CARL PALMER – SÃO PAULO (SP)

30 de maio de 2026 – Teatro Bradesco

Por Marcelo Gomes

Fotos: Roberto Sant’Anna

Alguns artistas chegam a um ponto da carreira em que passam a celebrar o próprio legado. Outros conseguem algo mais raro: transformar a nostalgia em algo vibrante, relevante e emocionante. Foi exatamente isso que Carl Palmer fez na noite em que apresentou sua turnê ELP Legacy no Teatro Bradesco, em São Paulo. Com ingressos esgotados e uma plateia formada por fãs de diferentes gerações, o lendário baterista mostrou que, aos 76 anos, continua sendo uma força da natureza atrás de seu instrumento, conduzindo uma apresentação que foi, ao mesmo tempo, homenagem, celebração e demonstração de virtuosismo.

A abertura com Karn Evil 9: 1st Impression, Part 2 e Hoedown deixou claro que o repertório seria uma viagem pelos momentos mais marcantes do Emerson, Lake & Palmer. O trio formado por Palmer, o guitarrista Paul Bielatowicz e o baixista Simon Fitzpatrick impressionou logo de início pela precisão técnica e pela energia. Após as primeiras músicas, Palmer caminhou até o microfone para saudar o público e explicar que seus antigos companheiros, Keith Emerson e Greg Lake, também participariam daquela noite por meio de projeções em vídeo. Ao anunciar uma faixa do álbum de estreia da banda, lançado em 1970, ouviu alguém gritar a data da plateia e respondeu com bom humor: “Ah, você tinha que falar isso, não é mesmo?”, arrancando gargalhadas do teatro lotado.

Knife-Edge manteve o alto nível da apresentação, mas foi durante Pictures at an Exhibition que surgiu um dos momentos mais impressionantes da noite. Palmer anunciou que Simon Fitzpatrick faria uma introdução especial para a peça e o baixista protagonizou uma performance simplesmente hipnotizante. Utilizando a técnica de tapping, transformou seu instrumento em algo que soava como um piano, executando passagens complexas com uma combinação rara de técnica, sensibilidade e musicalidade. Foi um daqueles instantes em que o público parece esquecer de respirar, completamente absorvido pelo que acontece no palco.

O clima descontraído continuou em Benny the Bouncer. Antes da execução, Palmer contou que a faixa era uma de suas favoritas do álbum Brain Salad Surgery e revelou que o ELP nunca havia tocado a música ao vivo na época de seu lançamento. A surpresa veio quando o próprio baterista assumiu os vocais da canção. Em seguida, Creole Dance trouxe Keith Emerson de volta ao palco por meio do telão, em um emocionante solo de teclado, lembrando a todos sua genialidade. Logo depois, a monumental Tarkus proporcionou aos presentes uma verdadeira viagem progressiva, rendendo aplausos de pé ao final de sua execução.

Essa parte do show reservou novos destaques. Em Trilogy, Paul Bielatowicz ficou sozinho no palco após ser apresentado por Palmer como “um excelente guitarrista, mas um dançarino extraordinário”, arrancando risadas da plateia. Já From the Beginning e Still… You Turn Me On trouxeram momentos mais delicados e emotivos, com Palmer deixando temporariamente sua bateria principal para tocar percussão na parte da frente do palco. O contraste entre a grandiosidade das peças progressivas e a sensibilidade dessas composições demonstrou toda a diversidade artística que sempre caracterizou o repertório do Emerson, Lake & Palmer.

Um dos pontos altos da noite veio com a interpretação de O Fortuna, de Carl Orff. A famosa composição, utilizada ao longo de décadas como introdução para inúmeros shows de rock e metal, ganhou uma releitura psicodélica e surpreendente que culminou em um extenso solo de bateria. Foi nesse momento que Palmer ofereceu a mais contundente demonstração de sua impressionante forma física e técnica. Em determinado trecho, utilizou apenas as baquetas para construir passagens rítmicas complexas, exibindo uma destreza que muitos músicos com metade de sua idade teriam dificuldade para alcançar. Ao final, a merecida devoção a uma lenda que ainda impressiona e inspira com sua arte.

As histórias contadas entre as músicas também ajudaram a aproximar o público. Antes de Tiger in a Spotlight, Palmer relembrou o curioso episódio em que a banda foi convidada para participar de um programa de televisão na Inglaterra que insistiu diversas vezes em sua presença. Como brincadeira, os músicos responderam que só aceitariam se colocassem um tigre no estúdio. Para surpresa deles, a produção realmente providenciou o animal, inspirando posteriormente a criação da música. Já ao introduzir Paper Blood, o baterista recordou sua surpresa ao encontrar Greg Lake tocando gaita em um camarim antes de algum show, episódio que acabou influenciando a composição da faixa.

Os momentos finais foram carregados de emoção e nostalgia. Lucky Man, apresentada por Palmer como um dos primeiros grandes sucessos do grupo, levou os fãs a cantarem junto praticamente do início ao fim. Em seguida, Fanfare for the Common Man surgiu como uma poderosa celebração do legado de Keith Emerson, sendo descrita pelo baterista como um exemplo de como um verdadeiro tecladista deve soar. O encerramento com Peter Gunn colocou um ponto final perfeito em uma apresentação marcada pela excelência musical, pela reverência à história do rock progressivo e pela conexão genuína entre artista e público.

Mais do que um simples show nostálgico, a passagem da turnê ELP Legacy por São Paulo foi a prova de que a música do Emerson, Lake & Palmer continua tão impactante quanto décadas atrás. E Carl Palmer, aos 76 anos, segue como um de seus maiores guardiões. Com vigor físico admirável, precisão impressionante e um carisma que conquistou a plateia do início ao fim, o baterista transformou uma noite de lembranças em uma celebração vibrante da longevidade artística e da força atemporal do rock progressivo.


Setlist Carl Palmer

Karn Evil 9: 1st Impression, Part 2

Hoedown

Knife-Edge

Pictures at an Exhibition

Benny the Bouncer

Creole Dance

Tarkus

Trilogy

From the Beginning

Still… You Turn Me On

O Fortuna

Tiger in a Spotlight

Paper Blood

Lucky Man

Fanfare for the Common Man

Peter Gunn

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