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BLUES PILLS: Holy Moly! [9,5/10]

Nuclear Blast/Shinigami - Nac. [9,5/10]

O que você sente enquanto escuta o trabalho de uma banda? Satisfação por ser tão bom ou melhor que o anterior; decepção por ser mais do mesmo; espanto com a temática desenvolvida? Se o título que aparece na capa traduz aquilo que você sentiu, pode ter certeza que o processo criativo da banda foi completo: transcendeu a música e te impactou.

Assim, só me resta dizer: uau! Ou melhor… “Holy Moly”! Quem diria que esta interjeição, título do terceiro e novo álbum do Blues Pills, poderia expressar tão bem a sensação de ouvi-lo. Tudo bem, o nome pode até parecer despretensioso, mas, acredite, o novo som da banda está impactante.

Após 8 anos de carreira (se contarmos o lançamento do EP “Bliss”, de 2012), o acúmulo de experiência musical e profissional começa a render bons frutos, pois os suecos do blues/retro rock mostram que, definitivamente, a hora deles chegou, trazendo consigo mudanças consideráveis.

A começar, por exemplo, pela arte gráfica contendo referências religiosas e uma mulher que se assemelha à figura sombria do álbum de estreia do Black Sabbath (1970). Se comparada com os álbuns anteriores (“Blues Pills”, de 2014; e “Lady in Gold”, de 2016), essa nova capa já indica que a banda se afasta um pouco da psicodelia e referências à cultura hippie tão presentes no início da carreira. Tanto é verdade que nas fotos promocionais de “Holy Moly!” os integrantes não estão mais usando aquelas roupas típicas do festival de Woodstock.

Outro fator decisivo para o novo direcionamento musical do grupo foi a saída do francês Dorian Sorriaux, guitarrista que acompanhava a banda desde seu início. Seu posto foi assumido pelo baixista do próprio Blues Pills, Zack Anderson, que acabou tocando os dois instrumentos em estúdio. Ao final das gravações, a banda recrutou Kristoffer Schander para o baixo, portanto, a partir de então, Zack assume a guitarra.

Com todo o respeito ao trabalho de Dorian, mas a consequência deste reposicionamento de peças deixou uma coisa muito clara: as músicas do Blues Pills ficaram mais diretas (algumas, inclusive, começam a ser cantadas com poucos segundos de introdução – “Dust”, por exemplo), pesadas e, às vezes mais agressivas. Eu garanto que você não encontrará a fúria escancarada das faixas “Low Road” e “Dreaming My Life Away” nos dois trabalhos anteriores do grupo. Ou seja, Zack trouxe à música um instinto mais rock and roll, enquanto Dorian focava mais na melodia e dava ao som da banda aquela aura dos anos 60.

Interessante pontuar que em uma resenha do Blues Pills o leitor já espera que o destaque maior seja a vocalista de Elin Larsson (e eu me encontro nessa turma). De fato, é impressionante o alcance de sua voz, que navega com facilidade pelas águas do rock (“Kiss My Past Goodbye”) e do soul/gospel (“California” e “Wish I’d Known”), além de expressar muito bem sentimentos como raiva (na já citada “Low Road”) e tristeza (“Longest Lasting Friend”).

Mas, como eu disse anteriormente, muita coisa mudou neste terceiro álbum. Agora temos uma banda trabalhando em conjunto, aparentemente sem pressão da gravadora, e o resultado disso é que todos conseguiram extrair o melhor de seus instrumentos. Portanto, seria injustiça não apontar o ótimo trabalho de André Kvanström nas baquetas. Após uma estreia segura, porém sem brilho, em “Lady in Gold” (2016), o baterista mostra seu talento em faixas como “Proud Woman”, “Rhythm in the Blood” e “Kiss My Past Goodbye”.

A sintonia e maturidade do grupo se refletem em outros aspectos do disco. A sensação que temos é que Elin, Zack e André estão no controle de tudo, das letras à produção final, tanto é que os três foram creditados como os produtores de “Holy Moly!”. Gravado de forma analógica, o novo álbum soa intenso (como um álbum de rock deve ser!), o baixo está grave e pulsante e a bateria apresenta um som encorpado, o que dá a impressão de que a banda está tocando ao vivo dentro do estúdio.

Bem, muitas mudanças até o momento. E o resultado final à disposição do ouvinte não poderia ser melhor.

