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KK’S PRIEST – OS SERMÕES DE K.K. & RIPPER

“Sermons of the Sinner”, primeiro álbum do KK’s Priest, pode ter dividido opiniões, mas uma coisa é inegável: K.K. Downing não precisava ter saído de cena em 2011, quando anunciou sua saída do Judas Priest. A sua (versão da) história está na autobiografia “Heavy Duty” (2018), lançada no Brasil pela Editoria Estética Torta, e foi o livro o primeiro sinal de um retorno. Começou com os ex-Judas Les Binks (bateria) e Tim “Ripper” Owens (vocal); reformulou-se ao lado de Ripper, A.J. Mills (guitarra), Tony Newton (baixo) e Sean Elg (bateria); e agora é uma banda pronta para ganhar os palcos, lançar mais discos… Para saber de tudo isso e muito mais – e mais, mesmo! –, rolou um bate-papo com Downing e Owens, cuja íntegra você confere agora.

Vou começar com uma pergunta que ainda é muito importante: como vocês estão nesta pandemia? Espero que tudo bem…
Tim “Ripper” Owens: Sim, eu estou bem! Pronto para fazer as coisas novamente, esperando para ver a cena musical vibrando novamente, né? As coisas estão voltando a funcionar normalmente por aqui, as pessoas estão se vacinando, especialmente os idosos, e aprendendo mais. Muitas fizeram o que tinha que ser feito para tentar controlar essa coisa. Particularmente, tenho feito shows locais e coisas assim, sendo que finalmente poderei viajar para a Inglaterra na próxima semana (N.R.: a entrevista foi realizada no dia 6 de julho de 2021, quase três meses antes do lançamento de “Sermons of the Sinner”)… Bom, não é assim tão simples ir para lá, porque tenho de passar por várias fases para entrar no país, mas, com o retorno das atividades, vários shows estão acontecendo nos Estados Unidos, e isso é bom! Infelizmente para vocês no Brasil, do jeito que as coisas ainda estão por aí, é mais difícil conseguir viajar para fora. Em boa parte dos pontos de checagem nos aeroportos e demais lugares, pelo menos comigo, eles apenas fazem o teste de Covid e dão formulários para serem preenchidos, e é isso. No mais, é ter bom senso de usar máscara nos lugares que estão cheios de gente, nos aeroportos, sempre nos aviões e, se você se sentir inseguro com a exposição, até nos shows.
K.K. Downing: Nossa, Daniel! Todos esses CDs atrás de você! Isso é incrível, cara! (risos)

Ah, obrigado! No meu caso, eles são o acúmulo de 38 anos de paixão pela música (risos).
K.K.: Isso é muito legal, mesmo! E respondendo à sua pergunta, eu me sinto fantástico! Tínhamos shows marcados para 2021, assim como tínhamos shows agendados no ano passado, mas eles foram cancelados, o que nos permitiu ter bastante tempo para fazer mais pelo disco. Não tínhamos pressa, e isso foi ótimo. Ainda temos muita coisa para fazer, mais vídeos para gravar, e vou escrever um novo livro, que terá mais histórias, também. Continuarei com tudo isso até que possamos voltar às turnês, então creio que está tudo perfeitamente bem.

