Entre 18 e 27 de janeiro de 1991, no Estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, aconteceu a segunda edição do Rock in Rio. Em 23 de janeiro, o festival viveu uma de suas datas mais emblemáticas ao dedicar uma noite inteira ao heavy metal, reunindo artistas nacionais e internacionais em um mesmo palco e consolidando de vez o gênero dentro da história do evento.
O chamado “dia do metal” atravessou as décadas não apenas pela força do line-up, mas pelo contexto histórico, pelas turnês apresentadas, pelas polêmicas e pelos acontecimentos que ajudaram a transformar aquela noite em um marco definitivo da música pesada no Brasil.
A segunda edição do Rock in Rio aconteceu seis anos após a inauguração do festival idealizado pelo empresário Roberto Medina. O público brasileiro já tinha maior acesso a discos importados, revistas especializadas e à programação musical da MTV, o que ampliava o repertório e o senso crítico dos fãs. Nesse cenário, o heavy metal deixava de ser tratado como nicho e passava a ocupar um espaço central na cultura pop, algo refletido diretamente na programação do festival. Conto a seguir, em ordem cronológica dos shows, um pouco do que aconteceu naquele dia tão especial para o cenário brasileiro, que, definitivamente, se tornava rota obrigatória para artistas internacionais.
Lobão e as controvérsias
A participação do cantor Lobão no dia do metal acabou se tornando um dos episódios mais controversos do Rock in Rio II. Escalado para se apresentar diante de um público majoritariamente ligado ao heavy metal, o músico subiu ao palco como um “estranho no ninho” e conseguiu executar apenas duas músicas antes de encerrar o show de forma abrupta, em meio a vaias e arremessos de objetos. Antes de deixar o palco, o cantor soltou o verbo.
O ponto mais inesperado da apresentação foi a entrada da bateria da escola de samba Mangueira, levada por Lobão ao palco como parte de sua proposta artística. A presença dos ritmistas, destoando completamente do clima daquele dia, intensificou a reação negativa da plateia e transformou o episódio em um dos momentos mais lembrados — e discutidos — daquela edição do festival. O choque entre linguagens musicais e expectativas ajudou a cristalizar a apresentação como símbolo das tensões culturais do Rock in Rio II.
Sepultura e o salto definitivo
A apresentação do Sepultura no dia do metal do Rock in Rio II aconteceu em um momento definitivo para a carreira da banda. Em janeiro de 1991, Arise ainda não havia sido lançado oficialmente, mas o grupo já trabalhava ativamente na divulgação do novo material. Para isso, foi preparada uma edição prévia do disco, com mixagens preliminares (rough mixes) especificamente para o mercado brasileiro, e distribuída de forma limitada. Funcionou como uma antecipação do que viria a se tornar um dos trabalhos mais importantes de sua trajetória.
No palco, o Sepultura combinou músicas já conhecidas do público com faixas que apontavam para a nova fase, apresentando um som mais direto e agressivo. O show teve forte impacto simbólico: colocou a banda brasileira diante de um público massivo, que recebeu muito bem o quarteto Max Cavalera, Igor Cavalera, Paulo Junior e Andreas Kisser, no mesmo dia de grandes nomes do metal mundial, e ajudou a consolidar sua imagem como um grupo já em processo de transição para o cenário internacional. A partir dali, o caminho para a projeção global do Sepultura se tornaria definitivo.
Megadeth e o nascimento de uma era
O Megadeth fez sua estreia frente ao público brasileiro no Rock in Rio II em um momento crucial de sua trajetória. O show marcou o começo — embora não o início absoluto — da turnê do álbum Rust in Peace, lançado em 1990, disco que redefiniu os rumos artísticos da banda de Dave Mustaine. Além da divulgação do trabalho, a apresentação simbolizou a consolidação da então nova formação, com Marty Friedman na guitarra e Nick Menza na bateria.
No palco, o Megadeth apresentou um repertório fortemente ancorado nas músicas de Rust in Peace, exibindo um nível técnico elevado, arranjos complexos e uma execução precisa que impressionaram o público. Em entrevista a este repórter, publicada na edição #183 da ROADIE CREW, o hoje saudoso Nick Menza falou de suas lembranças sobre o show: “O Rock in Rio foi incrível, uma enorme diversão. Foi a maior multidão para a qual eu já toquei! Nós só tivemos 65 minutos para tocar, por isso aceleramos o ritmo de todas as músicas para não cortarmos nenhuma do set. Foi realmente um bombardeio de nossa parte. Eu amei demais. Quando eu vejo o show no YouTube, dou risada de quão rápido estávamos tocando”.
A apresentação funcionou como uma vitrine internacional para aquela formação, que viria a se tornar a mais reverenciada da história da banda, e ajudou a estabelecer uma relação duradoura entre o grupo e o público brasileiro.
Queensrÿche e a sofisticação do metal
O Queensrÿche levou ao Rock in Rio II a turnê do álbum Empire, lançado em 1990. O disco representava uma fase de expansão artística e comercial da banda, equilibrando estruturas mais acessíveis com a complexidade técnica que sempre marcou sua identidade.
A apresentação trouxe uma abordagem distinta dentro do dia do metal, apostando em arranjos elaborados, melodias marcantes e uma condução mais progressiva. Em meio a shows mais diretos e agressivos, o Queensrÿche ampliou o espectro sonoro da noite, mostrando a diversidade estética que o heavy metal já apresentava no início dos anos 1990.
Judas Priest e o impacto de Painkiller
O Judas Priest chegou ao Rock in Rio II divulgando a turnê do álbum Painkiller, lançado em 1990. O disco representava uma transformação sonora significativa na carreira da banda, com músicas mais rápidas, riffs agressivos e uma abordagem vocal exigente, que colocava Rob Halford em um novo patamar técnico.
No palco do Maracanã, o grupo apresentou um repertório que mesclava faixas recentes com clássicos consagrados, em um show marcado por precisão, peso e pela estética tradicional do heavy metal. A apresentação ajudou a reforçar o vínculo da banda com o público brasileiro e se tornou uma das mais lembradas daquela edição do festival, sendo frequentemente citada como referência de performance dentro do gênero.
Guns N’ Roses, expectativa e tensão
O Guns N’ Roses era uma das atrações mais aguardadas de todo o festival. A banda vivia um período de intensa exposição e preparava o terreno para o lançamento dos álbuns Use Your Illusion I e Use Your Illusion II, que chegariam ao mercado ainda em 1991. Parte do repertório desses discos já vinha sendo testada ao vivo naquela turnê.
A apresentação, no entanto, ficou marcada por atrasos e por um clima tenso nos bastidores. A demora para subir ao palco gerou impaciência no público. Mesmo assim, a presença do Guns N’ Roses naquela noite simbolizou o auge da popularidade e sucesso do grupo e reforçou o caráter imprevisível do dia do metal no Rock in Rio II.
Uma noite que virou referência
O dia do metal no Rock in Rio II extrapolou a soma de seus shows. Ele reuniu estilos distintos, estreias, momentos decisivos de carreira, conflitos de bastidores e episódios que ajudaram a moldar a memória coletiva do festival.
Trinta e cinco anos depois, 23 de janeiro de 1991 segue como uma data fundamental para entender a consolidação do heavy metal no Brasil e o papel do Rock in Rio como palco de encontros históricos e transformações que marcaram gerações.
Clique aqui e siga o CANAL “Roadie Crew” no WhatsApp
Clique aqui e faça parte do GRUPO da ROADIE CREW no WhatsApp




