Outubro é sempre propício à tudo o que gira em torno do tema Horror/Terror. Afinal, é no último dia do décimo mês que acontece o Halloween (ou Dia das Bruxas), data celebrada principalmente nos Estados Unidos, e que a cada ano vem se popularizando no Brasil. Não à toa, todo mês de outubro chega recheado de lançamentos do segmento. Em São Paulo, a partir de 2019 os aficionados do gênero passaram a contar com outro grande atrativo no calendário anual: a Horror Expo, maior evento focado na cultura do horror já realizado na América Latina. Na primeira edição, ocorrida entre os dias 18 e 20 de outubro, os visitantes puderam conferir no Pavilhão de Exposições do Anhembi muitas atividades relacionadas a cinema, TV, streaming, games, literatura, cultura pop e, claro, música. Mas antes de falarmos dos shows, que é o ponto principal do nosso Live Evil (nome bem apropriado para essa matéria, diga-se), fique com um apanhado geral do que rolou nas demais atividades da Horror Expo 2019.
No quesito cinema, a edição inaugural da Horror Expo contou com algumas atrações internacionais. O lendário, simpático e atencioso Mick Garris, parceiro de muitos anos de Stephen King, Steven Spielberg e Michael Jackson, esteve presente nos três dias. O cineasta e roteirista americano realizou, na sexta-feira, um painel com perguntas e respostas do público; no sábado, participou de um debate aberto e, no domingo, foi um dos premiados do Horror Expo Lifetime Achievement Award – premiação voltada para os grandes nomes mundiais do horror/terror em diferentes segmentos. Os atores Lochlyn Munro, da série Riverdale e dos filmes Freddy Vs Jason, Todo Mundo em Pânico e As Branquelas, e Naomi Grossman (que fala português), conhecida pelas personagens Pepper e Samantha Crowe da série de sucesso American Horror Story, realizaram, em dias diferentes, painéis especiais falando de suas carreiras e respondendo perguntas do público. Ambos participaram também de sessões de autógrafos e fotos, comercializadas de forma avulsa para os presentes, além de Meet & Greet selecionados. Representando o mercado nacional estiveram o cineasta Rodrigo Aragão (diretor da empresa Fábulas Negras Produções Artísticas), o escritor André Vianco (Os Sete), o cineasta e escritor Marcos Debrito (Condado Macabro), e também Armando Fonseca, Kapel Furman e Raphael Borghi, especialistas em efeitos especiais, produtores da Infravermelho Filmes e fundadores do Cinelab, série-reality, coproduzida pela Boutique Filmes, Universal Channel e SyFy, na qual o trio ensina a como trabalhar com baixo investimento e muita criatividade.

Dando uma prévia do filme Doutor Sono – continuação do clássico O Iluminado -, que estreou nos cinemas brasileiros no dia 7 de novembro, a Warner recriou dois cenários do longa-metragem. Uma das atrações mais curiosas da feira foi a sinistra boneca original Annabelle, que foi usada nas filmagens das franquias Invocação do Mal e Annabelle. Nos três dias Annabelle ficou exposta ao público em sua conhecida cúpula do Museu Oculto dos Warren. Muitos cosplayers também brilharam na Horror Expo. Uns marcaram presença vestidos para se divertir, outros para participarem do Concurso de Cosplay Horror Expo, realizado em formato de Desfile, em um palco exclusivamente destinado para tal. Em cada dia foram eleitos três vencedores, com premiações correspondentes às suas respectivas colocações.
Ilustradores, autores, quadrinistas e escultores tiveram um espaço especial e de destaque na área Horror Artists’ Pavilion. Eles mantiveram contato direto com o público. Entre os cenários montados estavam o Celeiro do Horror da Prevent Senior (uma das patrocinadoras do evento), o Museu dos Monstros/Fábulas Negras, e o Labirinto do Terror. Teve ainda o Horror Bus, o Trem Fantasma em realidade virtual, estátuas realistas, expositores e concurso de make up. Também marcaram presença as empresas Fugativa, com seu Escape Games, a Colormake, referência no mercado latino-americano de cosméticos, oferecendo maquiagem artística gratuita, feita por profissionais de renome, e a Escape Time, um dos grandes nomes especializados em jogos de escape no Brasil, com dois Truckescapes, o Esquadrão de Elite e o Operação Resgate. A Nuclear Blast (com sua parceira Shinigami) também teve seu espaço reservado na Horror Expo, com vendas de produtos nacionais e importados. Outra ação da gravadora, de origem alemã, com subsidiárias em seu país, no Brasil e nos Estados Unidos, foi trazer para a Expo duas grandes bandas suecas de seu cast: Therion e Deathstars. Além de fazerem os shows mais aguardados pelo público do metal, ambas concederam sessões de autógrafos e atenderam a imprensa no próprio estande da Nuclear. Rolou até palestra com o próprio Christofer Johnsson, vocalista, guitarrista, compositor e líder do Therion, e sessão de autógrafos (no domingo) com o guitarrista brasileiro Bill Hudson, da banda NorthTale e muitas outras, também internacionais.