E vamos falar do KK’s Priest, começando com o nascimento da banda. O que o motivou?
K.K.: Naquele suave ano de 2019, fiz alguns shows com Ross The Boss (N.R.: ex-guitarrista do Manowar). Depois, fui convidado a tocar algumas músicas com a banda do David Ellefson, na minha cidade, e aceitei. Decidi chamar o Ripper e pensei: ‘Bem, vamos chamar o Les e tocar mais músicas!’. Fizemos isso, e foi divertido, por isso resolvi me isolar no Natal daquele ano para ver se conseguiria compor algumas músicas, talvez para um disco. Foi o que fiz, e tudo rolou muito rápido, o que me deixou muito satisfeito. Pensei: ‘Bem, está acontecendo, e muito bem, então posso reunir uma banda sabendo que posso produzir um disco!’. Conseguimos um contrato, um empresário e começamos a avançar com o álbum, tentando alguns shows em 2019, o que não aconteceu. Retrocedemos um pouco, demos um tempo e terminamos o disco, já que estávamos entrando em lockdown. A história é essa. Senti-me forte com a minha habilidade de criar músicas, estava muito confiante e gostei do que ouvi. As músicas soam muito bem, porque fiz tudo naturalmente. Aliás, enquanto falamos, já estou compondo para o próximo trabalho, que também está ficando muito bom. Sinto que estou num momento realmente muito bom.
Owens: De qualquer forma, nós sempre estivemos em contato. Quando eu saio em turnê solo, obviamente passo pelo Brasil, um dos meus lugares favoritos para tocar, por isso vou pelo menos duas vezes ao ano aí (risos)… Bom, K.K. vai aos meus shows no Reino Unido, e saímos juntos. Fizemos aquele show juntos em 2019, e tive o pressentimento de que ele estava faminto para voltar a tocar. Quando K.K. falou para mim que queria fazer isso, o maior problema para mim é que estou sempre muito ocupado, afinal, tenho o Three Tremors, o A New Revenge, saio em turnê solo, então precisava saber se seria algo sério, por isso conversamos para ter certeza de que eu conseguiria assumir esse compromisso. E fiquei animado! Eu e K.K. somos grandes amigos, assim como sou dos demais caras do Judas Priest, mas fiquei animado porque o material era fantástico, então seria legal nos juntarmos para tocar. Ele estava também empolgado, o que me animou por tabela, então eu topei.

O mais interessante, K.K., é que todos pensavam que você estava aposentado, então pergunto se escrever uma autobiografia despertou a vontade de voltar a fazer música…
K.K.: Sim, e creio que, pouco antes do livro, eu ainda estava em bons termos com os caras do Judas Priest. Sempre acreditei que, em algum momento, me reuniria à banda novamente quando houvesse uma oportunidade. Porém, algumas coisas aconteceram antes de eu escrever o livro, sabe? Eles pararam de pagar os direitos autorais aos quais eu tinha direito… Eu pensava daquela maneira porque eles me pagavam pelo que eu criei na longa história do Judas, mas de repente comecei a receber cartas de advogados e, neste momento, pensei: ‘Acabou. Não haverá uma oportunidade para voltar’. Quando Glenn se aposentou dos palcos e eles não me ofereceram a oportunidade de retornar, pensei novamente: ‘É, acabou mesmo’. Continuei escrevendo o livro e, desde então, perguntei a eles, continuamente, se a porta estava aberta ou fechada. A confirmação foi: ‘Está fechada’. Eles continuaram com as cartas dos advogados, tentaram legalmente me deter de criar o KK’s Priest e toda essa maluquice, mas eu continuei. ‘Se eu não voltar a tocar no Judas Priest, eu vou fazer o KK’s Priest!’, e agora estou mentalmente num momento melhor. Parafraseando o Metallica, é triste, mas é verdade (risos) (N.R.: Downing faz uma brincadeira com a música “Sad But True”, do “Black Album”). Sei quem eu sou novamente. Não sou parte do time de colaboração com Rob e Glenn em composições, e não preciso disso. Posso compor sem os dois e acredito que tenho uma nova leva de coisas a oferecer, especialmente com a grande banda que tenho. Podemos ir adiante e fazer muitos shows incríveis e outros grandes discos.

De fato, é uma situação estranha, especialmente para os fãs, porque seria natural você fazer as turnês no lugar do Glenn…
K.K.: Bem, Richie (Faulkner) queria que eu estivesse na banda… Nós temos estado em contato, e a vontade dele era que eu voltasse para o Judas Priest. Foi isso que me fez continuar perguntando a eles se ainda havia possibilidade, mas os outros disseram ‘não’. Para mim, e eu tenho de dizer isso, eles têm sido bem-sucedidos, o que é ótimo, e desejo a eles todo o sucesso, porque os respeito como colegas de banda por tudo o que fizemos e conquistamos. Mas eu não os respeito pela forma como fui tratado. Algumas coisas aconteceram, e eu não fiquei feliz com isso na época, mas tudo poderia ter sido resolvido. Rob deixou a banda por 14 anos, Glenn lançou dois discos solo com Cozy (Powell) e John Entwistle, e isso durou seis anos enquanto eu me mantive leal e verdadeiro o tempo todo, então eu senti que… Sabe, a minha vida toda estava naquela banda. Eu era parte deles, eles eram parte de mim, e senti que fui privado disso porque, se a minha voz tivesse sido ouvida em 2010, nós poderíamos ter ido adiante e ter feito as coisas como deveriam ser ou não ser, mas estou bastante feliz agora. Vamos gravar mais vídeos, porque os caras da minha banda vêm para cá na próxima semana para isso, então estamos lançando mais músicas, promovendo o disco, fazendo todas as coisas que uma banda deve fazer. Iremos ao pub beber cerveja como uma banda deve fazer, falar besteira como toda banda deve fazer (risos) e pensar juntos sobre coisas boas que faremos para seguirmos em frente e fazer ótimos shows.

