IRON MAIDEN – SÃO PAULO (SP)

Nubank Parque - 27 de outubro de 2026

Por Leandro Nogueira Coppi

Fotos: Stephan Solon @stephansolon / Move Concerts

A passagem do Iron Maiden pelo Brasil em 2026, com duas apresentações em São Paulo (SP) e uma em Curitiba (PR), mobilizou os fãs muito antes de a banda desembarcar no país. Em meio às comemorações dos 50 anos de carreira do grupo, São Paulo foi uma das cidades do mundo a receber sessões nos cinemas do documentário Iron Maiden: Burning Ambition e também sediou a primeira corrida oficial da história da Donzela de Ferro, a Iron Maiden Run, realizada em 10 de outubro, no Vale do Anhangabaú, com percursos de 5 km, caminhada e prova infantil, além de um show da banda-tributo The Beast Experience. A cidade também ganhou a Eddie’s Emporium Experience Store, primeira loja oficial do grupo no mundo, instalada no Shopping West Plaza, com produtos licenciados, itens de colecionador e atrações temáticas. Para completar, a Iron Maiden Week promoveu encontros de fãs em bares paulistanos, enquanto alguns admiradores chegaram a formar fila nos arredores do Nubank Parque nove dias antes da primeira apresentação, marcada para 25 de outubro.

Em Curitiba, a celebração também ganhou proporções especiais com o Maiden Fest Bodebrown, que, durante seis dias, reuniu bandas ao vivo, gastronomia, produtos exclusivos e o Eddie’s Dive Bar, espaço temporário dedicado ao universo do grupo. A cidade também recebeu uma ação temática na Rua da Música e uma programação especial no Hard Rock Cafe, com apresentações de bandas-tributo. Todas essas iniciativas demonstraram que os 50 anos do Iron Maiden foram comemorados muito além dos palcos e reforçaram a dimensão que o grupo britânico ainda representa para o público brasileiro.

Poucas bandas conseguem olhar para o próprio passado sem parecer prisioneiras dele. Aos 50 anos de estrada, o Iron Maiden provou que ainda há muito a explorar em sua própria história. Na segunda noite no Nubank Parque, em São Paulo, na terça-feira (27 de outubro), a “Run For Your Lives World Tour” transformou a comemoração em uma experiência que foi muito além da nostalgia. A proposta da turnê é fazer um recorte histórico dos primeiros anos da trajetória da banda, formada em 1975 pelo baixista Steve Harris, abrangendo oito dos nove álbuns de estúdio lançados entre 1980 e 1992, de Iron Maiden a Fear of the Dark. O período compreende as passagens de Paul Di’Anno e Bruce Dickinson em sua primeira fase. Infelizmente, No Prayer for the Dying (1990) ficou de fora da seleção, uma ausência que, convenhamos, compromete um pouco a proposta de revisitar esse período de forma abrangente. Em São Paulo, assim como na primeira noite, realizada dois dias antes, a Donzela de Ferro revisitou capítulos fundamentais de sua discografia e mostrou que a força de suas composições permanece intacta, mesmo diante da passagem do tempo. São músicas que influenciaram e seguem influenciando diferentes gerações de metal maniacs. Quem teve o privilégio de comparecer presenciou um verdadeiro espetáculo e mergulhou em uma aventura sonora catártica, por vezes cinematográfica.

Um dos grandes trunfos da “Run For Your Lives World Tour” está na possibilidade de reencontrar várias composições que há muito não frequentavam os repertórios do grupo, como, por exemplo, Murders in the Rue Morgue e Killers, duas músicas da fase inicial da banda, além de Infinite Dreams, que voltou a ser executada ao vivo após 38 anos, entrando no lugar de The Clairvoyant um ano após o início da turnê. Turnê essa que também representa um momento de transição para o Iron Maiden. A última apresentação da excursão anterior, em São Paulo, em dezembro de 2024, ficou marcada pela despedida de Nicko McBrain dos palcos, encerrando uma trajetória de 42 anos como baterista do grupo. Agora, o Maiden retornou ao Brasil pela primeira vez com seu substituto, Simon Dawson, inaugurando um novo capítulo de sua história.

