MEGADETH: 40 anos de “Peace Sells… But Who’s Buying?”, a obra-prima que mudou o jogo

Por Leandro Nogueira Coppi

Em 19 de setembro de 1986, o Megadeth deixou de ser apenas uma promessa agressiva do underground norte-americano. Com Peace Sells… But Who’s Buying?, Dave Mustaine, David Ellefson, Chris Poland e Gar Samuelson encontraram uma combinação rara de velocidade, técnica, melodias tortuosas e letras que olhavam para além do imaginário tradicional do heavy metal. Quarenta anos depois, aquele segundo álbum continua sendo uma das peças fundamentais para entender como o thrash metal saiu das garagens e passou a ocupar um espaço cada vez maior no cenário mundial.

E havia uma ironia em tudo aquilo. Enquanto o mundo enxergava quatro músicos construindo um dos discos mais importantes do gênero, a realidade dentro do Megadeth estava longe de ser organizada. O álbum nasceu sob limitações financeiras, problemas pessoais, abuso de drogas, mudanças de gravadora e uma corrida contra o tempo. O resultado, porém, seria muito maior do que as circunstâncias permitiam imaginar.

 

O segundo disco era tudo ou nada

Quando começou a trabalhar em Peace Sells… But Who’s Buying?, o Megadeth ainda estava tentando se estabelecer.

Killing Is My Business… and Business Is Good! havia apresentado a banda em 1985, mas também exposto suas limitações. O orçamento reduzido prejudicara principalmente a produção, embora as composições já revelassem o potencial de Dave Mustaine, que havia jurado vingança ao Metallica no momento em que a ficha caiu de que ele havia sido “convidado a se retirar” da banda.

Para o segundo álbum, a banda precisava dar um salto.

O núcleo era o mesmo que havia consolidado a formação do disco de estreia: Dave Mustaine nos vocais e guitarra, David Ellefson no baixo, Chris Poland na guitarra e Gar Samuelson na bateria.

A diferença estava na maturidade musical.

Parceiros na música desde os cinco anos em que estiveram juntos no grupo The New Yorkers, Poland e Samuelson traziam ao Megadeth uma bagagem pouco comum para uma banda de thrash. A influência do jazz e do fusion ajudava a explicar por que algumas passagens do álbum pareciam escapar deliberadamente da estrutura convencional do gênero.

Em vez de simplesmente tocar mais rápido, o grupo queria tocar de maneira mais complicada, mais imprevisível e, principalmente, mais pessoal.

O disco que a Combat não conseguia bancar

A Combat Records destinou cerca de US$ 25 mil para a gravação. Para os padrões de uma grande produção, era pouco. Ainda assim, o dinheiro permitiu que a banda trabalhasse com Randy Burns, que assumiu a produção e a engenharia ao lado de Casey McMackin.

As gravações aconteceram entre fevereiro e março de 1986, principalmente no The Music Grinder, em Los Angeles, com trabalhos adicionais em outros estúdios da região.

O problema era que o Megadeth não vivia exatamente um momento de estabilidade. Mustaine e Ellefson enfrentavam dificuldades financeiras e chegaram a dormir no próprio local onde ensaiavam. Ao mesmo tempo, os problemas de dependência química de Poland e Samuelson tornavam a rotina de gravação ainda mais complicada.

Mesmo nesse cenário, a banda conseguiu terminar o álbum. A Combat Records tinha agora um produto muito mais ambicioso do que o orçamento sugeria. E foi justamente aí que uma grande mudança aconteceu.

Capitol entra em cena

A Capitol Records percebeu que havia algo especial naquele segundo álbum e adquiriu os direitos de Peace Sells… But Who’s Buying?. O acordo transformou o disco na primeira grande investida do Megadeth por uma gravadora major. Mas a Capitol não simplesmente colocou as gravações originais nas lojas. O produtor Paul Lani foi contratado para remixar o material, dando ao álbum uma sonoridade mais definida e adequada a uma distribuição maior.

A mudança de gravadora seria fundamental para o futuro do grupo. O Megadeth ainda estava longe de ser uma banda de arena, mas agora tinha uma estrutura capaz de levar sua música para além do circuito underground.

A própria cronologia oficial da banda registra 1986 como o ano em que a Capitol Records assinou com o Megadeth, adquiriu os direitos de Peace Sells… But Who’s Buying? e colocou o grupo em turnês ao lado de nomes como King Diamond e Motörhead.

Megadeth em frente ao prédio da Capitol Records

A capa que transformou Vic Rattlehead em um ícone

Se a música era agressiva, a capa precisava estar à altura.

Ed Repka, então com apenas 23 anos, recebeu o conceito para representar visualmente o universo de Peace Sells… But Who’s Buying?. O resultado se tornou uma das imagens mais famosas da história do metal.

Na pintura, Vic Rattlehead, mascote do Megadeth criado por Dave Mustaine, aparece vestido como um corretor de imóveis diante das ruínas da sede das Nações Unidas. Um letreiro anuncia o imóvel como disponível para venda.

A ideia é simples e brutal: depois de uma catástrofe, até a própria instituição criada para promover a paz virou mercadoria.