Vamos falar do KK’s Priest, então, a começar pela capa de “Sermons of the Sinner”. A referência ao título do álbum é bem óbvia, mas ainda assim muito legal. Quem surgiu com o conceito?
K.K.: Conversei com um cara excelente para fazer capas de discos, chamado Andy Pilkington, que faz várias coisas para muitas bandas. Falei sobre o disco, disse qual era o título, e ele criou a arte. Amei assim que a vi, porque é muito pungente e emotivo para mim. A coisa toda, aliás. O disco e tudo que o cerca, as letras… “Sermons of the Sinner” é muito sentimental e emotivo, tem mensagens aqui e ali, e isso pode ser uma continuidade. Eu sempre fui um ‘Priest’! Desde o começo, em 1968, e não posso deixar isso para trás. Preciso levar isso comigo, porque é uma causa. E como se pode ouvir no disco, eu abordo o tema em faixas como “Sacerdote y Diablo”, “Sermons of the Sinner” e “Hail for the Priest”. Tem tanta coisa nele, e eu sempre senti que nós, enquanto Judas Priest, deixamos isso para trás, meio que abandonamos o assunto, mas eu não. Então, está presente em abundância neste disco e sempre estará presente.

E como foi chegar à formação definitiva da banda, especialmente depois que Les teve que sair?
Owens: Antes de qualquer coisa, eu entendo a animação dos fãs quando nossos nomes apareceram juntos, porque o Les tocou na banda nos anos 1980, e os discos com ele tocou são fantásticos porque ele é um baterista sensacional. As pessoas pensaram: ‘Uau! Essa é uma formação que a gente nunca viu! K.K., Ripper e Les!’, e eu fiquei igualmente animado, até porque fizemos aquele show, mas acabou que ele não poderia tocar. Les se machucou, mas eu não sei se ele gostaria de tocar o tempo todo. Nós sairemos bastante em turnê, e realmente não sei se Les estaria disposto a isso. Mas também gostei muito de termos Sean na banda, porque ele toca comigo no Three Tremors e é um baterista muito bom, bastante profissional fantástico nas turnês. Sei que disse aos fãs ‘Ei, Les pode tocar!’, mas, quando o disco foi lançado, no dia em que tínhamos algo a dizer para as pessoas, falamos ‘Les não estará conosco’. Só não dissemos isso antes porque não havia nada para falar até o álbum sair. Não é como se estivéssemos escondendo algo, e foi muito chato não ter o Les conosco. Eu adoro esse cara! Eu estava numa banda-tributo ao Judas Priest quando eu conheci o Les anos atrás, durante uma turnê solo. Ele foi a Londres e tocou algumas músicas conosco, e eu fiquei boquiaberto. Aquilo foi incrível! Seria maravilhoso tê-lo no KK’s Priest, mas também é ótimo ter outro grande profissional para seguirmos adiante.

K.K. Downing e seu novo parceiro de seis cordas, A.J. Mills (Foto: Divulgação)


K.K., você passou 40 anos tocando com Glenn Tipton, e vocês criaram uma escola de como tocar guitarra no heavy metal. Agora, como é a parceria com A.J. Mills?
K.K.: Muito fácil, na verdade. Claro, A.J. tem a metade da minha idade, mas eu o conheço há muito tempo. Ele é muito antenado com o que está acontecendo, com o que eu faço e como eu faço. Não tive muito trabalho de guitarra e de solos em muitos dos discos do Judas Priest, porque Glenn monopolizava o processo, e isso não era muito legal. Eu poderia fazer o que faço bem, mas neste disco há uma abundância de guitarras. Eu e A.J. trabalhamos muito bem juntos. É uma parceria muito, muito boa, algo que sempre mostro a ele.