A experiência também ganhou uma dimensão visual renovada, com a substituição dos tradicionais cenários pintados por um enorme painel de LED, que exibe animações e imagens desenvolvidas especialmente para cada música. A proposta, segundo Ben Smallwood, diretor criativo do Iron Maiden, era criar “um mundo diferente para cada música, em vez de utilizar algo físico que abrangesse tematicamente todo o espetáculo”. Em entrevista à revista britânica Shots, publicada em março de 2026, Smallwood explicou que a intenção era ampliar a experiência visual construída pela banda ao longo dos anos, explorando as possibilidades das telas sem deixar de lado sua identidade. O resultado inclui diferentes representações de Eddie, que ganha novas formas e dimensões ao longo da apresentação.

A abertura ficou a cargo do Alter Bridge, que retornava a São Paulo três anos após passar pela cidade com a turnê do álbum Pawns & Kings. Atualmente, o grupo vive uma fase movimentada com a turnê “What Lies Within”, que promove seu oitavo álbum de estúdio, autointitulado, lançado em 9 de janeiro de 2026. Formado em 2004, em Orlando, na Flórida, o quarteto reúne Myles Kennedy (voz e guitarra) e três músicos que integram o Creed: Mark Tremonti (guitarra), Brian Marshall (baixo) e Scott Phillips (bateria). O projeto surgiu após o encerramento da primeira fase de atividades do Creed, quando os três instrumentistas decidiram iniciar uma nova trajetória ao lado de Kennedy, então vocalista do The Mayfield Four. Desde então, o Alter Bridge desenvolveu uma identidade própria no rock, sem apagar a ligação com uma das bandas norte-americanas de maior sucesso comercial entre o final dos anos 1990 e início dos 2000.

O repertório em São Paulo incluiu Silent Divide do novo álbum, além de outras conhecidas de sua trajetória, entre elas Addicted to Pain, Metalingus e Blackbird. Embora reconheça a qualidade do grupo, confesso que achei sua escolha menos atrativa do que teria sido contar com Anthrax e Megadeth, que acompanharam o Iron Maiden em diferentes apresentações da etapa norte-americana da turnê, entre agosto e setembro. Na minha avaliação, a presença dessas duas referências do thrash metal teria proporcionado uma abertura mais empolgante e uma conexão mais direta com o público do Maiden. Para Myles Kennedy, por outro lado, a ocasião tinha um significado especial: fã da banda desde a infância, o vocalista e guitarrista teve a oportunidade de dividir o palco com uma de suas maiores referências.

Marcado para às 19h10, o Alter Bridge iniciou sua apresentação poucos minutos antes do horário previsto, um ótimo sinal em termos de organização. Entretanto, durante a abertura com Silent Divide, o som estava bastante embolado — pelo menos na região da pista próxima ao palco. Com exceção da guitarra de Mark Tremonti, que, diga-se de passagem, destruiu no solo, todos os demais instrumentos estavam baixos, especialmente a voz de Myles Kennedy. A partir de Cry of Achilles, música que abre o álbum Fortress (2013), a sonoridade foi melhorando gradativamente, embora ainda estivesse longe da perfeição.

Uma das músicas mais empolgantes do repertório foi a pesada Metalingus, do álbum de estreia One Day Remains (2004), uma verdadeira porrada, que se destaca principalmente pelos riffs de Tremonti e pela divisão de solos entre ele e Kennedy. Por falar em Tremonti, era emocionante observar o shape de sua guitarra e notar o adesivo com o rosto do saudoso Dimebag Darrell, do Pantera, uma de suas influências. Ao final de Blackbird, balada que aborda temas como perda, redenção e desejo de liberdade, o quarteto finalmente conquistou os aplausos do público, que demonstrou respeito durante toda a apresentação. Antes da música seguinte, a banda agradeceu ao Iron Maiden pela oportunidade, revelou à plateia que aquela experiência representava a realização de um sonho e foi novamente aplaudida quando pediu que todos fizessem barulho para os anfitriões da noite. O Alter Bridge se despediu de São Paulo com Rise Today, também presente no álbum Blackbird (2007). Myles Kennedy, entretanto, voltará ao Brasil em 2027, em nova turnê ao lado do guitarrista do Guns N’ Roses com o Slash Featuring Myles Kennedy & The Conspirators.