A imagem sintetizava perfeitamente o título do álbum e o cinismo das letras de Mustaine. Também ajudou a estabelecer a aparência definitiva de Vic Rattlehead, que passaria a ocupar um papel cada vez mais importante no imaginário visual do Megadeth, assim como Eddie para o Iron Maiden.

De onde veio o título?

O título Peace Sells… But Who’s Buying? não surgiu simplesmente de uma frase inventada por Dave Mustaine. O músico encontrou inspiração em uma matéria da revista Reader’s Digest cujo título era próximo de Peace Would Sell But No One Would Buy It. A ideia foi transformada por Mustaine em uma pergunta curta, irônica e provocativa.

A frase funcionava em vários níveis. Era uma provocação contra discursos políticos, uma reflexão sobre a Guerra Fria e também uma crítica à maneira como a sociedade tratava conceitos como paz, guerra e patriotismo.

E, ao contrário do que poderia parecer, a faixa não foi construída como um discurso político convencional. Mustaine misturou desconfiança em relação ao governo, frustração social e observações sobre sua própria vida.

Na edição comemorativa de 25 anos, o próprio músico explicou que considerava a música particularmente pessoal porque ela reunia suas crenças, sua visão de mundo, sua desconfiança do governo e sua ideia de integridade.

O riff de baixo que foi parar na televisão

Poucas introduções de baixo na história do metal são tão reconhecíveis quanto a de Peace Sells. Mas, por incrível que pareça, a linha criada para o primeiro hit do Megadeth não foi inventada por Ellefson, mas sim pelo próprio Dave Mustaine. E ela chegou a um público que talvez sequer soubesse quem era o Megadeth.

A MTV incorporou o trecho inicial como tema de seus segmentos de notícias.

Segundo Ellefson, os integrantes estavam assistindo televisão quando perceberam que o famoso riff havia aparecido durante uma chamada do MTV News. A partir daí, a associação entre aquela linha de baixo e as notícias da emissora se tornou recorrente.

Foi uma exposição extraordinária para uma banda de thrash.

O mais curioso é que o próprio Megadeth ainda estava longe do status de estrela que conquistaria nos anos seguintes. A música acabou chegando às casas de milhões de pessoas antes mesmo de a banda se tornar um fenômeno de grande escala.

Peace Sells: quando o Megadeth encontrou seu hino

A faixa-título também representava uma mudança importante na composição de Dave Mustaine.

O Megadeth ainda tinha músicas sobre morte, ocultismo, violência e paranoia, mas Peace Sells mostrava que a banda poderia transformar observações sociais em uma música de enorme apelo.

A estrutura era relativamente simples para os padrões do grupo, mas o arranjo tinha detalhes suficientes para impedir que a faixa se transformasse em um simples hino de arena.

O baixo de Ellefson, os riffs de Mustaine e Chris Poland e a bateria de Gar Samuelson criavam um equilíbrio incomum entre agressividade e groove. O resultado se tornou uma das músicas mais reconhecíveis do thrash metal.

O videoclipe, dirigido pelo artista nova-iorquino Robert Longo, foi gravado no L’Amour, no Brooklyn, durante uma passagem da banda por Nova York. A produção misturou imagens gravadas durante o dia com registros do show daquela noite.

O efeito visual também provocou uma consequência inesperada: o uso intenso de luzes estroboscópicas levou à proibição do vídeo no Reino Unido por causa do risco de provocar crises em pessoas fotossensíveis.

Wake Up Dead: uma história muito mais pessoal

Se Peace Sells olhava para o mundo, Wake Up Dead olhava para um problema bem mais íntimo. A letra fala de um homem que retorna para casa depois de passar a noite com outra mulher, sabendo que sua parceira pode matá-lo se descobrir a traição.

A história tinha inspiração autobiográfica, inclusive, a ex-noiva de Mustaine, Diana Aragon, é mencionada na letra. Mustaine já explicou que a música nasceu de uma situação em que ele mantinha um relacionamento paralelo. A situação era ainda mais complicada porque ele precisava continuar vivendo na casa da companheira por não ter outro lugar para ficar.

Transformada em música, a situação ganhou o tratamento típico do Megadeth: tensão, paranoia e uma sucessão de mudanças musicais que fazem a faixa parecer prestes a desmoronar a qualquer momento.

Wake Up Dead foi o primeiro single do álbum e também ganhou videoclipe, consolidando a presença da banda na MTV.

O lado sombrio de The Conjuring

The Conjuring mergulhava em outro universo, bem mais obscuro. A música combinava riffs ameaçadores com referências ao ocultismo e se tornou uma das composições mais pesadas do álbum. Décadas depois, a relação de Mustaine com a faixa seria alterada por suas convicções religiosas, mas em 1986 ela fazia parte do repertório que ajudava a construir a imagem sombria do Megadeth.

O interessante é que Peace Sells… But Who’s Buying? não depende de uma única temática.

Política, guerra, religião, traição, violência e paranoia convivem no mesmo álbum.

Good Mourning/Black Friday: pela primeira vez, duas músicas em uma

Um dos momentos mais ambiciosos do disco é Good Mourning/Black Friday.