Eu perguntei tudo isso por duas razões. A primeira é uma declaração sua, de que o ‘KK’s Priest é como uma nova velha banda ou uma velha nova banda’, o que achei interessante…
K.K.: (rindo) Ah, não lembro bem como eu falei para os caras da gravadora, mas era algo assim mesmo: ‘Somos uma nova velha banda ou uma velha nova banda. Ou algo no meio do caminho. Não sei’ (risos). Mas fico feliz com isso, porque gosto de juntar o passado, o presente e algum futuro em tudo o que fazemos. E espero pode fazer sempre assim. Acho saudável e, também, não posso fazer de outro jeito, porque minha guitarra soa assim. Minha forma de tocar é como é, a composição das músicas é como é, e agora as minhas letras também são como são, porque preciso me expressar. Há muita emoção nesse disco, que é bastante profundo. Cada música tem um significado para mim e uma razão para estar ali, e é por isso que são músicas bem fáceis de compor.

De qualquer maneira, acredito que basta a presença de vocês dois para os fãs abracem o KK’s Priest…
Owens: Mas que acontece de, às vezes, alguns fãs, mesmo gostando e amando, não entenderem e falarem: ‘Ah, parece muito com Judas Priest’. Bem, K.K. foi um dos principais compositores do Judas durante mais de 40 anos, e ele compôs música para a minha voz, deu vida ao novo material da maneira como sempre compôs, de um jeito que os fãs poderiam gostar. K.K. estava realmente fazendo o que queria fazer, e os fãs sabem disso. Creio que isso é o que anima os fãs, ouvir o puro heavy metal feito por K.K. comigo, e eu ouço um K.K. puro em “Sermons of the Sinner”! O fim de “Return of the Sentinel” é algo que poderia facilmente estar no “Rocka Rolla” (1974), e há um pouco de tudo nesse disco. Há músicas para você botar os punhos para o alto e cantar junto, e as canções do disco foram feitas para serem tocadas ao vivo, para que a multidão cante junto, e ficarei mais do que feliz se a plateia cantar “Sermons of the Sinner” por mim, porque ela é de esmagar as bolas (gargalhadas). Mas é um disco de heavy metal tradicional, de canções direto ao ponto às épicas, e “Return of the Sentinel” é épica, então tem um pouco de tudo. Mesmo as faixas mais longas não parecem longas. Depois de ouvir o disco todo, é tipo ‘Ué, já acabou?’, porque nada se arrasta, ele flui de maneira constante. E há um motivo para essas músicas estarem ali: há significados específicos em cada uma delas.

Bom, a segunda razão é “Hellfire Thunderbolt”, que poderia facilmente ser uma música típica do Judas Priest com Ripper nos vocais se a banda não tivesse seguido um caminho mais moderno em “Jugulator” (1997) e “Demolition” (2001). Qual é a sua opinião sobre isso?
K.K.: “Sermons of the Sinner” poderia ter sido realmente o disco no lugar do “Jugulator” para o Tim, quando ele entrou no Judas Priest. Penso que ao menos algumas partes daquele álbum poderiam ter ido além. Agora, o único critério para compor o disco do KK’s Priest foi que eu sabia como queria que ele soasse, com bateria orgânica e guitarras soando representativamente uma era passada, sem muita distorção ou saturação. Eu queria ouvir tudo o que o baixo fazia, então encorajei o Tony a tocar e não ter medo. Também criei partes para o baixo, porque isso era algo que fazíamos nos velhos tempos. Sobre as músicas, elas surgiram naturalmente e são tudo o que eu queria expressar e cantar a respeito, como emoções e histórias. Eu me diverti com “Hellfire Thunderbolt”, no sentido de que pode ser fato ou ficção, mas é uma história que pode ter acontecido há muito, muito tempo, há milhões de anos ou apenas há algumas centenas de anos, quando os céus se abriram e raios infernais caíram. Quando eu era criança, no início dos anos 1960, o heavy metal não existia. Tínhamos clássicos, tínhamos rock’n’roll, jazz, bebop e coisas assim, mas não havia heavy metal. Havia o blues, que era ótimo. Mas quando eu tinha 13 anos e procurava por algo para ouvir, como tudo isso aconteceria e surgiria? Por que agora? Por que não cem anos ou 200 anos atrás? Ou 50 ou cem anos no futuro? Por que agora temos as músicas dos anos 1960, 1970, 1980, 1990? Por que temos um gênero de verdadeiro heavy metal repleto de grandes bandas? É um conceito interessante! Seríamos humanos infusionados com o que aconteceu naqueles tempos, e assim tivemos heavy metal injetado em nossas veias e o trouxemos para a metade dos anos 1960? E gente como eu já havia nascido. Jimi Hendrix tinha metal em suas veias, com “Purple Haze” e “Foxy Lady”; o The Kinks com “You’ve Really Got Me”; The Troggs com “Wild Thing”, os estágios iniciais dos Rolling Stones… Estava acontecendo uma mudança! Nos EUA, com Frank Marino e bandas como Budgie, também estava acontecendo, e eu estava ciente. Tudo isso rolava ao mesmo tempo, e estávamos olhando para a evolução do blues para o blues progressivo, daí para o rock, deste para o heavy rock e daí para o heavy metal. Estávamos nessa viagem, e é interessante como eu não sei dizer se “Hellfire Thunderbolt” é fato ou ficção. Mas está aí para pensarmos em como tudo se transformou.

