IRON MAIDEN – SÃO PAULO (SP)

25 de outubro de 2026 – Nubank Parque

Por Luiz Tosi

Fotos: Roberto Sant’Anna

O Iron Maiden não para. Nunca parou. Para se ter uma ideia, desde 1980, ano de lançamento do seu primeiro álbum, apenas nos anos 1989, 2020 e 2021 (estes, devido à pandemia) a banda não fez nenhum show. A inquietude é tanta que, no intervalo entre as turnês para promover álbuns recém-lançados, a banda roda o mundo com suas Special Tours, turnês comemorativas ou temáticas. Alguns exemplos são a The Ed Hunter Tour, Eddie Rips Up the Tour (The Early Days), as bombásticas Somewhere Back in Time e Maiden England e, mais recentemente, Legacy of the Beast Tour e Future Past Tour.

E é com mais uma dessas Special Tours que a banda retorna ao Brasil, para duas apresentações em São Paulo, nos dias 25 e 27 de outubro ,e uma em Curitiba, no dia 28. O assunto da vez é a Run For Your Lives World Tour, giro iniciado em 2025 que comemora 50 anos desde sua formação pelo baixista, líder e patrão Steve Harris em 1975, em East London. Confesso que esse negócio de 50 anos me pareceu um pouco forçado. É fato que Harris iniciou a banda em dezembro de 1975 e, após batizá-la primeiramente de Ash Mountain, mudou seu nome para Iron Maiden. Mas 50 anos disso me parece um pouco raso. O primeiro show da banda só ocorreria em maio de 1976, Dave Murray só entraria no grupo em dezembro do mesmo ano, Paul Di’Anno dois anos mais tarde, e o primeiro disco sairia apenas em 1980. Mas enfim, quando a ideia é festejar, qualquer desculpa vale.

E que festa! A celebração de meio século veio com livros, filme no cinema, um festival em Londres, lojas temáticas em shoppings e até uma corrida de rua em São Paulo. A cereja no bolo: o setlist comemorativo, no qual a banda mergulha fundo nos seus primeiros 12 anos, seus golden years, da estreia homônima de 1980 até Fear of the Dark de 1992. Como diz aquela propaganda ruim, “o aniversário é do Iron Maiden, mas quem ganha o presente é você”. Curiosamente, esse evento remete à primeira passagem da banda por São Paulo, em agosto de 1992, no mesmo estádio, quando promovia Fear of the Dark e só tinha esse repertório em mãos.

O clima frio e úmido em São Paulo e com eleições presidenciais tinha cara de domingão no sofá de casa. Mas Maiden é Maiden, e por volta das 19h o estádio já estava praticamente tomado para acompanhar a abertura do Alter Bridge. Inicialmente, nem a extensão vocal impressionante de Myles Kennedy, também conhecido pelo trabalho ao lado de Slash, e a técnica do excelente guitarrista Mark Tremonti conseguiram reter a atenção do público, disperso e nitidamente mais preocupado em acompanhar a apuração eleitoral nos celulares. A banda encontrou uma resposta mais calorosa na reta final da apresentação, com os hits Metalingus, Blackbird e Isolation.

O intervalo de 40 minutos entre as duas apresentações foi tomado por uma certa tensão eleitoral até que, às 20h40, Doctor Doctor do UFO seguida da instrumental The Ides of March ecoaram pelos PAs. Nos telões, imagens de Londres com alguns lugares marcantes na história da banda, como o lendário pub Ruskin Arms, deram lugar a uma Paris em colapso, ruas escuras, atmosfera de pesadelo para o início bombástico do Iron Maiden com Murders in the Rue Morgue, que desabou em cima de todo mundo. Wrathchild explodiu logo em seguida e então veio Killers, com uma aula de Bruce nos agudos iniciais. A faixa trouxe a entrada do mascote Eddie com seu machado. Mas antes que ele pudesse matar alguém, Bruce tratou de acertar suas partes baixas num golpe de humor.

