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KING WITCH – Body of Light [7,5/10]

Recentemente, tive a oportunidade de escrever uma resenha do último álbum dos galeses do Buffalo Summer (“Desolation Blue”). Caso você não tenha lido, ainda dá tempo de conferir aqui no site; e se já leu, então sabe que a nova cena musical do Reino Unido está revigorada e não se limita mais àquela dominada pelos ingleses.

Tentarei não soar repetitivo em relação ao texto anterior, mas o fato é que a origem do grupo pode atrair bastante nossa atenção. Isso não há como negar, ou você consegue ficar indiferente ao saber, por exemplo, que a Ucrânia exportou o Jinjer para o mundo?

Com essa premissa e, continuando nossa incursão pela Grã-Bretanha, agora é a vez de conhecermos o King Witch, banda escocesa em atividade desde 2015 e composta atualmente por Laura Donnelly (vocal), Jamie Gilchrist (guitarra), Lyle Brown (bateria) e Rory Lee (baixo).

As bandas clássicas têm o poder de criar em nós uma zona de conforto musical. Sair dela é difícil, mas pode ser satisfatório, portanto, esta é uma boa oportunidade para expandir o horizonte e tomar contato com a Escócia além das referências culturais que já conhecemos desde sempre – Highlands e seus clãs, Lago Ness ou Mel Gibson gritando “Liberdade” em Coração Valente.

Quanto ao estilo musical, a própria rede social do King Witch já se prontificou a enquadrá-lo como heavy metal e doom. De fato, não há o que se discutir em relação à essa rotulação, mas seria injustiça da minha parte não pontuar a qualidade técnica de seus integrantes, que conseguem fazer uma competente releitura moderna da New Wave of British Heavy Metal (NWOBHM).

Desde seu primeiro álbum (“Under the Mountain” – 2018) os escoceses já mostraram muita energia e peso, em uma mistura equilibrada entre os riffs arrastados do doom (“Solitary” e “Approaching the End”) e a velocidade do heavy metal clássico (“Carnal Sacrifice” e “Possession”). Como pano de fundo, temas ligados à mitologia nórdica e à cultura celta complementam a experiência sonora.

Agora em 2020 o grupo lançou o segundo trabalho de estúdio, “Body of Light” (com uma versão nacional caprichada em slipcase pela Hellion Records). Nele, vemos uma banda que ainda não teve coragem suficiente para inovar, e resultado disso é a continuação da mesma linha de trabalho iniciada em 2018, seja na temática, seja no estilo musical.

Pode parecer que o texto caminha para uma resenha com viés negativo, no entanto, ainda que de certa forma previsível, o King Witch apresentou um trabalho muito bom e, especialmente, pesado.

Algumas diferenças sutis podem ser apontadas em relação ao álbum de estreia. Em “Body of Light”, o grupo optou por faixas voltadas para o doom metal (lembre-se, estamos falando de uma abordagem moderna do estilo – não espere um Paradise Lost), enquanto o debut apresentou ao ouvinte faixas mais rápidas e agressivas. Outro ponto é o vocal, e aqui preciso fazer algumas considerações.

Laura Donnelly é uma vocalista com potencial e soa muito como Doro Pesch. Sua voz é grave, no entanto, ela também consegue alcançar um tom mais alto, tanto é que em alguns momentos parece que estamos diante uma versão feminina de Bruce Dickinson, que desde “The Chemical Wedding” (1998) vem apresentando agudos inconfundíveis. Em várias faixas você consegue imaginar Bruce cantando o refrão (tente fazer este exercício mental com “Beyond the Black Gate”).

A questão é que ela grita, e muito. Mesmo nas passagens mais calmas do álbum, Laura não consegue segurar a voz (por exemplo, em “Return to Dust”), a ponto de chegarmos na metade do CD com o ouvido atordoado. No meu caso, precisei ouvir o álbum duas vezes para me adaptar ao seu jeito de cantar. E o interessante é que não tive essa dificuldade ao ouvir o trabalho anterior, pois nele a vocalista conseguiu conter os excessos aqui apontados.

A produção do álbum reflete a tendência das bandas modernas de criar uma sonoridade bem limpa. Além disso, as inevitáveis imperfeições que deixam a audição mais original acabam sendo polidas por uma mixagem impecável.

A primeira faixa que o ouvinte tem contato é a que dá nome ao trabalho, e já adianto que a escolha foi muito boa. Seu início cria um ambiente místico, com acordes que lembram ritmos do oriente, para logo se transformar em um trovão nos ouvidos: intensa, rápida e com o baixo facilmente audível. Essa transição entre a calmaria e o desenvolvimento da música são acentuados pelo trabalho de Laura Connelly, que canta rápido e quase atropela as palavras no início.

Esta faixa, que retrata o título do álbum, “Body of Light”, dá sentido ao conceito gráfico da capa, o qual foi idealizado pela vocalista. Espaço cósmico, viagem a outra dimensão, formas geométricas perfeitamente alinhadas e, claro, um corpo de luz transcendendo. As imagens se assemelham um pouco às que aparecem no excelente “Crack the Skye”, do Mastodon (2008).  Aliás, há alguns momentos na sonoridade do King Witch que remetem um pouco aos norte-americanos.

