LIVING COLOUR – SÃO PAULO (SP)

27 de fevereiro de 2026 - Tokio Marine Hall

Por Leandro Nogueira Coppi

Fotos: Belmilson Santos (*exceto onde indicado)

Quando o Living Colour passou por São Paulo em outubro de 2024, a visita coincidiu com as comemorações pelos 40 anos de formação da banda em Nova York, uma efeméride que o grupo já celebrava naquele período. Agora, ao retornar à cidade em 2026, o quarteto apresentou uma turnê latino-americana — com quatro datas no Brasil — que carregava explicitamente essa proposta no título: “The Best of 40 Years Tour”. Embora o nome faça referência àquele marco — hoje já ultrapassado, com a banda somando 42 anos de estrada — a excursão funcionou como uma retrospectiva da trajetória do grupo, em uma série de shows que percorreu diferentes fases da carreira do quarteto e destacou músicas que ajudaram a consolidar seu lugar na história do rock.

Nesta 12° visita do Living Colour ao Brasil, o local escolhido em São Paulo para receber o grupo foi novamente o Tokio Marine Hall, assim como em 2024. O espaço, no entanto, tem se tornado motivo de frustração para parte do público por conta de um detalhe difícil de entender — e de aceitar: o horário ruim de início dos shows principais, sempre marcados para as 22h, um dos mais tardios da cidade e que frequentemente acaba gerando transtornos no retorno para casa. Considerando que o set do Living Colour costuma ter aproximadamente duas horas de duração, a programação acaba complicando a vida de quem depende ou prefere utilizar transporte público para ir e voltar. Soma-se a isso o custo elevado dos carros por aplicativo nesse horário, especialmente para a maioria que mora mais distante do Tokio Marine Hall, e o resultado é um cenário que acaba desanimando parte da plateia, que muitas vezes se vê obrigada a sair antes mesmo do fim da apresentação. Ainda que insistir em questionar o horário das apresentações no Tokio Marine Hall possa não surtir resultado, não posso me esquivar de ressaltar a necessidade de haver maior consideração por essa parcela do público (principalmente o feminino), especialmente em se tratando de uma cidade violenta e perigosa como São Paulo.

Desde sua estreia no Brasil em 19 de janeiro de 1992, em Sampa, na primeira noite do extinto festival Hollywood Rock, ocasião que também marcou o primeiro show de Doug Wimbish com a banda — substituindo o baixista original Muzz Skillings —, o Living Colour conquistou no país uma base fiel de seguidores, entusiasmada por sua mistura de hard rock, metal, funk, jazz fusion, punk e hip-hop. E, mesmo diante do horário pouco convidativo do mais recente show na capital paulista, os fãs novamente compareceram em peso para prestigiar um dos grupos internacionais mais queridos pelo público brasileiro de rock.

Para a abertura, o Living Colour contou com a ainda pouco conhecida banda Madzilla (ou Madzilla LV), que retornava ao Brasil pela terceira vez — a primeira foi em 2023 abrindo para o Saxon e a segunda no ano passado como ‘opening act’ para a famosa dupla finlandesa Tarja e Marko Hietala, ex-companheiros de Nightwish.

Hoje radicado em Las Vegas (EUA), o grupo formado em Quito, Equador, atualmente divulga seu terceiro álbum, Angel Genocide, lançado uma semana antes do show. David Cabezas (vocal e guitarra), a guitarrista americana Sarah Dugdalle (não confundir com a atriz canadense de mesmo nome), Thomas (baixo) e Courtney Lourenço (bateria) tiveram cerca de 40 minutos para apresentar seu repertório.

Do novo álbum, executaram a faixa-título e Ashes of Light — isso sem contar a instrumental The Dawn of Glory, que foi usada como introdução no som mecânico. No restante do set, tocaram apenas outras três músicas, retiradas de trabalhos anteriores.

Ao vivo, o heavy/thrash do Madzilla não empolgou. Ainda que o público tenha sido respeitoso — muito por conta da simpatia do comunicativo David Cabezas — a música da banda soa genérica e não chega a engrenar. A qualidade do som também deixou a desejar. Além disso, a sonoridade do grupo nada tem a ver com a proposta do Living Colour, o que ajuda a explicar a apatia da plateia, que aplaudiu, mas não agitou.

