Estreia do documentário de AQUILES PRIESTER reúne fãs e músicos em São Paulo

Por Fernando Queiroz

Fotos: Bárbara Matos

Poucos músicos no metal, de forma individual, chegam ao ponto de ter documentários de suas carreiras, muito menos de suas turnês. Quando se trata de um baterista brasileiro, então, isso é singular, e quem realizou esse feito foi Aquiles Priester – e não poderia ter sido nenhum outro, certo?

Conhecido por ser o baterista atual do W.A.S.P., além de ter passado por bandas como Noturnall, Hangar e pela carreira solo de Edu Falaschi, no Brasil seu nome é atrelado inevitavelmente ao Angra. Em quase todos os casos, a imagem de Aquiles é a de alguém em outro patamar, com shows em casas cheias, grandes, até arenas e festivais europeus. E, não para menos, ele já entrou no panteão das lendas da bateria no metal. O que nos apresentaram no dia 9 de setembro, no Cine Olido, em São Paulo — um documentário de uma turnê brasileira ao lado de outra lenda do instrumento, o baterista de fusion austríaco Thomas Lang –, foi uma imagem diferente disso, mostrando o lado humano dos músicos. Não apenas isso, sua relação com a equipe é o foco. Desmistificar, humanizar aquela imagem de Aquiles, mas também incentivar bateristas: se eu pudesse resumir o que assistir em uma frase, seria essa.

A sessão do filme estava marcada para às 19h30, mas já antes lá estavam Aquiles e sua equipe inteira – roadies, merchandiser, técnico de som e até o motorista de seu micro-ônibus, as estrelas do filme, recebendo o público, que pouco a pouco ia chegando à galeria Olinda, ao lado da lendária Galeria do Rock, no centro de São Paulo – local muito bem escolhido, diga-se de passagem, por seu fácil acesso e por estar ao lado do ponto mais conhecido do rock e do metal no país inteiro. O baterista era, claro, o protagonista, e conforme os convidados iam chegando, um por um ele os ia atendendo carinhosamente. Estava claramente feliz, animado, sorridente – e, como sempre, piadista e brincalhão.

Dentre esse público, muitos rostos conhecidos de todos: músicos de diversas bandas, maiores e menores, iam chegando em peso para assistir à película e parabenizar o colega. É aqui que precisamos pontuar uma crítica sobre o posicionamento das coisas: o stand com iluminação onde Aquiles ia tirando fotos com quem ia chegando era um tanto mal posicionado, em um ponto de passagem das pessoas que iam subindo as escadas de entrada para chegarem à sala da exibição, e por conta do atendimento de Aquiles às pessoas e das fotos profissionais que eram tiradas, sobrou um espaço muito estreito que dificultava um pouco a passagem. Havia, no local, espaço melhor para isso, que estava vazio, e não sei por que não foi usado. De toda forma, sem maiores problemas, e com alguns pedidos de licença, todos passaram, todos o cumprimentaram e se cumprimentaram entre si.

Claro, como não podia faltar, também estava montada a banca de merchandising, que vendia artigos diversos do baterista, dos mais simples, aos realmente de luxo: kit de baquetas, CDs de todas as bandas pelas quais ele passou, em edições japonesas lindíssimas e capas digipack, além de vinis do Angra, camisetas com o nome dele, livros biográficos e didáticos de bateria – quase tudo, como era de se esperar, com preços altos, dadas as condições “deluxe” de boa parte dos itens e por serem importados.

Cerca de 19h40, dez minutos após o previsto, muito por conta de Aquiles ainda estar atendendo as pessoas que iam chegando, que ele fazia questão de receber e agradecer a presença, todos foram se acomodando para assistir o documentário.

Thomas Lang infelizmente não pôde estar presente pois estava em turnê, mas gravou um vídeo que foi apresentado no telão falando com o público. Agradeceu a todos seus colegas, sua equipe, chamou Aquiles de seu “irmão”, e falou que já tocou em estádios mundo afora, mas nunca tinha tido uma equipe tão unida, prestativa, esforçada e familiar como aquela. Claramente aquilo emocionou os envolvidos.