Antes ainda de falarmos das apresentações das bandas, vamos aos pontos falhos da primeira edição da Horror Expo. Com o ar condicionado, aparentemente, desligado, o calor foi absurdo nos três dias, principalmente na sexta-feira. A ausência de WI-FI também foi outra grande bola fora. O som, principalmente nos shows e no “cinema”, que transmitia diversos filmes, acabou sendo prejudicado pelo barulho que vazava do pavilhão ao lado, onde, simultaneamente, acontecia a Expo Cristã (que irônico, não?). Devido à “problemas técnicos”, foi cancelada pela Sony Pictures a pré-estreia de Zumbilândia 2 – Atire Duas Vezes. Quanto a praça de alimentação, foi, literalmente, de assustar os preços elevados e a defasagem de opções. Outra decepção foi a ausência do famoso Derek Riggs, lendário desenhista de diversas capas de discos e de merchandisings do Iron Maiden (entre outras bandas). Segundo nota da produção, “a equipe do artista alegou inconformidades no posicionamento dos assentos do voo que pegaria de Los Angeles para São Paulo, algo que poderia afetar o seu bem-estar após um exaustivo final de semana trabalhando na L.A. Comic Con”. Ao menos o estande de Riggs acabou sendo instalado e os fãs foram compensados economicamente com os produtos sendo vendidos com desconto de 80% no preço. E por falar em preço, o do ingresso e também dos pacotes de Meet & Greet estavam caríssimos. Para o público ‘teen’, que queria assistir a apresentação do grupo feminino de k-pop HighSchool, na sexta-feira, a tristeza se deu com o atraso no cronograma devido à erros técnicos, o que culminou com o adiamento do show das garotas para o dia seguinte. No sábado um blackout local novamente atrasou o show da HighSchool. Fico na expectativa e sincera torcida de que a organização do evento corrija o que for de sua alçada nas próximas edições. Agora vamos ao que mais interessa nesta sessão: os shows.
DIA 1 – 18 de outubro

O primeiro dia da Horror Expo, infelizmente, recebeu um público aquém do aguardado. A primeira atração musical a subir no palco foi o grupo curitibano The Secret Society, que aproveitou a ocasião e lançou seu debut Rites of Fire. Em um set de aproximadamente 45 minutos, a banda agradou com sua sonoridade que vai do post punk ao death rock, adicionada por leves toques de hard rock. Músicas como Fields of Glass, The Architecture of Melancholy, Mephistofaustian e The Final Cut foram os grandes destaques. Quase uma década após seu único show no Brasil, o Deathstars estava de volta, reativado depois de um hiato de cinco anos. O grupo veio desfalcado do fundador Emil “Nightmare Industries” Nödtveidt (guitarra e teclado), irmão do falecido e polêmico Jon Nödtveidt (vocal e guitarra) da banda de black metal Dissection – segundo nos contou o baixista Skinny Disco, Nightmare ficou cuidando do quinto álbum do Deathstars, que será lançado pela Nuclear Blast no início de 2020, seis anos após o anterior The Perfect Cult. Fãs do gothic/industrial do grupo agitaram ao som dos hits Death Dies Hard, Cyanide, All the Devils Toys, Synthetic Generation, Virtue to Vice, Syndrome, Blitzkrieg e METAL, além de muitas outras. Destaque para a performance de Skinny e do carismático vocalista Whiplasher Bernadotte, que na primeira música caiu do palco, mas sem se ferir.

Dia 2 – 19 de outubro
O sábado começou com a apresentação da Orquestra de Metais da Banda Marcial de Cubatão, que, sob a direção artística do Maestro Alexandre Felipe Gomes, executou releituras e arranjos especiais para trilhas sonoras de clássicos e séries de Terror.