Dessa vez, a produção não acertou na escolha da banda de abertura, ao contrário do que ocorreu em 2024, quando escalou o Black Pantera, que, com maior identificação com a atração principal, teve uma resposta bem mais vibrante do público. Ainda assim, vale destacar a performance da baterista Courtney Lourenço, que tocou com muita pegada — em dado momento, foi visível que ela chamou a atenção até de seus próprios companheiros de banda, que ficaram admirando seu breve momento solo.

A meia-hora seguinte resultou em um aumento considerável de público. Assim como na visita anterior do Living Colour, o prenúncio de que a banda estava prestes a subir ao palco veio quando a marcha imperial de “Star Wars”, tema do lorde dos Sith Darth Vader, ecoou no sistema de som. Em questão de segundos, Vernon Reid (guitarra), Doug Wimbish (baixo), Will Calhoun (bateria) e um debochado Corey Glover (vocal) surgiram no palco, ornamentado com o mesmo backdrop da turnê anterior, e seguiram rumo aos seus postos, enquanto Glover fazia uma cara de esnobe (de brincadeira, claro).

Assim que o vocalista desejou boa noite ao público em português e “dublou” a narração da introdução que se ouvia no som mecânico, a banda deu início ao show com a contagiante e cadenciada Leave it Alone, uma das melhores músicas de Stain, terceiro álbum do grupo, que na semana seguinte completou 33 anos.

Quando esses caras começam a tocar, é impossível focar em um ou outro — todos são monstros em suas funções, e você quer (ou precisa) acompanhar cada uma das peripécias dos quatro. Bendito Mick Jagger, que, no início do Living Colour, apoiou o grupo ao produzir demos, abrir portas na indústria e contribuir para a assinatura com uma grande gravadora. Além disso, colocou a banda para abrir shows dos Rolling Stones em 1989, ampliando ainda mais sua visibilidade.

Prosseguindo, o Living Colour trouxe o groove de seu primeiro álbum, Vivid, com a dançante Middle Man. Ali, Corey Glover e Will Calhoun — ambos vestidos com confortáveis dashikis —, começaram a dar o ar da graça: o primeiro soltando o vozeirão, com um grito agudo afinadíssimo no final da música; e o outro, despejando viradas cavalares na batera. Na sequência, atacaram com o cover de Memories Can’t Wait, do Talking Heads — um daqueles casos em que a versão supera a original. Destaque aqui para o “big boss” Vernon Reid, que a iniciou improvisando um solo invocado e seguiu detonando nos demais, mandando ver com seu estilo estranhíssimo — porém sempre funcional e singular — de palhetada com a mão direita. Além disso, fez uma boa parceria com Doug Wimbish nos contracantos em resposta a Corey Glover.

Depois de o nosso Denzel Washington da guitarra perguntar ao público, em português, se estava tudo bem, Ignorance is Bliss e Go Away deram amostras do lado mais pesado de Stain. Em seguida, Calhoun puxou uma levada na batera e foi acompanhado na sequência por Wimbish, que mandou um breve solo de baixo cheio de efeitos, antes de Vernon dar início ao riff da suingada Funny Vibe, cuja letra — uma das mais impactantes do Living Colour e, infelizmente, ainda atual — traz um desabafo sobre racismo, desigualdade e tensão social nos EUA. Nessa, Corey teve o auxílio massivo da plateia, que, quando preciso, cantou o nome da música em alto e bom som.

Um momento inesperado e bastante bacana da apresentação aconteceu quando, antes de a banda tocar Bi, outra de Stain, Corey Glover sentou na beira do palco e cantou Happy Birthday to You para uma moça que estava na pista, bem próxima ao palco. Como se não bastasse, ao final ele desceu e foi abraçá-la — um gesto de carinho que foi recompensado pela plateia, que gritou seu nome em coro.

A cena, além de espontânea, acabou remetendo diretamente à própria história de Glover com o Living Colour. Foi justamente ao cantar Happy Birthday to You em uma festa, em Nova York, que ele chamou a atenção de Vernon Reid, dando início ao caminho que o levaria à banda. Curiosamente, ele não entrou de imediato: chegou a fazer um teste sem sucesso, mas acabou sendo chamado novamente pouco tempo depois, assumindo de vez o posto de vocalista. Outra curiosidade sobre Glover é que, embora tenha começado a cantar com apenas seis anos de idade, queria principalmente ser ator — e chegou a conquistar um papel em Platoon (1986), clássico sobre a Guerra do Vietnã dirigido por Oliver Stone, vencedor de quatro Oscars, incluindo o de Melhor Filme.