Quarenta e cinco minutos após o fim da apresentação do Alter Bridge — exatamente o mesmo tempo que a banda americana teve de palco —, os primeiros acordes de Doctor, Doctor, clássico lançado pelo UFO um ano antes da criação do Iron Maiden, começaram a ecoar pelo sistema de som do Nubank Parque, provocando uma verdadeira histeria coletiva. Não por acaso: tradicionalmente, a música funciona como prenúncio de que o show do Iron Maiden está prestes a começar. A associação com a Donzela de Ferro ajudou a transformar a composição em um dos temas de abertura mais emblemáticos da história do rock, algo que também se reflete nos números: são mais de 85 milhões de reproduções no Spotify, mais que o dobro da segunda faixa mais ouvida do catálogo do UFO na plataforma. O próprio Phil Mogg, vocalista da banda, já reconheceu que a popularidade da música continua gerando renda para os integrantes, enquanto Michael Schenker admitiu que sua ligação com o Iron Maiden contribuiu para torná-la ainda maior.

Quando a instrumental The Ides of March começou a ecoar pelo sistema de som, a euforia fez o chão do estádio tremer, enquanto um mar de celulares iluminava a noite — desta vez, felizmente, sem a chuva que parecia interminável em Sampa nos últimos meses. No telão, uma animação emocionante conduzia o público pelas ruas do East End londrino, berço do Iron Maiden, resgatando lugares e referências ligados à trajetória da banda. Entre eles estavam pubs históricos como Cart & Horses, Ruskin Arms, The Blind Beggar e The Bridge House, que fizeram parte do circuito de apresentações do grupo em seus primeiros anos; a estação Leytonstone, região onde Steve Harris cresceu; e o antigo estádio do West Ham United, o Boleyn Ground, homenageado pela inscrição Long Live The Boleyn, pichada em uma parede, em referência também à paixão do baixista pelo clube. A animação ainda apresentava o endereço fictício 22 Acacia Avenue, ligado à personagem Charlotte the Harlot, imortalizada em duas músicas da banda. A imersão pelas origens do Iron Maiden chegava ao fim com uma imagem marcante de Eddie, reproduzindo sua representação na capa de Killers (1981), segundo álbum da banda, pintada em uma enorme parede ladeada por passagens estreitas e sombrias.

Sob a imagem de uma Paris quase distópica projetada no telão, em sintonia com a narrativa de Murders in the Rue Morgue, cujos dedilhados iniciais começavam a ecoar pelos PAs, Simon Dawson surgiu na penumbra e se posicionou atrás de seu kit, bem mais modesto que o de Nicko McBrain e, ao contrário do utilizado por seu lendário antecessor, sem esconder o baterista da visão do público. Assim, durante a apresentação, era possível acompanhar seus movimentos enquanto tocava. A música ganhou peso com a entrada dos demais integrantes. Quem puxou a fila foi Bruce Dickinson, ocupando o palco com a desenvoltura de um frontman magistral. Dave Murray e Adrian Smith vieram logo atrás, enquanto, pela outra lateral, surgiam Steve Harris e Janick Gers. A entrada triunfal foi acompanhada por explosões de fumaça, dispostas em sequência na plataforma atrás do novo homem dos tambores. Obviamente, o público reagiu como era de se esperar: com gritos ensurdecedores e uma explosão de adrenalina que tomou conta do estádio, dando início a mais uma celebração da história do Maiden. Já nessa primeira música, a qualidade sonora se mostrou um verdadeiro primor. As guitarras, especialmente durante os solos, apresentavam uma nitidez absurda, que permitia apreciar toda a riqueza dos timbres extraídos dos instrumentos de Murray, Smith e Gers.

