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LIVING COLOUR – 13 de junho de 2019, Rio de Janeiro/RJ

A resenha do retorno do Living Colour ao Rio de Janeiro (e ao Circo Voador) poderia ser resumida em uma frase: a banda deveria tocar na cidade uma vez por mês. Exagero? Não para uma banda sem igual, que consegue fazer em cima do palco algo muito melhor do que já faz nos discos – são apenas sete trabalhos de estúdio em mais de 30 anos de carreira, todos acima da média, alguns que são verdadeiras obras-primas. E uma dessas joias foi a razão de o quarteto voltar à cidade outrora maravilhosa depois de uma década: Vivid, o álbum de estreia, lançado em 1988 – e sim, são dez anos, uma vez que, sejamos sinceros, o Rock in Rio de 2013 não conta. Lembre-se: um dos melhores e mais importantes grupos da história do rock foi (muito mal) escalado no Palco Sunset num dia de Ivete Sangalo, David Guetta e seu pendrive e Beyoncé.

Enfim, no entanto, Corey Glover (vocal), Vernon Reid (guitarra), Doug Wimbish (baixo) e Will Calhoun (bateria) levaram para os fãs carioca a Vivid 30th Anniversary Tour, com uma diferença em relação à turnê que começou no fim do ano passado, na Austrália: o disco foi realmente tocado da primeira à última faixa, o que Calhoun havia confirmado em entrevista realizada antes do giro pela América do Sul (clique aqui para ler o bate-papo com o batera). Mas foi com duas canções do disco mais recentes, Shade (2017), que os quatro iniciaram o espetáculo – e sem estardalhaço, diga-se: nada de introduções sonoras ou alguma bombástica entrada. Apenas os quatro chegando ao palco, um a um, para começar a despejar música da melhor qualidade. Curiosamente, foram dois dos três covers presentes no trabalho, o que ajudou a fortalecer o clima de contemplação da grande maioria que ajudou a lotar a famosa lona na Lapa. Preachin’ Blues, de Robert Johnson, foi anunciada pelos acordes de Reid antes de virar um ótimo (e obviamente mais pesado) blues elétrico, enquanto Who Shot Ya? mostrou uma forte e sempre presente faceta da banda.

Living Colour

“Gostaria de dedicar essa música a Evaldo dos Santos Rosa e Marielle Franco”, disse o guitarrista, referindo-se ao músico negro fuzilado com mais de 80 tiros pelo Exército, que confundiu seu carro com um veículo usado por assaltantes, e à vereadora executada por milicianos em março de 2018 – os dois casos ocorridos no Rio de Janeiro. E fez todo sentido. Nas mãos do Living Colour, a visceral versão da controversa canção do rapper Notorious B.I.G., assassinado em 1997, aos 24 anos, virou um hino contra a política armamentista e a violência policial. Mas o show não foi panfletário, e nem precisaria. Quem acompanha o Living Colour além da música, prestando um mínimo atenção nas letras de mensagens nada subliminares, sabe muito bem que o grupo está do lado certo. Por isso mesmo, boa parte do público, ao fim da apresentação, lembrou-se com “carinho” do protofascista que (ainda) está presidente da República.

Mas aquela noite de quinta-feira era, no geral, uma celebração ao disco que colocou o Living Colour no mapa, então Cult of Personalitycomeçou a festa logo em seguida, incendiando de verdade pista e arquibancada. Foi lindo de ver a pista com os fãs cantando “I am the cult of” no fim, todos com os braços para cima acompanhando cada palavra da frase. O suficiente para arrancar um largo sorriso de Glover e Reid, que muitas vezes tinham de instigar a plateia, mas não aqueles que se mostraram fãs com as músicas na ponta da língua, uma vez que a participação era completamente voluntária. Foi o caso de I Want to Know, que, arrisco dizer, foi testemunhada ao vivo pela primeira vez por todos os presentes. Ou seja, um daqueles momentos em que saber o que viria pela frente não atrapalhou a empolgação.

Living Colour

Mas a verdade é que não importa quantas vezes você saiba que a música seguinte é Middle Man ou Desperate People, porque: (i) a performance de Glover na primeira é sempre especial (pesquise a razão da letra), assim como Calhoun brinca de tocar bateria; e (ii) você pode usar a segunda para exemplificar a genial musicalidade da banda. Aliás, musicalidade que faz de Open Letter (To a Landord) uma das coisas mais maravilhosas que você pode presenciar ao vivo, e a razão atende por Corey Glover, que sempre dá aula de técnica e, principalmente, feeling ao improvisar naquele início – e faça-se o registro: o vocalista esteve impecável durante todo o show. Improviso. Palavra-chave para descrever o arrasa-quarteirão que foi Funny Vibe, especialmente o começo, e o desfecho de tirar o fôlego em Memories Can’t Wait, cover do Talking Heads.

Se a belíssima Broken Hearts, que mostrou toda a elegância de Wimbish ao tocar as linhas de Muzz Skillings (e que som de baixo lindão!), causou quase o mesmo impacto de I Want to KnowGlamour Boys se juntou a Cult of Personality no quesito grande empolgação do público. Previsível, mas ainda assim bom demais soltar a voz em “I’m fierce” e acompanhar Glover e Reid na, digamos assim, coreografia que se seguiu à frase principal do refrão – fora o “Trinta anos! Trinta anos! Trinta anos e nosso crédito ainda não é bom”, zoação do vocalista no lugar da original “Whaddya mean my credit’s no good?”. Soltar a voz com vontade foi o que aconteceu ao responder a pergunta de What’s Your Favorite Color? (Theme Song), emendada de primeira com a avassaladora Which Way to America?. Acabava aí a comemoração dos 30 anos de uma das obras-primas do Living Colour, e como se fosse necessário um tempo para recuperar o fôlego, Calhoun mandou ver em momento solo.

Living Colour

Bom, é fato que, por mais extraordinário que seja o batera (e ele é mesmo um dos melhores do mundo), o solo poderia ter dado lugar a uma ou duas músicas. Ainda assim, tirando a meia dúzia de pessoas que talvez desconheçam a inquietude musical e percussiva de Calhoun, a tônica do momento foi de respeito e reverência (bom, o que ele fez foi impressionante, então…). Com todo mundo de volta ao palco, o coro da plateia foi por Elvis is Dead, mas o que veio a seguir foi Love Rears its Ugly Head, numa versão tão espetacular que não deu para acompanhar Glover, uma vez que o vocalista jogou fora a melodia vocal original e improvisou lindamente.

E sabe quando um show tem clímax? Pois bem, rolou Elvis is Dead numa performance tão matadora que colocou Reid pulando e fazendo luxuosos vocais de apoio – sem contar a inserção de Hound Dog, imortalizada pelo próprio Rei do Rock, com uma interpretação que mereceu até Glover imitando seus trejeitos rebolativos. A sequência? Type, claro, e com a quinta marcha engatada para passar por cima de cada alma presente no Circo Voador. Simplesmente demolidora, com um encerramento destruidor que fez a banda ser ovacionada pela casa, a ponto de Glover, com enorme sorriso no rosto, ficar olhando para os companheiros com aquela cara de “vamos tocar mais!”. Tinha Time’s UpWallIgnorance is BlissLeave it Alone e um sem-número de outras pérolas, mas o show ficou por aí mesmo. Quer dizer, ficou nas 16 músicas executadas de maneira única num espetáculo irretocável e irresistível. Um espetáculo que não pode levar outros dez anos para acontecer no maltratado Rio de Janeiro.

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