DREAM THEATER – SÃO PAULO (SP)

9 de maio de 2026 – Vibra São Paulo

Por Luiz Tosi

Fotos: Roberto Sant’Anna

Essa história começa no final de 2023, quando o Dream Theater pegou o mundo de assalto com a notícia que todo fã esperava desde 2010: o retorno do baterista e cofundador Mike Portnoy. Com ele de volta, a banda anunciou um de seus projetos mais ambiciosos: uma turnê mundial de 18 meses em que daria duas voltas ao mundo, separadas pela chegada de Parasomnia, álbum de inéditas lançado em 2025.

A primeira perna, mais abrangente e nostálgica, celebrava os 40 anos da formação original e percorreu o Brasil em dezembro de 2024 com cinco apresentações. A segunda era outra conversa: Parasomnia na íntegra, um segundo bloco celebrando os 40 anos, e, como grand finale, a apresentação completa do épico de 1995, A Change of Seasons nas suas sete partes, em comemoracão dos seus 30 anos de lançamento.

No melhor estilo DT, a banda prometeu não repetir nenhuma canção nas cidades em que passasse nas duas pernas, exceção feita a Night Terror, single apresentado em 2024 e parte de Parasomnia, no formato ‘an evening with’ – quase três horas com intervalo de 20 minutos. Um presente absurdo para uma das bases de fãs mais devotas do mundo.

Desta vez, Brasília foi acrescentada ao roteiro, e aí vem a parte interessante: como a banda passava por lá pela primeira vez na tour, recebeu a primeira perna, focada nos grandes sucessos dos 40 anos. As demais cidades, Porto Alegre, Curitiba, Rio de Janeiro, Belo Horizonte e São Paulo, tiveram as duas pernas.

O Vibra recebeu um bom público, mas longe de lotado. Compreensível. A primeira perna era mais palatável, mais hits, mais aberta para não-iniciados. Essa segunda era quase um bônus da parte 1, um território de conhecedores, de quem sabe o que é Parasomnia e o que significa ver A Change of Seasons completa pela primeira vez no Brasil. O público foi menor, mas mais concentrado, mais entregue, mais conectado. Não faltou nada além de mais gente.

Às 20h30 em ponto, ao som do tema do filme “O Iluminado” de Stanley Kubrick, o Dream Theater subiu ao palco. E a viagem começou. Parasomnia gira em torno dos mistérios do subconsciente – pesadelos, distúrbios do sono, terrores noturnos, paralisia, sonambulismo. Musicalmente, é o resgate da sonoridade de onde a banda parou em Black Clouds and Silver Linings, em 2010. Técnico quando precisa ser, acessível quando quer. Ao vivo, com visuais elaborados nos telões e a cama no centro do palco como cenografia, o disco ganha uma dimensão extra, como uma experiência cinematográfica. A banda entendeu isso: nenhuma pausa para conversa, uma faixa levando à outra, uma fluidez que criou quase um estado alterado coletivo.

A instrumental In the Arms of Morpheus abre com os sons de alguém embarcando no sono, descendo do calmo para o claustrofóbico, anunciando em pequenos trechos tudo o que viria. Uma porta de entrada para Night Terror, grande momento de uníssono da plateia. A perturbadora A Broken Man, sobre o estresse psicológico do TEPT (Transtorno de Estresse Pós-Traumático), ganha força extra com os visuais nos telões. Dead Asleep, com seus mais de 11 minutos, explora o caso real do galês Brian Thomas, que em 2009 matou a esposa em estado de sonambulismo. Densa, pesada, hipnótica para quem estava dentro do disco.

Midnight Messiah, escrita por Portnoy, conta a história de um homem que se sente mais à vontade em seus sonhos do que no mundo real. O baterista admitiu abertamente que é uma metáfora do seu retorno ao Dream Theater. Ao vivo ficou ainda mais evidente. Are We Dreaming?, interlúdio atmosférico de menos de dois minutos guiado por Rudess, funcionou exatamente como deveria: uma respiração antes de Bend the Clock, balada melancólica sobre o desejo desesperado de manipular o tempo para escapar da paralisia do sono. Petrucci numa plataforma sob lasers entregou um solo digno de ser emoldurado.

E então veio The Shadow Man Incident. Vinte minutos, o clímax do álbum, o fio que conecta todos os medos e alucinações da obra até o momento em que o despertador finalmente acorda o protagonista. O boneco inflável do “homem sombra” emergindo ao lado de John Petrucci criou uma atmosfera que transitava entre um show de rock e o pesadelo de uma ópera. Quando o tema principal do álbum foi retomado ao final, a casa explodiu antes mesmo do desfecho. Fim do Ato 1. Já dava para pagar ingresso de novo e voltar. Mas vinha muito mais pela frente.

A coesão de Parasomnia ao vivo surpreende até quem conhece bem o disco. As faixas se encadeiam sem respiro e 70 minutos passam num piscar de olhos – o que, para quem sabe o que um álbum conceitual de prog metal pode fazer quando perde o ritmo ao vivo, não é pouca coisa.

Seria injusto passar pelo Ato 1 sem falar dos músicos. Mas convenhamos: qualquer análise técnica de um show do Dream Theater vai chegar no mesmo lugar. Nada é suficiente.