Numa breve interação com o público, Bruce falou sobre o lugar especial que o Brasil ocupa no coração da banda. A resposta foi um coro tão prolongado de “Brucê, Brucê, Brucê” que ele precisou interromper o discurso, sorrindo. Ainda no clima da fase Di’Anno, a longa e intrincada Phantom of the Opera, com suas diversas mudanças de andamento, fechou o bloco inicial com o público enlouquecido. Acho que nunca vi um início de show do Maiden tão forte como esse.

A Run For Your Lives trouxe uma grande transformação na produção visual: depois de décadas usando backdrops físicos, aquelas lonas pintadas que trocavam a cada música e viraram parte da identidade visual do grupo, o Iron estreou um imenso LED wall ocupando todo o fundo do palco. E a diferença é absurda. Em tempos de esferas gigantes em que o artista vira trilha sonora do próprio espetáculo visual, o Maiden resistiu mais tempo que qualquer outra banda, e quando finalmente cedeu, o fez do jeito certo: sem abrir mão do centro do palco para a tecnologia, sem deixar o espetáculo engolir a banda. Os músicos continuam sendo o show. O LED apenas amplia o universo em volta deles. Cada música tem sua própria atmosfera imersiva construída em tempo real: Paris em colapso para Murders in the Rue Morgue, o metrô sombrio de Killers com Eddie à espreita, o teatro em Phantom.

Com imagens de horror em preto e branco estilo Nosferatu, The Number of the Beast chegou mais cedo que o usual no set. Teve fogos disparados em colunas altas, um solo magistral de Adrian Smith com uso destacado de wah-wah e uma exibição de gala de Dickinson, que mandou um “vocês são um país espetacular” ao final.

Mesmo calcado em apenas 9 álbuns, montar um setlist de 17 músicas do Iron Maiden é como resolver uma equação sem solução perfeita. Dá para dizer que 70% de um show do Maiden é mais do mesmo. A banda tem um núcleo de seis faixas que simplesmente não saem do set: Iron Maiden, Fear of the Dark, The Trooper, Hallowed Be Thy Name, Run to the Hills e Wasted Years estiveram presentes nas últimas dez turnês sem exceção. Juntam-se a elas mais três quase-fixas: 2 Minutes to Midnight, The Number of the Beast e Aces High, e você já tem aí dois terços do show garantidos antes de qualquer decisão criativa. Esse bloco é o contrato não escrito entre a banda e o público. Você vai, sabe o que vem e, de certo modo, quer exatamente isso.

Mas é nos 30% restantes que a coisa ganha outra dimensão. E é exatamente por isso que as Special Tours funcionam tão bem. São a ocasião para a banda trazer o raro, o inesperado, o que nem mesmo o fã mais doente (com o perdão da redundância) esperava mais ver.

“No Brasil, esse país incrível, todos precisam poder ter sonhos“, disse Bruce ao anunciar Infinite Dreams. A faixa de Seventh Son of a Seventh Son, que estava fora dos palcos desde 1988, era possivelmente a mais esperada para 99% dos fãs mais dedicados. É o tipo de momento que separa um show muito bom de um show que vai para a história pessoal de quem estava lá.

O álbum Powerslave foi homenageado numa trinca sequencial muito bem encaixada. Primeiro a faixa-título, que trouxe Bruce com sua tradicional máscara, um adereço teatral e mitológico que remete à temática egípcia do álbum lançado em 1984. Nos telões, Eddie aparecia como faraó em diferentes atmosferas e enquadramentos, com a recriação visual da icônica capa do álbum. Um dos momentos em que a cenografia digital ampliou mais visivelmente a escala dramática do show.

Um breve silêncio intencional foi quebrado pelo riff icônico de 2 Minutes to Midnight, executada com uma dose extra de peso, energia e velocidade. Depois de anunciar que era hora da cachaça, beber e fingir indignação ao perceber que o copo continha água, Bruce brincou que tomar cachaça demais poderia fazer alguém enxergar um albatroz no céu, numa ligação direta com a música que viria a seguir.