Aproveitando o momento de interação com o público, Glover fez os fãs acompanhá-lo numa espécie de mantra, repetindo “Everybody” inúmeras vezes, antecipando a mencionada Bi, música em que Doug Wimbish novamente brilhou ao solar e inserir vários efeitos em suas linhas de baixo.

O show também teve seu “momento ecumênico” com uma versão de Hallelujah, de Leonard Cohen, cantada de forma muito bonita por Corey e dedicada por Reid à alma de Marielle Franco, socióloga e vereadora do Rio de Janeiro assassinada em 2018.

Na sequência, a banda mandou a indispensável Open Letter (To a Landlord), tema composto por Vernon Reid com a cantora e poeta americana Tracie Morris, como uma carta aberta — uma crítica social contundente que usa a figura do “senhorio” como símbolo de um sistema maior que lucra com a vulnerabilidade dos mais pobres.

Antes, porém, Corey Glover proporcionou alguns minutos de espetáculo vocal solo, como costuma fazer antes (e ao final) da execução da música — um dos momentos mais aguardados de um show do Living Colour. No alto de seus 61 anos, Glover continua sendo um dos melhores e mais versáteis vocalistas da atualidade. Ao final da música, ele foi “apresentado” ao público por Mr. Vernon Reid.

Depois de ser bastante aplaudido, Glover passou a bola para Will Calhoun brilhar e se dirigiu à lateral do palco para testemunhá-lo executar um de seus criativos solos de bateria. Calhoun, que sempre prepara algo especial para esse momento, após os primeiros batuques levantou-se, foi até seu pad eletrônico e surpreendeu ao inserir alguns efeitos, tocando o instrumento tanto com as baquetas quanto com as próprias mãos.

De volta ao kit tradicional, Calhoun deixou a plateia arrepiada tocando o ritmo tribal da versão do grupo brasileiro Barbatuques para Baianá, canto tradicional de domínio público que rolou no som mecânico. Estudioso dos ritmos brasileiros e já tendo tocado e gravado com diversos músicos do país, ele se reconectou com o Brasil nesse momento do show.

Foi um solo tão impactante quanto os que realizou em apresentações anteriores por aqui, quando utilizou baquetas vermelhas luminosas — que mais pareciam tochas flamejantes — além de seu peculiar aFrame, um cilindro percussivo de estrutura eletrogênica com o qual ele costumava descer para tocar à frente do palco, próximo ao público, proporcionando um momento singular em sua performance.

De volta ao palco, Vernon, Doug e Corey cumprimentaram Will, e foi bonito perceber, nesse e em outros momentos do show, o quanto os caras torcem e incentivam uns aos outros — um sinal claro de amizade sincera.

Era hora de a banda sair de Vivid Stain e explorar um pouco do segundo álbum, Time’s Up (1990). A escolhida foi a pacata e pouco lembrada This is the Life. No início, Corey Glover parecia em transe; ao longo da execução, Vernon Reid conduziu um solo incendiário e relativamente extenso. Houve até um momento curioso: antes de encerrá-lo, ele e Glover ficaram se encarando até retornarem para as partes cantadas da música.

Antes da próxima, Reid disse: “Eu odeio o fato de só conseguir falar inglês. Eu sou muito ruim nisso. Meu português é horrível” — Corey concordou com ele, garantindo algumas risadas do públido. O guitarrista continuou: Mas tudo o que posso dizer é que nós apreciamos vocês demais. De verdade. E muitos de vocês estão com a gente há muito, muito tempo. Caminhando junto com a gente há muito, muito tempo. Na verdade, o primeiro show do Doug com a banda foi aqui neste país. Vou deixar o Sr. Wimbish assumir agora.”

Com a deixa, o baixista cumprimentou o público e recordou: “Vocês sempre chegam com tudo! Sim, meu primeiro show foi aqui, e sou muito grato por poder tocar para vocês pela primeira vez com o Living Colour. Temos muito orgulho do que fazemos. Sabe, estamos rodando o mundo há muito tempo. Então, a próxima música que vamos tocar vem do meu irmão, Will Calhoun, na bateria. Então, confiram aí”.

E foi assim que a banda emendou a contagiante Pride, faixa de Time’s Up, que também dá nome à compilação lançada em 1995 pelo Living Colour.