O álbum começa com a empolgante “Proud Woman”, primeiro single disponibilizado pela banda. Guiada por um ritmo relativamente simples, a música reflete bem o empoderamento feminino na voz de Elin Larsson quando ela canta “‘Cause you can’t kill the pride in me/ There’s fire inside of me burning’ through every cell” (Porque você não consegue matar o meu orgulho/ Tem fogo dentro de mim queimando por cada célula). A música vai ganhando intensidade e energia de forma gradativa para ao final explodir em velocidade e gritos. Uma excelente faixa para mostrar essa nova cara do Blues Pills.

Sem tempo para respirar, o ouvinte é direcionado para a melhor e mais pesada faixa já gravada pelos suecos. Sem exagero. Enquanto “Proud Woman” tem um clima mais encorajador e positivo, “Low Road” descarrega seu ódio em passagens rápidas. A banda apresenta o melhor de si nesta música, mas o destaque vai mesmo para Elin, pois você consegue sentir a liberação de toda a raiva encapsulada, especialmente no último refrão. A impressão que fica é de uma bomba relógio prestes a explodir. Holy moly!

“Dreaming My Life Away” segue o mesmo clima da faixa anterior: direta e furiosa. Se você ouvi-la na sequência do álbum, vai perceber as tão mencionadas mudanças que comentei ao longo deste texto, ou seja, uma banda que evoluiu do blues rock regado a psicodelias para um rock and roll mais simples e orientado pelo ritmo da guitarra.

Diminuindo a intensidade do álbum, o Blues Pills nos apresenta “California”, uma excelente faixa em que Elin Larsson deixa os vocais raivosos de lado para explorar mais fundo suas raízes de soul e gospel. A faixa ainda surpreende com os agudos da vocalista no refrão (mais uma vez: holy moly!) e a bela alternância com os “backing vocals”, os quais já eram utilizados desde o álbum anterior (por exemplo: “Lady in Gold” e “Little Boy Preacher”).

Outra faixa que explora o lado mais calmo do álbum é “Wish I’d Known”. Triste, melancólica e carregada de elementos da música gospel, sua letra descreve o sentimento de perder alguém, e o som poderia se encaixar com facilidade em algum álbum do Alabama Shakes. A diferença de estilo é gritante em relação às primeiras canções, mas isso deixa o trabalho ainda mais rico, pois harmonizar os opostos não é uma tarefa fácil.

O toque psicodélico característico da banda foi atenuado, porém, ele existe em “Bye Bye Birdy”, que, além de contar com um curioso poema recitado ao final em sueco, também mostra momentos inusitados de Elin Larsson cantando com entonação ligeiramente infantil e também gritando “Start packing now”. Curioso!

 Nessa mesma toada de experimentações temos “Rhythm in the Blood”, cujo ritmo lembra “Gypsy” e “Elements and Things” (do primeiro e segundo álbuns, respectivamente). Vale ressaltar que seu refrão (“Ohh there’s a killer on the loose”) remete inevitavelmente à polêmica e famigerada “Killer on the Loose”, do Thin Lizzy.

Destaco ainda o empolgante groove de “Kiss My Past Goodbye” e os solos de Zack Anderson em “Songs from a Mourning Dove”, faixa mais longa já gravada pela banda (5:34 min).

O álbum encerra com a temática de depressão na melancólica “Longest Lasting Friend”, basicamente conduzida apenas por voz e guitarra, algo semelhante ao que o Graveyard fez no final do disco “Innocence and Decadence” (2015) com a faixa “Stay for a Song”.

 Perceba os extremos trabalhados pelo Blues Pills: um começo estrondoso falando do empoderamento feminino e, de outro lado, um fim calmo e sereno envolvendo a depressão.

A sensação final é que a banda está revigorada em “Holy Moly!” e mostra muita determinação para sair da zona de conforto experimentada nos lançamentos anteriores. Além disso, a maturidade profissional é facilmente percebida na agressividade da letra e música, nas inserções de elementos gospel e, especialmente, no fato de que a própria banda produziu o disco.

Nenhuma mudança é fácil. Fatores indesejáveis como saída de integrante e atraso no lançamento do álbum (previsto inicialmente para o primeiro semestre, se não fosse a pandemia), seriam suficientes para desestabilizar o emocional de qualquer banda. Mas, ao que tudo indica, isso só serviu de combustível para os suecos.

 Realmente, não resta muito mais a dizer senão “uau!”, pois esta é a melhor reação que tive ao terminar de ouvir o terceiro álbum do Blues Pills. Assim, esta resenha caminha para uma conclusão inevitável, no meu ponto de vista: “Holy Moly!” é um dos melhores lançamentos de rock and roll de 2020.

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