Owens: E “Hellfire Thunderbolt” é uma das minhas favoritas! A forma como começa, bem direta, e como termina, de um jeito épico… E concordo com você. Como é o K.K. compondo, aconteceria mesmo isso. E é o que faz do Judas Priest uma banda legal. Quando você diz que “Jugulator” e “Demolition” são diferentes, o mesmo pode ser dito sobre “Turbo” (1986) e “Point of Entry” (1981), até mesmo “British Steel” (1980). Os discos do Judas sempre foram diferentes, e acredito que isso mostra o tipo de composição que o K.K. queria fazer quando estava na banda. E quando se escuta “Sermons of the Sinner”, percebe-se que ele tem K.K. por toda parte. É o tipo de música que ele gosta de compor e queria compor, então, sim, também acho que “Hellfire Thunderbolt” poderia estar no “Jugulator” ou no “Demolition”. É uma clássica música do K.K. Downing, e ele sabe como eu canto. Tenho um alcance bem diferenciado e posso fazer algumas coisas diferentes, e K.K. sabe como é a minha voz. Sempre haverá essa fronteira, então por que K.K. comporia desse jeito durante 40 anos e sairia para compor outro estilo? Eis a diferença: se ele ainda estivesse no Judas e fizesse um disco diferente, talvez compusesse de outro jeito por ainda fazer parte da banda. Mas ele não é mais um integrante do Judas, então ele compõe exatamente como quer, sabe e gosta, o que e dá para perceber nas novas músicas. Eu consigo perceber claramente as influências dele e, mais do que isso, acredito que K.K. está aliviado e se sentindo bem por não ter gente dizendo como ele deve compor. Esse disco foi feito pra soar como K.K. Downing gosta de compor, e é isso que o deixa tão animado.

K.K., quando você falou da papel do baixo no KK’s Priest, a intenção então era fazer algo menos mecânico que o papel de Ian Hill, basicamente um metrônomo humano no Judas Priest?
K.K.: Sim, porque é como o baixo deve ser, e Tony é um deus do trovão no baixo! A principal razão de eu tê-lo escolhido é sua habilidade. Observei suas performances ao vivo, e ele pode fazer muito mais do que fez no passado, então dei essa oportunidade. Sei que Tony tem fogo nos motores para entrar na linha de frente comigo e A.J. e fazer um show matador! Ele tem muitos outros talentos, como no estúdio de gravação. “Sermons of the Sinner” soa excelente também porque é ótimo comparado quando comparado a várias outras coisas. A bateria é orgânica, e as guitarras não são extremamente saturadas, dando espaço justamente para o baixo aparecer. Falei com Tony que poderíamos deixar um espaço entre guitarras para inserir o baixo, que poderia se misturar depois. E isso foi muito simples de fazer. Bastava diminuir a saturação das guitarras, deixando aquele espaço a ele para tudo fazer sentido. Fiquei muito feliz.