Em ordem inversa à sequência do álbum Killers, a próxima do repertório foi a energética Wrathchild, cujo refrão foi cantado em alto e bom som pelo público. Seguramente, é minha música favorita da fase com Paul Di’Anno, daquelas que não podem faltar em uma apresentação do Maiden. Em seguida, veio a própria Killers. Durante o solo de Dave Murray, a mascote Eddie fez sua primeira aparição física na noite. Diretamente do túnel do tempo, com seu visual punk à la Ramones, olhos acesos e machado assassino, o escudeiro da Donzela de Ferro ainda protagonizou uma interação com Janick Gers, enquanto Adrian Smith dava sequência ao solo. A cena fez brilhar os olhos de algumas crianças que pude observar montadas nos ombros dos pais, uma demonstração singela de como Eddie continua encantando diferentes gerações e arrebatando-as para o universo do heavy metal. São experiências como essa que motivam os mais jovens a selar o mesmo pacto de sangue que nós, mais velhos, selamos com a música pesada quando mais novos — um compromisso para a vida inteira.

Na primeira pausa para falar com a plateia, Bruce se mostrou espantado com a segunda noite sold out da turnê brasileira. Disse também que teríamos muita diversão e que a banda havia esperado 50 anos por aquele momento. Mas, falemos a verdade: os únicos que realmente podem falar em 50 anos são Harris e Murray, pois os demais só começaram a chegar à família a partir de 1980. Depois de apontar para algumas pessoas, Dickinson avisou que era hora de Phantom of the Opera. Neste momento, cortinas virtuais se abriram no telão e revelaram um decrépito Palais Garnier, a histórica Ópera de Paris, cuja arquitetura gótica monumental e atmosfera misteriosa serviram de inspiração para a clássica história do Fantasma da Ópera, de Gaston Leroux. Foi bonito de ver o público acompanhando com palmas e cantando quando a música ganhou velocidade, antes de a calmaria chegar com o solo de Murray, que antecedeu as transições seguintes dessa que é a composição mais longa do álbum de estreia homônimo do Maiden.

Quando a narração do saudoso ator e diretor inglês Barry Clayton — conhecido por trabalhos como Count Duckula (1988), They Came to Wales (1970) e Gosling’s Travels (1974) —, que introduz a atemporal e feroz The Number of the Beast, começou a rolar pelo sistema de som, as estruturas do Nubank Parque pareceram correr risco de abalo sísmico. Assim como o álbum homônimo, lançado em 1982, marcou a estreia de Bruce Dickinson no Iron Maiden, foi justamente com essa música que a banda inaugurou a fase do vocalista no repertório da noite. Enquanto isso, o telão exibia o videoclipe com cenas de clássicos do terror, como Nosferatu, Mothra vs. Godzilla, The Crimson Ghost e How to Make a Monster. As labaredas de fogo disparadas no início da música ajudaram a aquecer o público — ao menos aqueles que estavam próximos o suficiente para sentir o calor das chamas. Antes da próxima, Bruce voltou a falar com o público e brincou com a turma sentada nas arquibancadas laterais do estádio.

Um dos momentos mais aguardados da noite veio a seguir. Bruce comentou: “Todo mundo deveria ter um sonho. No caso desta canção, quando você for para a cama à noite e sua cabeça estiver no travesseiro, espero que seus sonhos sejam infinitos.” Era chegada a hora de Infinite Dreams, que, em 2026, finalmente foi apresentada ao vivo pela primeira vez em solo brasileiro. Durante a execução, Bruce Dickinson soltou um longo e agudo grito, com tamanha afinação que provocou comentários e expressões de positivo espanto entre as pessoas ao meu redor. Aliás, aos 68 anos, Bruce é um verdadeiro abençoado por ainda cantar tão bem, sobretudo depois de ter enfrentado um câncer que atingiu a língua e a região posterior da garganta. É impossível não admirar sua capacidade de recuperação e a potência vocal que continua demonstrando nos palcos. Isso é para poucos!