Jordan Rudess é um espetáculo à parte. Com teclado giratório com LEDs, iPads, keytar e fingerboards, o mago, como é conhecido, transforma o palco em laboratório e parece se divertir genuinamente a cada nota. É a cola entre melodia e complexidade, e faz isso soando leve. John Myung, calmo e preciso como sempre, esbanjou técnica no baixo verde-abacate sem precisar chamar atenção porque já a tem. Petrucci, com o timbre e a precisão de sempre, transforma cada solo num evento. Não à toa a casa vai abaixo em cada um deles. James LaBrie está em grande fase: os 63 anos aparecem pouquíssimo na voz, a presença é calorosa e há nele uma confiança e uma capacidade raras de cantar linhas melódicas sobre bases intrincadas sem forçar e sem simplificar.

Mas a conversa sempre volta para Portnoy. Porque ele não é só um baterista extraordinário, é a espinha dorsal emocional dessa banda. Completamente reambientado onde nunca deveria ter saído, devolve ao DT uma espontaneidade que estava ausente. O pedido que fez ao retornar – que a banda abandonasse o metrônomo ao vivo – está perceptível em cada música. O show respira diferente, a banda interage diferente. Há leveza, improviso, troca. E isso transforma cinco músicos extraordinários tocando juntos em algo que parece, de verdade, vivo.

Intervalo de 20 minutos e a casa virou outra. Backdrops trocaram, atmosfera mudou, e quando os PAs trouxeram False Awakening Suite, a trilha de abertura do álbum homônimo de 2013, o Ato 2 se anunciou. The Enemy Inside abriu com intensidade e peso. Portnoy, responsável pelos setlists, trocou duas semi-baladas da fase Mangini apresentadas na primeira perna por algo mais pesado e complexo na segunda, e acertou em cheio.

A cultuada A Rite of Passage veio logo depois, e então chegou o que boa parte da casa mais esperava: uma dobradinha de Metropolis Pt. 2, representado por Through My Words e Fatal Tragedy. De arrepiar. Palco e plateia em uníssono, o tipo de momento que só acontece quando banda e público dividem uma história longa.

O peso voltou com The Dark Eternal Night, sistematicamente caótica, que fez a pista pular. O plano de aterrissagem começou com a floydiana Peruvian Skies, que enlouqueceu o público com trechos de Nothing Else Matters, Wish You Were Here e Wherever I May Roam costurados com precisão e malandragem de quem é, acima de tudo, fã. E fechou com Take the Time, com LaBrie entregando o microfone para a plateia cantar, aquele coro de Images and Words que não envelhece. As escolhas do Ato 2 se mostraram perfeitas, complementando sem sobreposição o que a primeira perna entregou 18 meses antes.

Antes do Ato 3, o telão exibiu a cena “Carpe Diem” do filme “Sociedade dos Poetas Mortos”. Petrucci ficou sozinho no palco, e os primeiros acordes de A Change of Seasons se espalharam pela casa. Um pouco de contexto: a faixa de 23 minutos foi pensada originalmente para Images and Words em 1992, vetada pela gravadora por ser longa demais, regravada e lançada em 1995 como EP. Escrita por Portnoy, a letra fala do ciclo da vida e foi profundamente inspirada pela morte da mãe dele, vítima de acidente aéreo em 1984. Dizem que é o épico favorito de 9 em 10 fãs de Dream Theater. Confesso que sou esse 1 em 10, pois há outros que prefiro. Mas sem demérito nenhum. Ver as sete partes na íntegra foi impressionante sob qualquer ângulo. Tinha gente que foi ao show basicamente para esse momento.

The Crimson Sunrise, Innocence, Carpe Diem, The Darkest of Winters, Another World, The Inevitable Summer e The Crimson Sunset foram atravessadas com entrega total. Nos momentos mais densos, a plateia entrou num silêncio quase religioso. Nos mais enérgicos, explodiu. A carga emocional da faixa fez os 23 minutos passarem sem peso – com extrema fidelidade aos timbres do EP, Petrucci se permitindo improvisar nos solos, LaBrie segurando o tom original com propriedade e Portnoy, que não executava a faixa completa desde 2004, trazendo para a performance algo que nenhuma análise técnica consegue nomear direito.

Quem foi nas duas pernas teve quase seis horas de Dream Theater sem repetição. Quem foi só nesta teve três horas com Parasomnia do início ao fim, um segundo bloco impecável e um épico de 23 minutos estreando completo no Brasil. O Vibra não estava lotado. Mas quem estava lá sabe o que aconteceu. Algumas noites valem muito mais do que o número de ingressos vendidos sugere.

Setlist

Ato 1

In the Arms of Morpheus

Night Terror

A Broken Man

Dead Asleep

Midnight Messiah

Are We Dreaming?

Bend the Clock

The Shadow Man Incident

Ato 2

The Enemy Inside

A Rite of Passage

Act I: Scene Three: I. Through My Words

Act I: Scene Three: II. Fatal Tragedy

The Dark Eternal Night

Peruvian Skies

Take the Time

Ato 3

A Change of Seasons: I The Crimson Sunrise

A Change of Seasons: II Innocence

A Change of Seasons: III Carpe Diem

A Change of Seasons: IV The Darkest of Winters

A Change of Seasons: V Another World

A Change of Seasons: VI The Inevitable Summer

A Change of Seasons: VII The Crimson Sunset

 

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