Antes da exibição do filme, Aquiles foi à frente da plateia e falou algumas palavras. Começou dizendo que era estranho, para ele, estar ali perante tantas pessoas sem ser tocando uma bateria. Falou sobre como o documentário é algo muito diferente em sua carreira e que, embora já tenha feito outros, este foi especial por se tratar de algo intimista – de fato, o que vimos foi isso, o dia-a-dia deles na estrada. Apresentou, então, cada um dos membros da equipe, que são as estrelas do filme junto com ele e Thomas. Chamou ao seu lado Ramon Cruz, seu roadie, apelidado de “Tripa Seca”, com quem já trabalha há oito anos; Daniel Fernandes, o “Anão”, seu técnico de som há quase duas décadas; Luis Fernando Pereira, o Lufeh, baterista do Oficina G3, que serviu como drum tech de Thomas Lang; Carlos Vinícius, o “Mimimi”, pessoa responsável pela venda de merchandising; João Gomes de Lima, o “Bon Jovi”, motorista do ônibus de tour e, finalmente, Thiago Bagues Drum’on, o “Baiano’, videomaker e diretor do projeto que veio a ser o documentário em questão. Todos falaram um pouco sobre si próprios, sobre Aquiles, Thomas e sobre o que ocorreu na turnê. O que todos ressaltaram foi que aquele Aquiles que os fãs veem não é o mesmo que está por trás das cortinas, nos bastidores, e veríamos aquilo nas filmagens – apesar disso, todos destacaram a ótima amizade que têm com o baterista. “Baiano”, em especial, disse que começou como fã e que como tal participar disso foi sua pior decisão, mas que não se arrepende, pois era exatamente o que queria. Terminado o breve discurso de cada um, era hora do filme.

Sejamos diretos: não sou crítico de cinema; para ser honesto, a última vez que fui ao cinema foi para assistir “Madame Web”, da Marvel, ainda no ano passado (diga-se de passagem, provavelmente um dos piores filmes já feitos na história). Não tenho conhecimento para falar de nada técnico audiovisual ali. Tudo que será falado aqui são palavras de um apreciador de música sobre um filme de música, e de alguém que já participou de turnês, de uma forma ou de outra. Assim, seguimos!

Já aviso de antemão: para quem procura algo relacionado ao Angra ali, não há nada. Nem músicas, nem referências. Na verdade, a nenhuma banda por onde Aquiles passou. No máximo trechos de músicas sendo tocadas ao vivo. O filme tem tons muito bem humorados logo de começo; a própria introdução dos personagens já tem um tom bem leve, mostrando realmente a amizade que há entre os envolvidos. É, para todos os efeitos, um ‘tour report’, feito de forma bem mais extensa – quem já viu aqueles extras de DVDs de shows sabe o que quero dizer, só que em vez de apenas alguns minutos, temos uma hora e quarenta minutos de gravações editadas. As filmagens são bem orgânicas, pegando os membros em momentos aleatórios do dia-a-dia da turnê. Interessante ver como Thomas Lang, austríaco, em especial, se adaptou à realidade brasileira de tours – com as clássicas cenas dele tomando caipirinha e comendo churrasco. Há momentos de absolutamente todas as apresentações feitas por diversos estados brasileiros, e é muito legal ver que cada contratante, que segundo Aquiles são heróis que assumiram riscos para que aquilo acontecesse, são apresentados nominalmente. Também há passagens com fãs, bateristas locais e até a youtuber mirim de bateria Bibi na Batera (que inclusive estava presente no dia).

No mais, é exatamente o que se tem em uma experiência de turnês: perrengues, risadas, estradas ruins, locais grandes, pequenos, com públicos grandes e pequenos, nos melhores e piores camarins, muitos improvisados. Turnê é isso! Claro, é um material oficial, e as brigas sem dúvida foram minimizadas. Apenas uma, já no fim do filme, está realmente registrada. Pode parecer um pouco “chapa branca”, mas, de toda forma, é o que se espera.

Foi, no geral, uma boa experiência audiovisual para quem se interessa por música, por turnês e pela vida na estrada, em especial no Brasil. Muitas curiosidades do que acontece, da dinâmica dos músicos com a equipe, o público… é a vida do músico no país. Aquiles é carismático, sempre foi, e sabe vender sua imagem como poucos. Não espere algo sobre a carreira do baterista, mas sim sobre aquela turnê. Também é um retrato da experiência do próprio Thiago, que de grande fã virou amigo e trabalhou com o músico, e como isso mudou sua visão sobre como é na prática estar ao lado do sujeito e quem é ele fora dos palcos, longe dos fãs. Se vale a pena assistir? Vale! Especialmente por ser interessante ver a realidade não tão glamurosa de um baterista que é, indubitavelmente, um dos melhores do Brasil – quiçá do mundo.

 

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