Dito tudo isso, tem algo que eu preciso dizer: não consigo entender por que muitos fãs não gostam de “Jugulator” e “Demolition”. Eles mostraram o Judas Priest renovado, olhando para frente, mas sem deixar o passado para trás. Particularmente, eu adoro os dois álbuns.
Owens: Obrigado! E é o seguinte: eu teria feito um álbum que soaria exatamente como um disco comum do Judas Priest, mas os fãs teriam nos odiado por isso! É preciso lembrar que “Painkiller” foi lançado em 1990, e fizemos “Jugulator” depois de uma pausa de sete anos, então tudo havia mudado. O Judas sempre foi influenciada pelos tempos, não importava que a banda fosse pioneira. Quando os discos eram lançados, eles mudavam… Em “Painkiller”, de repente Glenn estava tocando arpejos. Acredito mesmo que o Judas sempre foi influenciado por épocas, da mesma foram que acredito, também, que muitas pessoas não gostam de mudanças. Mas isso não importa, porque eu realmente não iria agradar a algumas pessoas. Sempre digo a elas: ‘Apenas venham a um show. Se vocês não gostarem de mim, tudo bem. Mas se forem a um show e ouvirem músicas como “One on One”, “Burning Hell” e “Hell is Home”, verão que elas são impressionantes!’. Sei que o Judas Priest apagou a minha história com eles, mas tenho sorte de tocar essas músicas quando saio em turnê solo. Fiz shows no Reino Unido, onde K.K. apareceu para me ver, e abrimos as apresentações com “Jugulator”; tocamos “Cathedral Spires”, “Blood Stained”, “Bullet Train”, “Death Row”, “Dead Meat”, “Hell is Home”, “Machine Man”, “One on One”, “Lost and Found”; e incluímos canções como “Scream Machine”, “Diamonds and Rust” e “Painkiller”. Foi o set mais legal de todos, porque essas músicas são incríveis!

E eu queria chegar nesse ponto, porque você e K.K. podem juntos resgatar esse material com mais autoridade ainda…
Owens: Exatamente! O objetivo de K.K. é concentrar os shows nas músicas do novo disco, obviamente, mas não há dúvidas de que tocaremos “One on One”, que deveria sempre estar no setlist no Judas Priest, em minha opinião, “Burn in Hell” e “Hell is Home”. Quero muito ver essas três músicas no repertório, além de outras que passam fora do radar, como “Machine Man”. Acredito que teremos algumas assim no setlist. Quando toquei com K.K. naquele show no Reino Unido, incluímos “Before the Dawn”, “Exciter” e outras bem diferentes, como “Take on All the World”… Cara, é um material tão fora do lugar-comum que ele nem lembrava como tocar “Before the Dawn”! (risos) Então, pode ser muito legal tocar algumas canções da minha época junto com as do nosso próprio disco, salpicando com músicas incomuns. Por exemplo, eu adoraria tocar “Cheater”, do “Rocka Rolla”!

E sobre as canções do KK’s Priest, acredito que duas delas não poderão ficar fora dos shows: “Raise Your Fists” e “Brothers of the Road”, porque tenho a impressão de que foram compostas com essa intenção…
K.K.: E nós estamos ansiosos por esse momento ao vivo! Esse foi outro critério para o disco, porque eu disse: ‘Cada música tem de ser uma boa música ao vivo, porque nós precisamos conseguir tocar cada uma delas nos shows’. Se conseguirmos tocar por uma hora e 45 minutos quando formos headliners, todas nove faixas serão parte importante do setlist (N.R.: por razões óbvias, Downing não soma a introdução “Incarnation”), e as duas que você mencionou são músicas para esmurrar o ar! (risos) Não podíamos lançá-las de cara, mas elas certamente serão singles. Quis criar a identidade que já tínhamos com “Hellfire Thunderbolt”, como faixa de abertura, e dizer ao público que a música ser lançada em seguida seria diferente. Estou até um pouco nervoso, mas espero que os fãs não pensem ‘Já era! K.K. acabou’ (risos). Definitivamente, não poderíamos ter canções fracas nesse disco, e se alguém achar alguma delas fraca, eu gostaria de saber qual é. E sim, podemos tocar todas elas ao vivo, porque será como aquela energia rebelde de “Breaking the Law” (risos).
Owens: Lembro-me de cantar essas duas músicas e K.K. falar: ‘Já dá para ouvir o público cantando e erguendo os punhos!’, então concordo com você. “Raise Your Fists” e “Brothers of the Road” foram feitas da mesma maneira que muitas bandas fazem. Quando eu mesmo componho para os meus discos solo ou para o Beyond Fear, eu faço esse tipo de música. “Play My Game” ou “Save Me” são dois exemplos. As do KK’s Priest foram compostas exatamente para duas situações: Uma é você no show, com os punhos erguidos e cantando junto; e a outra é você dirigindo por uma estrada, com o som no último volume e cantando junto.