Em Powerslave, Bruce cantou com a tradicional máscara de inspiração egípcia, adornada com penas e de aparência semelhante à de uma ave de rapina, associada à iconografia do deus Hórus, divindade da mitologia egípcia frequentemente representada com cabeça de falcão. Mas o grande destaque ficou por conta da dupla Murray e Smith, que brilhou nos solos e na escolha dos timbres. Outro que mandou bem foi Dawson. Favorecido pela ótima qualidade de som, foi possível ouvir com clareza seus arranjos, especialmente as viradas nos tambores. E aqui devo dizer que li muitos comentários criticando sua atuação no primeiro show em São Paulo, principalmente em relação ao andamento das músicas, sob a alegação de que ele teria executado algumas delas em velocidade mais lenta. Bem, não assisti à apresentação do dia 25 para concordar ou discordar dessas avaliações. Mas, pelo menos no show do dia 27, minha percepção foi de que, embora não tenha como compará-lo a Nicko McBrain, que parece ter nascido para comandar a bateria do Iron Maiden, especialmente quando o assunto é groove e punch, Simon Dawson tocou corretamente e não comprometeu nenhuma música do repertório. Os andamentos estavam dentro do esperado e, apesar dele adaptar alguns arranjos ao próprio estilo, o baterista cumpriu bem sua função, surpreendendo em algumas viradas. Além disso, demonstrou ser uma pessoa carismática, como abordarei mais adiante nesta cobertura.

Após 2 Minutes to Midnight, o agora “soldado” Bruce Dickinson brincou ao mencionar nossa cachaça e abriu um cantil para beber. Mas, ao dar um gole, esbravejou: “De novo água?”. Era o gancho para aquela que, para mim, não é apenas uma das minhas músicas favoritas do Maiden, mas também representou o ápice do show: Rime of the Ancient Mariner, a extensa faixa de encerramento de Powerslave. Nela, a catarse foi geral. Todo mundo parecia hipnotizado, acompanhando atentamente cada movimento no palco e cada imagem projetada no telão. Foi um espetáculo à parte em termos de performance, produção, iluminação e sonoridade. A densa fumaça que tomava conta do palco emulava com perfeição a tenebrosa e gélida neblina de uma noite em mar bravio. Quando a música chegou à sua parte mais sombria, conduzida apenas pelo baixo de Mr. Harris, a atmosfera era de gelar a espinha. A interpretação de Bruce Dickinson, por sua vez, foi simplesmente soberba. Com Rime of the Ancient Mariner, o Iron Maiden proporcionou aos fãs quase 15 minutos daquilo que podemos chamar de absolute cinema!

Daí para frente, o sarrafo permaneceu alto, começando por Run to the Hills, que ganhou contornos ensurdecedores com a participação da plateia. Na sequência, veio Seventh Son of a Seventh Son, com o palco todo ornamentado por geleiras que remetiam à belíssima capa do álbum homônimo, lançado em abril de 1988. Depois, foi a vez de The Trooper, quando, assim como no show anterior, Bruce empunhou respeitosamente as bandeiras da Inglaterra e do Brasil, país onde o Iron Maiden tem uma de suas bases de fãs mais fiéis e fanáticas em todo o mundo.

Outro momento singular da apresentação foi garantido com Hallowed Be Thy Name, a produção ganhou contornos teatrais, com Dickinson encarnando o prisioneiro condenado à morte cantando de dentro de uma cela cenográfica. No telão, uma animação dava continuidade à narrativa, mostrando sua fuga por um corredor escuro, a perseguição pela figura da Morte, o desfecho na forca e a queda do corpo do cantor. A integração entre as imagens projetadas e elementos físicos, como as tochas de fogo posicionadas no palco quando Murray, Gers e Smith se juntam e fazem barulhos com suas guitarras, tornou a encenação ainda mais imersiva, recriando visualmente a atmosfera sombria da clássica composição inspirada em Life’s Shadow, lançada em 1974 pela banda britânica de rock progressivo Beckett.

