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Live Evil

EXODUS

Circo Voador - Rio de Janeiro/RJ, 05 de outubro de 2014

A história recente de shows de Heavy Metal no Circo Voador tem capítulos com menções honrosas ao público: o Nightwish, ajudado pela presença de Floor Jansen, abarrotou a casa com fãs maravilhados; o Amon Amarth transformou o local numa barulhenta festa nórdica; e o Cavalera Conspiracy, amparado pelos clássicos do Sepultura, fez a alegria de diferentes gerações. Mas aí veio o Exodus, e tudo o que aconteceu antes ficoucom gosto de aperitivo. Steve “Zetro” Souza, Gary Holt, Lee Altus, Jack Gibson e Tom Hunting fizeram um show avassalador para uma plateia ensandecida – cerca de 1.000 felizardos ensandecidos justamente porque o show foi avassalador.

Coube aos cariocas do Hatefulmurder aquecer os presentes, e Felipe Lameira (vocal), Renan Campos (guitarra), Felipe Modesto (baixo) e Thomás Martin (bateria) deram conta do recado. Divulgando o recém-lançado “No Peace”, seu primeiro álbum, o quarteto desfilou com competência seu Death/Thrash Metal, incluindo uma leitura bem particular de “N.I.B.”, um dos vários hinos do Black Sabbath. O repertório próprio não estava na boca de maioria do público, é verdade, mas a banda deixou o palco com o selo de aprovação.

Às 20h em ponto teve início o verdadeiro massacre – curiosamente, a poucos quilômetros do Circo Voador o Dream Theater tocava para seus admiradores. Nichos diferentes? Nem tanto. Não foram poucas as pessoas que tiveram a difícil missão de escolher que banda prestigiar. Mas deixemos o Progressive Metal de lado e voltemos nossas atenções ao que de melhor o Thrash Metal pode produzir. E o Exodus mostrou exatamente isso: a nata do estilo. A abertura com “Bonded By Blood” só é previsível porque, bem, é tradicionalmente o ponto de partida dos shows do grupo californiano. Mas estamos falando de um hino, e o seu efeito foi imediato: uma gigantesca roda e o seu refrão (leia-se título) berrado com vontade.

Do meio para trás, a pista parecia ter sido reservada para os fãs extravasarem. Não houve uma música sequer em que as rodas não fossem abertas, independentemente do tamanho – sempre na base da diversão, sem violência, pode acreditar.“Scar Spangled Banner” (a bênção, Gary Holt!), de “Tempo Of The Damned” (2004), danificou pescoços, e “And Then There Were None”, de “Bonded By Blood” (1985), apenas mudou a maneira de os fãs agitarem, graças ao seu andamento mais cadenciado – aqui, a citação aos respectivos discos serve para ilustrar que o primeiro é a obra-prima com “Zetro”, e o segundo, a obra-prima definitiva do Exodus (e um trabalho seminal do estilo). Simples assim.

Primeira da era Rob Dukes, “Iconoclasm” – de “The Atrocity Exhibition… Exhibit A” (2007) – mostrou como faz diferença para uma banda de Thrash Metal ter um grande baterista, e Tom Hunting é um monstro das baquetas! “Metal Command” teve recepção à altura da ode que é, e “Fabulous Disaster” não ficou atrás. Mais uma extraída de “The Atrocity Exhibition… Exhibit A”, “Children Of A Worthless God” foi a segunda música do último hiato de “Zetro”, e o vocalista só não tirou de letra porque deixou para a plateia a missão de cantar a parte mais limpa, antes do refrão. Nada que comprometesse, obviamente – e, claro, parte considerável da empolgação dos fãs era devido ao seu retorno. A retribuição, diga-se, foi mais do que generosa. “Piranha”, “Pleasures Of The Flesh” e “A Lesson In Violence” retomaram o massacre das antigas com rodas e mais rodas, punhos cerrados e erguidos, refrãos cantados com vontade.