A propósito, eu diria que “Brothers of the Road” é um primo distante de “You’ve Got Another Thing Comin’”…
K.K.: Você me deu uma boa ideia, porque podemos tocá-las juntas nos shows (risos). Eu gostaria disso, e os fãs vão adorar!
Owens: É o mesmo estilo de música. Aliás, lembro que o Judas Priest tentou fazer isso com “Some Heads Are Gonna Roll”, que é uma cópia em papel carbono de “You’ve Got Another Thing Comin’”, e em “Painkiller” tem “A Touch of Evil” tentando ser esse tipo de música. “Living After Midnight” também tem essa energia. No fim, é preciso ter essas canções mais rock’n’roll, e quem conhece meu trabalho sabe que eu gosto muito dessas músicas mais diretas, tanto em minha carreira solo quanto no Beyond Fear.

Além disso, K.K., “Return of the Sentinel” parece ter um significa bem particular.
K.K.: É mesmo uma música muito importante para mim. Na verdade, a segunda metade do disco é muito emotiva para mim, porque era muito importante eu fazer isso. Se essas forem as últimas músicas que eu compus na vida, então quero que elas sejam como meu epitáfio. Quero ser lembrado por isso, embora espere que não seja o caso (risos).

E já que estamos falando das músicas do KK’s Priest, a minha primeira impressão quando ouvi “Sermons of the Sinner”, a faixa-título, foi que a banda talvez tenha a sua própria “Painkiller”.
Owens: É esse tipo de música, mesmo, mas eu diria que, neste caso, seria mais parecida com “Screaming for Vengeance”. Mas, no fim das contas, é uma música de heavy metal que vai direto ao ponto. Às vezes, as pessoas comentam sobre a forma como eu canto, e só posso responder: ‘Você nunca me ouviu cantar “Scream Machine” no disco do Beyond Fear?’ (risos). “Scream Machine” é quase como “Sermons of the Sinner”, e até o refrão é parecido. “Sermons of the Sinner” é uma música raiz do heavy metal, e do lado mais pesado do metal tradicional. É como um retorno a esse tipo de música que não ouvimos mais por aí.

Já sabemos que todas as músicas são especiais para o K.K., mas quais seriam as suas três favoritas, Ripper?
Owens: “Sermons of the Sinner”, “Hellfire Thunderbolt”… Cara, que pergunta difícil! (risos) Eu não sei… Acho que “Wild and Free” completa a lista.

Permitam-me falar um pouco especificamente sobre você, Ripper, porque você tem feito bastante coisa desde a sua saída do Judas Priest. No entanto, seu único disco solo, “Play My Game”, é de 2009. Parou por aí?
Owens: Não, não! Provavelmente farei outro… Na verdade, eu estava falando a respeito disso recentemente, então acho que vai acontecer mais cedo do que tarde. Tenho algumas músicas escritas para Beyond Fear, e um dos meus discos favoritos no qual estive envolvido nos últimos anos é o do A New Revenge (N.R.: “Enemies & Lovers”, de 2019), que é um disco de hard rock puro e simples. Eu amo a maneira de compor do Keri Kelli e a mistura que sai do seu jeito e do meu jeito de fazer música. Além disso, tenho alguns amigos no Benediction e adorei o último disco da banda (N.R.: “Scriptures”, de 2020), então liguei para o Daz (N.R.: o guitarrista Darren Brookes) e disse: ‘Cara, precisamos compor juntos, porque esse seu novo álbum é fantástico!’. Quero trabalhar com Keri e o Daz desta vez, juntos, então creio que definitivamente lançarei meu segundo disco solo. Talvez em 2022 eu entre em estúdio para isso.