O momento ainda era de Wimbish, que contou:

“Ok, se liga nessa. Bem, antes de eu me juntar ao Living Colour — nem sempre eu fui do Living Colour — eu fiz parte da cozinha original da Sugarhill Gang, que gravou com o Grandmaster Flash and the Furious Five (N.R.: banda que inspirou Anthony Kiedis, do Red Hot Chili Peppers, em seu estilo de cantar). A Sugarhill Gang, The Sequence, Funky 4 + 1, e muitos e muitos outros artistas. Lá no começo do hip-hop, eu ajudei a construir a casa do hip-hop — e trouxemos o hip-hop até aqui, para São Paulo. Então, saca só: Living Colour, nós vamos fazer algo especial só para vocês. Vocês estão comigo? Senhoritas, vocês estão comigo? Parças, vocês estão comigo? Todo mundo diga: Ho!”

Depois de todos repetirem o que o baixista pediu, ele assumiu o vocal principal e, com o apoio de seus três parceiros de longa data, pôs todo mundo para regredir no tempo e dançar ao som de um medley formado por trechos de músicas de Melle Mel, The Sugarhill Gang e Grandmaster Flash & The Furious Five. Pena que foi curto, pois estava muito divertido!

Ao longo do restante do show, o Living Colour dedicou ainda homenagens a dois grandes nomes do reggae, Dawn Penn e Junior Murvin, tocando (não sequencialmente) os maiores sucessos de cada um dos artistas jamaicanos, You Don’t Love Me (No, No, No) e Police and Thieves, respectivamente.

O clima no Tokio Marine Hall ferveu ainda mais quando o Living Colour começou a despejar hit atrás de hit de seus primeiros três álbuns, começando pela festejada Glamour Boys e pela cadenciada Love Rears its Ugly Head. Após um breve ritmo africano conduzido por Calhoun nos cowbells (instrumento que ele usou bastante em várias músicas), veio Type, em uma versão ainda mais acelerada do que a original.

A porradaria prosseguiu com Time’s Up, que ganhou contornos de reggae ao longo da execução, além de interação com a plateia e um trava-língua praticamente inacompanhável do incansável Corey Glover que tirou fôlego sabe-se lá de onde.

Já se aproximando do final do show, foi a vez de uma das músicas mais esperadas da noite, a viciante e atemporal Cult of Personality, que, como de praxe, foi cantanda por cada alma ali presente. Em seguida, Vernon Reid brincou com alguns acordes sem distorção que, em poucos instantes, se revelaram Solace of You, música soft de Time’s Up, que traz elementos de reggae — especialmente nos acentos e na levada — embora não siga de forma clara o padrão clássico de “skank”.

Nada poderia ter sido mais bonito do que a banda toda reunida à frente do palco, com apenas Reid tocando e a plateia cantando sozinha o refrão, comandada por Glover, enquanto Calhoun batia com baquetas mallets nas peles da frente dos bumbos e finalizava com um ‘fade out’ nos pratos.

Esse foi mais um show de alto nível do Living Colour, com qualidade de som impecável do início ao fim. Pena que não houve espaço no repertório para músicas dos outros três álbuns de estúdio da banda, Collideøscope (2003), The Chair in the Doorway (2009) e Shade (2017) — algo compreensível, já que a turnê se chama “The Best of 40 Years Tour” e os maiores sucessos do grupo se concentram justamente em seus três primeiros trabalhos. Com a turnê já encerrada o Living Colour agora volta suas atenções para as gravações de seu próximo álbum, que quebrará um hiato fonográfico que já dura quase dez anos. 

Mais do que uma celebração de carreira, o show deixou evidente por que a banda segue relevante após quatro décadas: a combinação entre técnica apurada, peso, groove e consciência social continua soando atual e necessária. Entre momentos de virtuosismo individual — como o solo inventivo de Will Calhoun — e a forte conexão coletiva no palco, o quarteto mostrou que sua química permanece intacta.

Living Colour – setlist:

Leave it Alone

Middle Man

Memories Can’t Wait (cover do Talking Heads)

Ignorance is Bliss

Go Away

Funny Vibe

Bi

Hallellujah (cover de Leonard Cohen)

Open Letter (to A Landlord)

  • Solo de bateria

This is the Life

Pride

White Lines (Don’t Don’t Do it) / Apache / The Message

You Don’t Love Me (No, No, No) (Cover de Dawn Penn)

Glamour Boys

Love Rears its Ugly Head

Type

Police and Thieves (cover de Junior Murvin)

Time’s Up

Cult of Personality

Solace of You

Madzilla – setlist:

The Dawn of Glory (Intro)

Ashes of Light

Vengeance

Warfare Within

Angel Genocide

A Deadly Threat

 

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