A faixa começa de maneira quase contemplativa, com uma introdução instrumental marcada pela guitarra de Chris Poland, antes de se transformar em uma violenta sequência sobre um assassino em série. É praticamente uma pequena narrativa dentro do álbum.

O contraste entre as duas partes também revela uma das características mais interessantes do Megadeth daquele período: a banda não precisava permanecer em alta velocidade o tempo inteiro para soar pesada.

A guitarra melódica de Poland no início e o ataque brutal da segunda parte pertencem ao mesmo universo, mas parecem dois capítulos diferentes da mesma história, fórmula que se repetiria mais tarde com Holy Wars… The Punishment Due e com Recipe For Hate… Warhorse.

Uma versão de Willie Dixon

Em meio às composições próprias, o Megadeth incluiu uma escolha inesperada: I Ain’t Superstitious, de Willie Dixon.

A música havia sido gravada anteriormente por artistas de blues, mas o Megadeth a transformou em uma faixa curta e agressiva, mantendo a estrutura da composição enquanto a transportava para seu próprio território.

A presença da música também reforçava algo que muitas vezes passa despercebido em Peace Sells… But Who’s Buying?: por trás de toda a velocidade havia músicos com referências muito mais amplas do que o rótulo thrash poderia sugerir.

O último registro daquela primeira formação clássica

A formação de Peace Sells… But Who’s Buying? entraria para a história como uma das mais importantes da trajetória do Megadeth, mas não duraria muito.

Chris Poland e Gar Samuelson permaneceram na banda durante a turnê de divulgação, mas seriam demitidos por Dave Mustaine em 1987 em meio a problemas relacionados ao abuso de drogas.

Assim, Peace Sells… But Who’s Buying? acabou se tornando o último álbum de estúdio com os dois músicos — ao menos juntos, já que, no caso de Poland, ele gravou as demos de Rust in Peace e participou de The System Has Failed.

A saída deles também significou o fim de uma combinação particularmente singular dentro do Megadeth. A influência jazzística de Poland e Samuelson ajudava a explicar boa parte da complexidade do material, e a formação seguinte levaria a banda para outro caminho.

Um ano que mudou o thrash

O impacto de Peace Sells… But Who’s Buying? também precisa ser entendido dentro de seu momento histórico.

1986 foi um daqueles anos em que o thrash metal pareceu avançar vários anos em poucos meses.

Três obras primas do gênero nasceram: o Metallica lançou Master of Puppets. O Slayer apresentou Reign in Blood. O Megadeth colocou Peace Sells… But Who’s Buying? nas lojas. A cena estava deixando de ser apenas um fenômeno subterrâneo.

O segundo álbum do Megadeth não foi o maior sucesso comercial daquele grupo de discos naquele momento. Mas ajudou a estabelecer uma linguagem que seria fundamental para o crescimento do gênero: velocidade sem abrir mão da técnica, agressividade acompanhada de riffs memoráveis e letras que não dependiam apenas dos clichês do heavy metal.

O álbum chegou ao 76º lugar da Billboard 200 e posteriormente recebeu certificação de platina nos Estados Unidos.

O começo da escalada

Depois do lançamento, o Megadeth passou a dividir palcos com nomes cada vez maiores.

A banda excursionou com Motörhead e King Diamond e, posteriormente, abriu shows para Alice Cooper durante a turnê Constrictor.

A trajetória ainda seria turbulenta, mas o caminho estava aberto.

O Megadeth já não era simplesmente a banda formada por um ex-integrante do Metallica. A partir de Peace Sells… But Who’s Buying?, passou a existir uma identidade própria, sustentada por uma combinação de técnica, velocidade e sarcasmo que seria aprofundada em So Far, So Good… So What! e, principalmente, em Rust in Peace.

Quarenta anos depois

É tentador olhar para Peace Sells… But Who’s Buying? apenas como o disco que contém Peace Sells e Wake Up Dead. Mas isso seria reduzir demais sua importância.

O álbum documenta um momento em que o Megadeth ainda era instável, pobre e imprevisível, mas já tinha encontrado uma voz.

Há uma diferença enorme entre uma banda que simplesmente toca thrash metal e uma banda que consegue fazer o gênero parecer uma linguagem própria. Em 1986, o Megadeth encontrou essa linguagem.

A capa de Ed Repka, que se tornou o mestre das capas de thrash/death, a voz inconfundível de Dave Mustaine, o baixo de David Ellefson, as guitarras de Mustaine e Chris Poland, a bateria de Gar Samuelson, o riff que acabou virando trilha do MTV News e oito músicas que atravessaram quatro décadas transformaram Peace Sells… But Who’s Buying? em algo maior que um segundo álbum.

Foi o disco que colocou o Megadeth na conversa.

E, 40 anos depois, a pergunta continua funcionando.

 

O repertório de Peace Sells… But Who’s Buying?

  1. Wake Up Dead
  2. The Conjuring
  3. Peace Sells
  4. Devil’s Island
  5. Good Mourning/Black Friday
  6. Bad Omen
  7. I Ain’t Superstitious
  8. My Last Words

 

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Foto de Neil Zlozower
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