Bom, e eu preciso perguntar a você se a atitude de John Schaffer, ao invadir o Capitólio, o surpreendeu de alguma forma…
Owens: Olha, hoje eu posso dizer sinceramente que não o conhecia tão bem assim. Claro, não nos falamos tem 15 anos, desde que eu fui chutado do Iced Earth, mas fiquei verdadeiramente surpreso. Eu não tenho as mesmas convicções políticas que ele, e meu fim naquela banda não foi muito legal…. Aliás, não foi nada legal, mesmo! (risos) Enfim, fiquei surpreso porque qualquer pessoa normal saberia que fazer aquilo é errado. Eu mesmo passei anos falando sobre todos os protestos violentos e as manifestações que acontecem nos Estados Unidos, em cidades que ficaram em chamas, como Portland e Baltimore, e o que John fez é tão ruim quanto. É a mesma coisa da qual eu venho reclamando há anos. Ele fez merda e tem de pagar por isso.

E eu posso dizer a você que, ao entrevistá-lo dois meses antes da invasão ao Capitólio (clique aqui para conferir), fiquei pasmo com as fake news e teorias de conspiração que ele colocou para fora…
Owens: A minha percepção do John é que ele não era assim. John parecia um cara normal. Sendo novamente honesto com você, Daniel, nós não discutíamos política, porque eu já era o oposto dele naquela época. Não falávamos muito nem mesmo sobre assuntos relacionados, mas ele não estava metido em conspirações. Acredito que isso aconteceu anos depois que eu saí do Iced Earth. Sabe-se lá por que John não falava sobre nada disso comigo. Comigo, o assunto girava somente em torno dos negócios da banda.

Já se passaram mais de três anos desde o lançamento de “Heavy Duty”. Hoje, K.K., o quão satisfeito você está com a sua autobiografia?
K.K.: Eu gosto muito dela! Acredito que eu poderia ter colocado muito mais coisas no livro, mas ele ficaria enorme! (risos) Estou satisfeito, sim, porque só queria que os fãs me conhecessem um pouco melhor, porque hoje eles sabem de mim e sobre mim, especialmente como eu comecei na música e como ela foi a minha salvação. Deve haver milhões de pessoas por aí como eu era quando mais novo. Jovens com dificuldades financeiras e de relacionamento, oprimidos… Mas a música foi a minha salvação, e a mensagem está aí para as pessoas que tentam encontrar algo de bom em suas vidas e acreditar, aproveitar e confiar nisso. Muitos de nós passam por momentos muito difíceis na adolescência, e é por isso que escrevemos músicas como “Breaking the Law” e “Wild and Free”. Elas são um entendimento de que podemos nos dar muito mal se não nos mantivermos fortes, se não fizermos a coisa certa nesse período deplorável que pode ser entre 17 e 20 anos, quando nos descobrimos e temos que nos levar a um novo lugar, a um novo nível. Então, mantenham-se firmes nesses anos desesperadores, como eu fiz. É uma dica do livro.

“Sermons of the Sinner” será lançado em outubro, mas como ainda estamos no meio de uma pandemia, creio que você não tenha parado de compor?
K.K.: Ah, sim! E espero gravar logo a maior parte do próximo disco, porque, dessa forma, quando a turnê acabar não precisaremos ficar longe dos palcos por muito tempo. Pretendo lançar o segundo álbum no fim de 2022.

Muito obrigado pelo papo, K.K. e Ripper. Foi um prazer, e espero que o KK’s Priest aporte no Brasil assim que possível.
K.K.: Foi maravilhoso conversar com você e poder falar aos fãs no Brasil. Espero que todos estejam firmes, e também espero vê-los ano que vem!
Owens: Sinto falta de ir ao Brasil! Como disse mais cedo, tenho o hábito de tocar aí umas três vezes por ano com meu parceiro Silvio e o pessoal da Open Road Entertainment, que me levam sempre, tem os músicos brasileiros que tocam comigo… E eu amo meus fãs brasileiros! Mal posso esperar para voltar não apenas com mais shows solo, mas agora também para mostrar o KK’s Priest a todos! Visitem minhas redes sociais e meu site para saber onde estarei. Vejo vocês em breve!

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