A segunda música, “Of Rock and Stone” é bem arrastada e abre um grande contraste com a vigorosa abertura do álbum. A letra busca inspiração na mitologia escocesa para retratar Beira, deusa do inverno e criadora dos demais deuses. A faixa caminha no estilo doom, mas o ouvinte é surpreendido com sua mudança brusca de compasso no meio de um solo, tornando-a ainda mais pesada e rápida. Excelente, acredite.

Em “Call of the Hunter”, conseguimos sentir a emoção na voz de Laura Connelly, no entanto, a música não consegue manter a mesma qualidade das faixas anteriores. Ainda assim, tem o trunfo de apresentar ao final outra alteração de ritmo que poderia se encaixar, por exemplo, em algum trabalho do Crobot.

Há aqui uma crítica a ser feita. Conforme você ouve o CD, fica perceptível que a maioria das músicas tem a mesma estrutura, o que torna o álbum de certa forma previsível. Disse “de certa forma”, pois algumas faixas se destacam bem em relação às demais (por exemplo, as aberturas de “Body of Light”, “Return to Dust” e “Solstice I /She Burns”). Porém, no geral, há a seguinte formatação: o começo é lento, com vocais que te fazem imergir em um clima de tensão, para logo explodir em um refrão poderoso e, próximo ao fim, o grupo muda abruptamente o ritmo, deixando a música mais acelerada. É natural você antever o rumo que a faixa está tomando e o resultado é a seguinte indagação: “Qual é a terceira música? E a quinta?”.

Como dito, “Return to Dust” tem um início muito interessante graças à guitarra de Jamie Gilchrist, que cria um clima de faroeste influenciado pelas composições do italiano Ennio Morricone. A faixa logo caminha para dar lugar aos gritos de Laura e ao excelente refrão, e sua letra retrata o ciclo humano de viver e morrer. Interessante pontuar que este mesmo tema já foi objeto de um álbum inteiro do Gojira (“The Way of All Flesh” – 2008).

“Order from Chaos” é baseada na mitologia nórdica de criação do mundo pelos deuses e seu grande destaque é o refrão, que traz uma vocalista que abusou do agudo e também experimentou uma tímida aproximação com o soul. O efeito ficou bem interessante e inusitado, e pode servir de incentivo para ser explorado em lançamentos futuros da banda.

Outro belo começo de música está em “Solstice I / She Burns”, em uma passagem suave que lembra a guitarra de Mike McCready em “River of Deceit”, faixa que compõe o único lançamento do Mad Season (“Above” – 1995), grupo que contava com o saudoso Layne Staley nos vocais. Conforme a previsibilidade anteriormente mencionada, adivinhe só, ao longo de seus 10:16 minutos temos momentos mais lentos seguidos de outros mais rápidos e pesados.

Bem, à exceção da abertura, estivemos diante de um conjunto de faixas com dois momentos distintos: doom e heavy metal. Para quebrar essa perspectiva, o King Witch nos apresenta em “Witches Mark” a melhor (sem dúvidas!), mais pesada e rápida música do álbum – heavy metal do começo ao fim. A intensidade da música condiz com a temática da letra, que retrata a fascinação do Rei Jaime VI, da Escócia, pela caça às bruxas e pelos julgamentos que culminavam inevitavelmente em morte na fogueira.

O ponto mais fraco do álbum é o interlúdio em “Solstice II”, uma passagem instrumental apenas no violão que destoa por completo do trabalho até então realizado. Conforme a crítica estrangeira diria, isto é o típico “filler”, que, em bom português, significa “enrolação”. A intenção de criar uma continuação para a primeira parte da faixa 6 (“Solstice I / She Burns”) pode ter sido boa, mas infelizmente não faz sentido quando analisamos o conjunto da obra.

Encerrando o álbum de maneira longa e épica (10:02 min), temos a bem executada “Beyond the Black Gate”, que nos apresenta nos últimos minutos um ritmo semelhante ao jazz, acompanhado do baixo de Rory Lee.

A sensação final é de que o trabalho no segundo álbum é muito bom, mas não se destaca. A banda trouxe faixas com desenvolvimentos previsíveis, e Laura Connelly (que tem muito potencial!) acabou se excedendo em sua performance, fatos que impedem o álbum de ser a consagração que o grupo certamente almejava.

Em “Body of Light”, vemos os escoceses do King Witch lutando, sem inovar, para se firmar no cenário do heavy metal contemporâneo. O talento é inquestionável, e seus integrantes apresentam uma música forte, intensa e que reúne as melhores características do heavy metal tradicional e do doom metal.

Se você está à procura de uma nova banda para acompanhar, estou certo de que esta é uma boa aposta. Vamos acompanhar seu futuro e torcer para que alcance os holofotes em lançamentos próximos.

 

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