Por Alessandro Bonassoli
Em primeira mão, neste 21 de novembro de 2025, a ROADIE CREW traz para você a resenha de Zodiac, novo álbum do As The Palaces Burn, e divulga o videoclipe da faixa Defying The Power. Após ler e assistir aqui você terá a certeza de que o thrash metal com forte influência do Nevermore que marcou End´evour, ótimo álbum de estreia lançado pela banda catarinense em 2019, sofreu uma mudança forte. Essa metamorfose iniciou em 2020, com o EP All The Evil e progrediu com um novo e decisivo passo no marcante Drowning Into Shadows, segundo full lenght que o Alyson Garcia (voz), Diego Bittencourt (guitarras) e Gilson Naspolini (bateria) disponibilizaram em 2023.
Toda essa transição está indiretamente citada nas duas primeiras frases da faixa-título. De modo discreto, o grupo vinha buscando um novo espaço no “jogo” da música pesada, mas sempre ouvindo os ecos dos seus primórdios:
Furtive glances mark the game, [Olhares furtivos marcam o jogo]
Echoes guide my hidden aim [Ecos guiam minha mira escondida]
Garcia, Bittencourt e Naspolini não negam que a reviravolta musical teve a decisiva influência do produtor Adair Daufembach (Megadeth, Angra, Kiko Loureiro, Tony Macalpine, Hibria, entre outros). Ele, que gravou o baixo em Drowning Into Shadows e em Zodiac, levou o As The Palaces Burn a apostar fortemente no groove e em arranjos mais modernos, fora dos padrões convencionais do thrash e do metal tradicional, que são a origem da banda surgida em Criciúma, região Sul de Santa Catarina. Em tempo, ao vivo, as quatro cordas estão sendo manejadas pelo estreante Thiago Tigre.
À ROADIE CREW, Garcia opina que, se comparado com o álbum anterior, Zodiac “é mais maduro, mais marcante e tem músicas melhores”. De acordo com ele, o que diferencia é a questão dos refrões, que estão mais na cara, mais bem produzidos, têm orquestração. “Então tem uma sonoridade um pouco mais moderna e isso se reflete em toda a produção”, avalia.
A faixa, segundo o vocalista, é mais acessível. Logo na primeira audição notei que ela também é mais direta. Os 12 segundos iniciais me fizeram pensar se o quarteto teria mudado tanto e se aberto para um som digamos… mais comercial. Ainda bem, não é nada disso. Ao contrário, o peso dos primórdios da banda permanece intacto e a “pancadaria”, assegurada.
Lançada como primeiro single, a canção é um bom resumo das demais oito canções. É pura ousadia e uma nítida e salutar vontade de não ser “mais do mesmo”. Bittencourt e Naspolini continuam “quebrando tudo”, com performances cada vez mais técnicas e empolgantes, enquanto Garcia se supera em múltiplas vocalizações diferentes, saindo de algo quase sussurrado, passando por linhas vocais tipicamente anos 1990 e voltando para suas influências oitentistas.
Serial Killer
Logo após os 2 primeiros minutos, uma narração ao fundo revela o tema da faixa. É a voz de Jim Dunbar, um dos mais célebres diretores de rádio e apresentador de talk shows na televisão dos Estados Unidos, informando na rede KGO, em 22 de outubro de 1969, que um homem telefonou para a emissora durante o programa AM San Francisco. A pessoa se apresentou como Sam e alegou ser o Assassino do Zodíaco. Sim, aquele serial killer sobre o qual você já deve ter assistido algum filme ou lido algum livro!
Entre dezembro de 1968 e outubro do ano seguinte, o criminoso matou pelo menos cinco pessoas na Bay Area, em São Francisco, e ficou notório por enviar cartas com enigmas para os jornais da região até o ano de 1974. Nas correspondências, ele alegou que teria executado cerca de 37 pessoas. Sua identidade jamais foi confirmada e o caso permanece como o mais famoso da história norte-americana.