Rime of the Ancient Mariner durou 14 minutos e o LED wall os preencheu inteiramente, contando a narrativa de Coleridge quadro a quadro enquanto a banda atravessava cada seção desse épico que não aparecia nos setlists desde a Somewhere Back in Time de 2008. Steve Harris ancorou tudo do começo ao fim, dedilhando com aquela fúria característica, o baixo Fender Precision apontado para a plateia nas pausas instrumentais como se fosse uma arma. Dave Murray também se destacou aqui, com uma das melhores execuções da noite.

A densidade de Rime of the Ancient Mariner deu lugar a Run to the Hills, uma das mais fáceis da banda, que criou uma catarse imediata com todo mundo pulando e cantando a plenos pulmões. Épico, clássico; épico, clássico. O Maiden foi construindo o show nessa alternância quase cirúrgica: Seventh Son of a Seventh Son, outra longa e densa, ausente por anos dos shows, agradou em cheio. E então The Trooper retomou o ritmo, com Bruce em uniforme militar empunhando a bandeira do Reino Unido. Eddie voltou vestido como soldado, numa batalha cênica com espadas. Durante os solos, Bruce trocou para a bandeira brasileira.

A performance da banda dispensa comentários. Dave Murray e Adrian Smith, uma das maiores duplas de guitarras da história, demonstram entrosamento e elegância que nem mesmo o espalhafatoso, mas ainda assim talentoso, Janick Gers consegue atrapalhar. E nada que possa ser escrito sobre Steve Harris acrescentaria algo – afinal, ele é Steve Harris.

Sobre Bruce Dickinson, fui reler o que escrevi na minha resenha da última passagem da banda por São Paulo, em dezembro de 2024. Dizia: “Bruce Dickinson é indiscutivelmente o maior vocalista de heavy metal da história. Com 66 anos e consideravelmente mais jovem que a primeira geração de monstros do metal, Halford, Gillan e Dio, Bruce conseguiu incorporar o melhor dos três, criando seu próprio estilo e se tornando a maior referência para os vocalistas que vieram depois dele. Existe heavy metal antes e depois de Bruce Dickinson.” Tenho apenas uma atualização: agora ele está com 68 anos.

Agora, o elefante na sala. Os últimos shows da The Future Past em dezembro de 2024, no mesmo Allianz Parque, marcaram o fim de uma era: Nicko McBrain anunciou sua aposentadoria e, ato contínuo, o anúncio de seu substituto, Simon Dawson, baterista do British Lion, projeto paralelo de Steve Harris. Antes de qualquer opinião, vamos tirar da frente o fato de que Nicko é insubstituível. Isto posto, a primeira diferença é nítida antes mesmo da primeira virada: o tamanho da bateria. No lugar do muro de pratos e tambores atrás do qual Nicko McBrain praticamente desaparecia, um kit compacto, que deixava o novo baterista à vista. O próprio Nicko brincou com a “bateria pequenininha” do sucessor, ressaltando que o Maiden não precisava de uma réplica sua, mas de alguém capaz de sustentar o repertório com personalidade própria.

A mudança tinha também um contexto delicado. Depois do AVC sofrido em 2023, Nicko enfrentava limitações para executar determinadas passagens; segundo seu relato, a dificuldade em tocar a introdução de Murders in the Rue Morgue foi decisiva para encerrar sua trajetória nos palcos.

Beirando 80 shows com o conjunto, Dawson pareceu confortável, seguro e integrado. Sua bateria tem ataque forte, peso e uma abordagem direta, que sustenta a banda sem disputar protagonismo. A comparação feita por Bruce Dickinson com Clive Burr ajuda a entender o encaixe: num repertório carregado de músicas velozes e viscerais dos primeiros discos, essa pegada mais crua encontra um terreno favorável. Dawson não reproduziu, e nem tentou, cada detalhe de Nicko para preservar a força das composições. Ao assumir as diferenças, o baterista trouxe ao Maiden uma dose vigorosa de energia que combinou com o resgate de suas origens.