Encerrando a primeira parte do show, o Iron Maiden voltou a revisitar a era Di’Anno com a incendiária Iron Maiden. Ao final da música, durante aquela tradicional despedida de mentira, Simon Dawson foi até a frente do palco e, demonstrando a simpatia mencionada anteriormente, ficou sozinho por alguns instantes, agradecendo e cumprimentando o público, além de distribuir algumas de suas baquetas e as munhequeiras que usava.

Pouquíssimo tempo depois, os sons mecânicos voltaram a enlouquecer a plateia com a spoken word Churchill’s Speech, que traz o célebre discurso do primeiro-ministro britânico Winston Churchill, gravado durante a Segunda Guerra Mundial, em junho de 1940, conclamando a população a resistir à Alemanha nazista. Então, o sexteto retomou o palco e agitou a plateia com Aces High, enquanto o telão mostrava Eddie em combate a bordo de seu Supermarine Spitfire, em uma representação dos confrontos aéreos entre a Força Aérea Real britânica e a Luftwaffe alemã, comandada por Hermann Göring, durante a Batalha da Inglaterra.

Na sequência, o Iron Maiden avançou ainda mais pela própria discografia, chegando diretamente a Fear of the Dark, com a execução da faixa-título do álbum de 1992. Curiosamente, embora a música seja frequentemente alvo de críticas nas redes sociais, sua recepção nos shows costuma contar uma história bem diferente. Ao vivo, ela ganha outra dimensão graças à participação entusiasmada dos fãs, que assumem o protagonismo especialmente nos marcantes coros que acompanham a canção.

Para encerrar, veio o grande clássico de Somewhere in Time, álbum que completa 40 anos em 2026: Wasted Years, uma das músicas mais conhecidas e queridas da carreira do Maiden. A escolha não poderia ser mais simbólica. Após duas horas e dez minutos de apresentação, a canção coroou uma noite memorável, com o público cantando em uníssono e celebrando mais um capítulo contado da história da Donzela de Ferro.

Ao final, ficou a sensação de que a “Run For Your Lives World Tour” ainda poderia render muito mais. Particularmente, espero que esta seja apenas a primeira parte de uma celebração dividida em capítulos. Seria fantástico se a banda retornasse ao Brasil com uma segunda etapa, desta vez incluindo músicas lançadas a partir do retorno de Bruce Dickinson, em 1999, com Brave New World, até os trabalhos mais recentes e, obviamente, os grandes hinos. Há um repertório imenso à espera de uma oportunidade como essa para ser explorado.

Seja qual for o próximo capítulo, uma coisa é certa: depois de cinco décadas, o Iron Maiden continua sendo uma instituição do heavy metal, uma paixão que atravessa gerações e cuja história, felizmente, parece ainda não estar perto do fim. Afinal, na despedida em São Paulo, Bruce Dickinson prometeu que a banda voltará ao Brasil. Que assim seja!

Alter Bridge setlist:
Silent Divide
Addicted to Pain
Cry of Achilles
Fortress
Ghost of Days Gone By
Metalingus
Blackbird 
Rise Today

Iron Maiden setlist:
The Ides of March (Intro)
Murders in the Rue Morgue
Wrathchild
Killers
Phantom of the Opera
The Number of the Beast
Infinite Dreams
Powerslave
2 Minutes to Midnight
Rime of the Ancient Mariner
Run to the Hills 
Seventh Son of A Seventh Son
The Trooper
Hallowed Be Thy Name
Iron Maiden 

Churchill’s Speech (Intro)
Aces High
Fear of the Dark 
Wasted Years


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