Em seguida foi a vez do projeto Midnight Danger, do brasileiro Chris Young, que atualmente reside na Suécia e toca baixo na banda de sleaze glam Lipz. Ora nos sintetizadores, ora na guitarra, e com um visual altamente sleaze, Chris proporcionou uma viagem synth-retrowave instrumental, influenciada por trilhas de filmes de horror anos 80, com músicas de seu álbum Malignant Force (2018) e releituras como He’s Back (The Man Behind the Mask), que o lendário Alice Cooper gravou para a trilha de Sexta-Feira 13 – Parte 6: Jason Vive.

O grupo paulistano Furia Inc., que agora conta com o experiente baixista Fábio Carito (Warrel Dane, Shadowside e outras) e divulga seu novo álbum Raw (2019), trouxe o peso de seu metal influenciado por bandas como Pantera, Lamb of God e afins. As brutais The Endless Void, Crash e o novo single Light the Fire, além dos covers de Bed of Nails (Alice Cooper) e Creatures of the Night (Kiss) – esse com Yohan Kisser (guitarra, Sioux 66) e Karina Menascé (vocal, Mercy Shot) como convidados – foram os destaques do set.

Com seu melodic death metal, o Venomous engrossou a pancadaria, divulgando seu novo e segundo álbum, The Black Embrace, que fala de um dos grandes males do século, que é a depressão. O grupo fez um show bastante coeso, em que além de seu conhecido cover de Nothing to Say (Angra), com a convidada Rôh Souza fazendo a vez de Fernanda Lira (Nervosa) e May Puertas (Torture Squad), que o gravaram em estúdio, e também de Overkill (Motörhead), impressionou com músicas como Green Hell, do debut Defiant (2018), inspirada em ritmos brasileiros. Poucos dias depois o Venomous partiu para sua turnê europeia.

Retornando da estreia no sonhado “Rock in Rio”, o Sioux 66 mostrou que não é mais revelação, mas sim realidade para o pouco valorizado hard rock nacional. Com alto domínio do palco, o grupo fez um show descontraído, em que além de suas próprias músicas, se divertiu com covers de Bark at the Moon (Ozzy Osbourne) – com Victor Cutrale do Furia Inc no vocal -, Tie Your Mother Down (Queen), Diversão (Titãs) – com Gabriel Martins, frontman do Matillha -, e Electric Eye (Judas Priest) – com o guitarrista do Project 46 Jean Patton. Na segunda noite da Horror Expo o rock e o metal nacional mostraram seu poder de fogo.
Dia 3 – 20 de outubro

O último dia da primeira edição da Horror Expo começou com o Horror Metal do Alchemia, que fazia o primeiro show de sua história. Uma das coisas que chamou atenção na apresentação foi a maquiagem no rosto do vocalista Victor Hugo Piiroja – o baixista Adriano Vilela tocou usando a máscara de Jason Vorhees. Em uma de suas músicas, o grupo contou com a participação do embaixador da Horror Expo, o performático Coveiro Maldito. Um ponto negativo foi o microfone de Piiroja ter ficado extremamente baixo na maior parte do set. Agora a banda se prepara para o lançamento de seu primeiro álbum, Inception, que sairá no início de 2020.

Em grande estilo, como esperado, o Therion fez uma apresentação brilhante de encerramento da Horror Expo. Com uma qualidade de som muito boa, o grupo capitaneado por Christofer Johnsson mostrou toda sua maestria na mescla entre heavy metal e metal sinfônico, fazendo um show marcante e conquistando novos fãs. O mote da apresentação do Therion foi a íntegra de seu clássico quinto álbum Theli, lançado há 23 anos. Foi de emocionar. E, como se não bastasse, o septeto integrado por Johnsson, Thomas Vikström (vocal), Sami Karppinen (bateria) Justin Biggs (baixo), as carismáticas cantoras líricas Chiara Malvestiti e Rosalía Sairem, e o genial guitarrista argentino Christian Vidal, dono de solos absurdamente bonitos, tocaram ainda algumas músicas extras, sendo elas The Rise of Sodom and Gomorrah, Flesh of the Gods, Lemuria, Ginnungagap e Son of the Staves of Time, de alguns de seus outros álbuns. Foi uma apresentação extremamente soberba, que fez com que o encerramento da primeira edição da Horror Expo acontecesse em nível elevado de qualidade.