A contrapartida está menos na competência do substituto do que na personalidade insubstituível do antecessor. Nicko acrescentava às músicas uma combinação muito particular de balanço, sutileza e imprevisibilidade: suas viradas pareciam conversar com as melodias, e pequenos acentos nos pratos davam movimento a passagens que poderiam soar mais retas. Dawson privilegia impacto e firmeza, deixando menos espaço para essas nuances. O Maiden ganha uma sustentação poderosa para seguir adiante, mas perde parte daquela excentricidade rítmica que tornava a bateria imediatamente reconhecível. Não se trata de uma troca entre alguém que sabe tocar e alguém que não sabe; é a passagem de uma assinatura forjada ao longo de quatro décadas para outra maneira mais direta de conduzir as mesmas músicas.

Hallowed Be Thy Name foi o clímax visual do show. Dentro de uma gaiola, Bruce incorpora o prisioneiro que ouve as últimas palavras antes da execução. No LED, a narrativa se desdobra em camadas: a cela, o corredor escuro, a rampa em direção ao enforcamento, que acontece em sincronia com a música. É o momento mais teatral, quando o show mais se aproxima de uma ópera.

Iron Maiden, com o riff que deu nome à banda, fechou o set principal do jeito que sempre fecha: incendiando de modo cru e direto. O bis começou com o discurso de Churchill nos PAs antes de Aces High despencar como um foguete. Impossível não se sentir dentro do Live After Death. Fear of the Dark é um fenômeno a ser estudado. Como essa música funciona bem ao vivo – transformou o Nubank Parque num coral único. Ela tem uma relação especial com o público brasileiro e ao vivo sempre entrega acima do esperado.

Wasted Years, talvez o hit mais pop da banda, fechou a noite com otimismo, jogando o clima lá em cima, com pessoas se abraçando, pulando e cantando (leia-se: gritando). O encerramento perfeito para uma noite que foi, acima de tudo, sobre o tempo. “Assim como James Bond, nós voltaremos“, disse Bruce ao se despedir.

E o Iron Maiden não para mesmo. Em fevereiro, Steve Harris anunciou que a banda não faria shows em 2027, voltando pelo menos em 2028. Exceto que, quatro dias antes do show no Nubank Parque, anunciaram uma nova perna norte-americana da Run For Your Lives para o ano que vem. O hiato durou menos que promessa de político.

As Special Tours são um presente para os fãs, mas carregam um risco silencioso: o de uma banda que, ao revisitar o próprio passado com tanta frequência, acaba se tornando a melhor cover de si mesma. Não faltam exemplos de bandas clássicas para provar isso. A nostalgia é um produto poderoso, e quando bem embalado vende muito. O perigo é quando ela deixa de ser consequência e passa a ser estratégia. Felizmente, e por ora, a Run For Your Lives não dá sinais de que o Maiden esteja nesse estágio. A entrega foi real, o repertório foi corajoso na sua escolha e a banda ainda parece tocar porque quer, não porque precisa.

O que o futuro reserva ao Iron Maiden, só o Iron Maiden sabe. A própria banda vem cada vez mais abordando abertamente o tema de um eventual encerramento de carreira. Mas, se mantiverem a inteligência, o cuidado e a integridade com que têm feito suas escolhas, o fim ainda parece longe.

Setlist Alter Bridge

Silent Divide

Addicted to Pain

Cry of Achilles

Fortress

Silver Tongue

Metalingus

Blackbird

Isolation

Setlist Iron Maiden

Murders in the Rue Morgue

Wrathchild

Killers

Phantom of the Opera

The Number of the Beast

Infinite Dreams

Powerslave

2 Minutes to Midnight

Rime of the Ancient Mariner

Run to the Hills

Seventh Son of a Seventh Son

The Trooper

Hallowed Be Thy Name

Iron Maiden

Aces High

Fear of the Dark

Wasted Years

 

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