O tema surgiu durante a produção do álbum após uma provocação de Daufembach, que desafiou os músicos a falarem sobre um assunto que conectasse o público com um fato histórico. E essa que seria a última música a ser gravada ficou sob responsabilidade de Naspolini. Ele lembrou que leu um livro sobre o tema e levou a ideia para os trabalhos no estúdio Elephant, na cidade de
Governador Celso Ramos, no litoral catarinense, próximo a Florianópolis e local escolhido pelo Angra para gravar Cycles Of Pain, em 2023. “E quando ele nos apresentou, a gente gostou, começou a fazer os registros e tivemos a ideia de conectar todas as letras e o quebra-cabeça se encaixou”, explica Garcia.
A faixa é uma homenagem do grupo às suas origens, pois, segundo os integrantes, tem inspiração em Arcanum, uma das melhores canções de End´Evour. “Zodiac reflete a visão sombria e introspectiva do assassino, conectando liricamente com Arcanum. Embora a composição original de Bittencourt não abordasse esse tema, criei uma nova interpretação para ligar as duas faixas, tanto melódica quanto liricamente, unindo o mistério de Arcanum com a narrativa obscura de Zodiac”, conta Naspolini.
Com a produção assinada por Daufembach, o novo álbum tem uma sonoridade que ganhou atenção minuciosa nos detalhes, algo que, segundo a banda, garante mais peso. “Esse processo foi um dos mais focados e desafiadores que já passamos. A pré-produção iniciou em maio, de forma remota. Em setembro entramos em estúdio com boa parte do disco resolvido. Ainda assim, o Adair trouxe novas ideias, com sua visão técnica e criativa que elevou cada faixa a um nível mais alto”, comenta o baterista. É importante citar que as gravações aconteceram também nos estúdios IMGN e Pimpas, enquanto a masterização foi feita no estúdio de Daufembach, em Los Angeles (EUA).
Resistência
Liricamente, o As The Palaces Burn se esquiva de temas superficiais e avança em temáticas maduras. Defying The Power, por exemplo, é nitidamente uma faixa sobre resistência e superação. “A canção mergulha em temas de dor, medo e autoconhecimento, mas se ergue como um grito de libertação: desafiar limites, romper correntes e acreditar no poder que existe dentro de cada um”, explica Bittencourt. Abaixo, um trecho da letra comprova isso:
Defying the power [Desafiando o poder]
Scratching the wounds and no regret [Coçando as feridas e sem arrependimento]
All your fears are a lie [Todos os seus medos são uma mentira]
All you need is the power [Tudo o que você precisa é força]
To move on the edge of yourself [Mover-se no limite de si mesmo]
Burning up all your power [Queimando todo o seu poder]
Break through the walls [Derrube as paredes]
No chains can hold you [Nenhuma corrente pode te segurar]
Na mesma pegada, outro destaque é I And I (One Life, One Matter), cujo riff inicial faz um discreto e agradável aceno ao death metal. Nela, a banda fala sobre acreditar em si mesmo, em encarar a vida com as qualidades e eventuais imperfeições de si mesmo.
I choose my path within myself [Eu escolho meu caminho dentro de mim]
Moving on and on [Seguindo em frente]
The earth collides my best (and) my worst [A terra colide meu melhor (e) meu pior]
No more selfishness [Chega de egoísmo]
A pesada Never Forgive, Never Forget traz uma brilhante mudança de andamento. A massa sonora com muita agressividade tem uma, digamos, “interrupção”. Tudo para dar destaque a um solo calmo, de puro feeling e emoção. O trecho logo traz de volta o vocal rasgado e gutural de Bittencourt com perfeição.
E falando sobre vocais from hell, In Your Grave aparenta deixar claro que o vocal gutural está definitivamente instalado no As The Palaces Burn. Nesta, o guitarrista tem uma participação mais ampla e, se você nunca tivesse ouvido a banda e começasse por esta faixa, poderia facilmente pensar que a voz limpa é que seria um complemento.
Zodiac tem ainda United Obsolation, Higher e Infernal Dogma. Todas com qualidade para também consolidar esta nova fase da banda. Por fim, sobre a impactante transformação sonora, Garcia reconhece a inegável influência de Daufembach. “Mas o nosso material foi mudando a cada trabalho. Do futuro não sei te afirmar. Mas o que temos agora é uma fusão do passado primórdio com o presente”, conclui.
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