As espetaculares “Blacklist” e “Was Is My Shepherd” – uma mais cadenciada, a outra um belíssimo soco na boca do estômago – terminaram de pagar, com juros e correção monetária, a polêmica saída de “Zetro” em 2004, pouco antes de o grupo vir ao Brasil para a turnê de “Tempo Of The Damned” (o ex-Defiance Steev Esquivel quebrou o galho no microfone). Nada como o tempo para curar as feridas, e o vocalista, que lembrou ser esta a sua primeira ida ao Rio de Janeiro, sorria de orelha a orelha a todo instante. No palco, o entrosamento era notável, e isso é o que importa. Ninguém precisa ser o melhor amigo de ninguém, mas se o companheiro está mais bem colocado, dê a assistência para ele empurrar a bola para o fundo da rede.

Àquela altura, então, o Exodus já estava goleando, e dois hinos ampliaram o marcador. “Chegou a hora de dançar”, brincou “Zetro”, e “Toxic Waltz” subiu a temperatura da casa. Os fãs prontamente obedeceram, mas a explosão veio em “Strike Of The Beast” com o seu tradicional ‘wall of death’. A pista do Circo Voador pareceu dobrar de tamanho. Bonito de ver, principalmente porque, repito, as pessoas estavam ali para se divertir – como explicar a estampa de felicidade no rosto de cada um momentos antes de cada lado se confrontar? Bonito mesmo de ver.

Poderia ter acabado ali que todos iriam para casa com a sensação do dever cumprido, não necessariamente porque o domingo foi de eleição. Mas ainda havia o bis, e a banda voltou muito, mas muito animada para ele. Principalmente Gary Holt. Se antes Lee Altus havia transformado o tradicional corinho ‘olê, olê, olê’ num Thrash Metal instrumental, foi a vez de o líder comandar a brincadeira. Puxou “Rock You Like A Hurricane”, do Scorpions, e foi acompanhado por Altus, Hunting e o seguro Jack Gibson. Coube à plateia cantar em alto e bom som o refrão. Depois, emendou o riff de “Battery”, do Metallica, mas ficou nisso. A banda parecia mesmo ensaiada em “Motorbreath”, incluindo “Zetro”, mas o que rolou foi apenas uma palinha.

Os primeiros momentos de “Phantom Of The Opera”, do Iron Maiden, foram apenas diversão, assim como “Man Of The Silver Mountain” (apenas o riff) e “Stargazer”, esta puxada por Hunting – que baterista não adora a antológica introdução gravada pelo saudoso Cozy Powell? Os trechos de clássicos do Rainbow levaram “Zetro” a reverenciar Ronnie James Dio, sob os olhares de aprovação de todos no palco – assim, pense duas vezes antes de dizer que eles não acreditam em Deus.Os minutos de descontração que poderiam ter um desfecho perfeito com “Dirty Deeds Done Dirt Cheap”, e muitos pensaram que seria isso. E poderia ter sido mesmo um AC/DC para encerrar a festa.

“The Last Act Of Defiance”, que abre “Fabulous Disaster” (1989), e “Good Riddance”, a porrada que fecha “Exhibit B: The Human Condition” (2010), não alteraram o comportamento protocolar da noite. Os fãs agitaram nas duas e cantaram mais a primeira, mas foi inevitável pensar que este, digamos, anticlímax poderia ter sido evitado – com “The Toxic Waltz”e “Strike Of The Beast”no bis, por exemplo.Ah, mas às favas com essa rabugice! A noite foi uma aula de Thrash Metal, e a lição de violência do Exodus garantiu o segundo turno. Dois pontos percentuais para cima, dois pontos percentuais para baixo, a margem de erro deixa o quinteto tecnicamente empatado com o Fates Warning. E quem ganha com isso é o eleitorado.

Setlist
1. Bonded By Blood
2. Scar Spangled Banner
3. And Then There Were None
4. Iconoclasm
5. Metal Command
6. Fabulous Disaster
7.Children Of A Worthless God
8. Piranha
9.Pleasures Of The Flesh
10. A Lesson In Violence
11. Blacklist
12.War Is My Shepherd
13. The Toxic Waltz
14.Strike Of The Beast
Bis
15. The Last Act Of Defiance
16. Good Riddance

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