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ABBATH – OS NOSSOS HERÓIS TAMBÉM SÃO HUMANOS

Com o passar do tempo algumas lembranças vão ficando nubladas, enquanto outras memórias são simplesmente perdidas para sempre nos corredores da nossa mente. Mas, algumas imagens simplesmente insistem em permanecer para sempre. Lembro que, quando eu ainda era apenas um garotinho, minha mãe comprou uma antiga revista em quadrinhos, que ela havia encontrado em uma loja de livros usados. Nada fora do comum, já que eu era colecionador e ela tinha o bom hábito de ‘rechear’ a minha cabeça com tudo o que fosse possível. Mas aquele dia foi algo diferente, pois a revistinha em questão era diferente. Tratava-se de um exemplar da revista The Invincible Iron Man #128, com a história Demon In A Bottle. Claro, a revista do Homem de Ferro, naqueles tempos ainda nem sombra do atual astro da cultura pop, mas mesmo assim um dos meus favoritos. E se lembro tão bem daquela revista, dentre as tantas que li, foi pelo impacto que ela me causou. Afinal, já na capa aparecia um dos meus ídolos, o super-herói e multimilionário Tony Stark absolutamente destruído, desfigurado diante do espelho. Uma ‘Santa Ceia’ às avessas, onde o copo de whisky virado faz o papel de saleiro, e onde a máscara do Homem de Ferro repousa silenciosa e impotente diante de um messias absolutamente sem controle da sua própria vida. Tony Stark, no fim das contas, era um alcoólatra, e por mais genial e incrível que fosse aquele herói, ele era apenas como um de nós. Sujeito aos mesmos riscos que cada um de nós.

Confesso que os efeitos do alcoolismo estavam mais próximos de mim do que naquela revista. Bem mais perto, eu diria. Mas foi ali que pela primeira vez eu senti que não era apenas o meu maior herói, o herói que eu conheci muito antes de Tony Stark, que sucumbia diante do álcool. Foi ali que percebi que este era um problema de muitos. Foi ali que percebi que deboche, reprimendas e violência não poderiam ser a resposta. Foi ali que percebi que o problema era outro.

Claro que com o passar dos anos e a minha crescente devoção ao rock/metal, percebi que muitos ‘homens de ferro’ também sucumbiam diante dos espelhos em seus próprios camarins. A lista parecia infinita. Keith Moon, John Bonham, David Byron… Desculpem, a lista é longa demais e é triste demais pensar nela para que eu recorde agora. Mas foram muitos os heróis que curvaram seus joelhos e sua alma diante de um vício que, lá no início, surgiu como uma espécie de brincadeira entre amigos, como uma diversão inocente, como um simples ‘ficar locão e falar um bocado de bobagem’. Para alguns, o caminho simplesmente não tem volta.

Há poucas semanas fomos informados de que o vocalista do Metallica, James Hetfield, havia decidido retornar ao tratamento contra a dependência do álcool. Muitas manifestações surgiram ao redor do globo, incluindo muitos artistas que louvaram a atitude do cantor, e isso é muito justo. Você precisa ter muita coragem para encarar os seus demônios, especialmente quando eles são tão fortes, e mais uma vez Hetfield está disposto a fazer isso. Não muito tempo depois, acontece toda essa situação na Argentina envolvendo Abbath, quando um dos mais célebres heróis do black metal sequer conseguiu tocar uma única de suas músicas de forma correta antes de desistir e retornar ao seu camarim, para logo depois anunciar que todos os demais shows pela América do Sul estavam cancelados.

O demônio na garrafa atacou mais uma vez.

As imagens filmadas antes do início do show mostram uma plateia excitada, radiante, como costumam ser as plateias argentinas. Abbath aparece feliz, sorridente, encarando com diversão o coro de ‘Abbath, Abbath’ entoado pelos presentes, em ritmo de clássico do futebol sul-americano. Mas, muito rapidamente a situação vai ganhando contornos bizarros, tão absurdos que a plateia vai cansando de esperar por aquilo que todos ali queriam ver. Mais que isso, a plateia começa a se voltar contra o artista que, a grosso modo, não respeitou a sua audiência. Sim, ele deveria ter se mantido sóbrio e feito o show, isso é indiscutível. Mas, ele realmente tinha o controle da situação? Sim ou não, a coisa foi como foi.

O que mais chama a atenção no vídeo nem é a ‘performance’ desastrosa de Abbath. O que diferente se poderia esperar de alguém em tal estado? Também não é a atitude da plateia que chama a atenção. Aquelas pessoas pagaram por um show que claramente não ia acontecer, viajaram para assistir um show de black metal, e não a um circo de horrores com um palhaço bêbado demais para fazê-los rir. O que mais chama a atenção nas imagens registradas do ‘show’ é a postura dos demais músicos. A cara que mesclava terror e um legítimo ‘o que eu vou fazer agora?’ que estampava os rostos maquiados da baixista Mia Wallace e do baterista Ukri Suvilehto, que viam a situação se tornando cada vez mais insustentável diante dos seus olhos. Eles não sabiam como sair daquela situação, e constrangimento é apenas uma parte do sentimento que deve tê-los tomado naquele momento. Ah, sim, eu conheço esse sentimento.

Mia Wallace, Ukri Suvilehto, os fãs presentes na casa de shows na Argentina, todos eles sentiram um pouco da mesma sensação que senti quando peguei aquela revistinha do Homem de Ferro nas mãos, quando era criança. Aquela sensação de insegurança, aquela sensação de decepção misturada com uma raiva impotente, de quem não sabe como deve agir dali em diante. Mas eu nunca deixei de me imaginar do outro lado. Nunca deixei de imaginar como seria se afinal eu fosse o Tony Stark diante do espelho. Nunca deixei de me perguntar se eu realmente teria força para resistir a tudo no mundo, e nunca deixei de me perguntar se existiriam pessoas dispostas a me ajudar se eu precisasse de ajuda. Quero acreditar que sim. Mas antes de tudo, eu precisaria querer ajuda. Eu precisaria aceitar ajuda.

Ontem, finalmente tivemos notícias atualizadas do que acontece e deverá acontecer no futuro de Abbath. Em uma declaração oficial, ele disse: “Outstriders, ao longo da vida, você recebe diferentes mães de cartas. Tive a sorte de ter a oportunidade de viver meu sonho, que é escrever músicas, lançar discos e fazer turnês pelo mundo, tocando para fãs de todos os lugares. Na maioria das vezes, foi um tremendo passeio, mas também houve momentos em que as coisas deram errado, principalmente durante a recente turnê pela América do Sul, onde tivemos que cancelar shows na Argentina e no Brasil. Não é segredo que estou lutando contra o vício. Agora, percebi que é hora de brigar com esse demônio. Me comprometi com um programa de reabilitação que vai me ajudar a ficar limpo de uma vez por todas. Sinto-me mais motivado e determinado do que nunca para vencer esta batalha.”

Todos esperamos apenas o melhor. Todos esperamos que ele volte mais forte do que nunca. Ninguém duvida do potencial que ele tem, e nenhum dos fãs, mesmo os mais irritados colocam em xeque o papel que ele desempenhou no desenvolvimento do black metal. Afinal, a imagem que queremos dos nossos heróis é aquela tradicional, onde eles parecem imponentes e todo-poderosos em suas armaduras. Onde eles desafiam o mundo com um sorriso no rosto, prontos para encarar os desafios. Sim, sabemos que eles são apenas humanos sob a armadura. Mas, o que realmente importa é a imagem que eles verão no fim do dia, diante do espelho.

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