músicas, No More Tears documenta um momento específico: aquele em que o Madman entrou nos anos 1990 sem saber exatamente o que o novo cenário reservaria para ele — e respondeu à mudança com um de seus discos mais fortes.

 

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