
Por Fernando Queiroz
Fotos: André Santos
O black metal nórdico é infestado por bandas que muito se parecem entre si – mal gravadas e mixadas, com músicas sempre seguindo aquele mesmo padrão. Não é o caso dos suecos do Marduk, uma banda que evoluiu muito ao longo dos anos, ao mesmo tempo que nunca perdeu sua essência, o que é difícil de se achar por aí. De fato, as mudanças de músicos ajudaram bastante, e hoje temos talvez a melhor da história deste tradicional grupo, que data de 1990 – apenas o guitarrista Morgan Hakansson continua desde o começo, hoje acompanhado por Daniel Rostén nos vocais desde 2004, e Simon Schilling, desde 2019 nas baquetas. Mesmo diferente em muitos pontos, não escaparam das polêmicas típicas do gênero e recentemente o baixista Joel Lindholm foi sumariamente demitido após fazer uma saudação nazista em vídeo. Sua demissão, diga-se, é um ponto positivo para eles, que não toleraram tal atitude! Desde então, eles tocam com Simon Wizén como músico convidado.
Com diversas passagens pelo Brasil, não era nada inédito vê-los para grande parte dos presentes. Mesmo assim, acreditem, tivemos casa cheia! O Manifesto Bar, um lugar curioso e incomum para esse tipo de som, com capacidade atualmente para cerca de mil pessoas, foi uma escolha acertada, pois foi um dos shows de black metal com melhor qualidade de áudio que já presenciei.
Bem, pela primeira vez desde que me lembro, preciso fazer elogios ao horário escolhido no Manifesto! Shows começando às 21h30, para acabar antes das 23h é exatamente o que precisamos ter mais, em especial em um domingo. Apesar disso, abertura da casa às 18h e com banda de abertura às 20h não é o ideal, e torna tudo mais cansativo, em especial para aqueles que querem ficar mais à frente. Outro detalhe que não podemos deixar de frisar é a demora que houve na fila – por conta de termos que abrir comanda na entrada do bar, as coisas acabam sendo mais lentas que o razoável. Como resolver isso? Não faço ideia, mas é algo que deve ser pensado pela direção.
Duas longas horas após a abertura da casa, e para um público ainda incompleto, que ia aos poucos entrando, o evento finalmente foi iniciado pela Torches of Nero, banda de black metal gaúcha formada no ano de 2021.
Com um visual diferenciado, o trio formado por Baal Seth Penitent (vocal e guitarra), Blackpest (baixo) e Antimater (bateria) aproveitou os 45 minutos que tinha de palco para divulgar seu mais recente lançamento, o álbum Coronation of Supreme Blasphemy (Live at Necropole Hall) — gravado em abril de 2023 —, segundo trabalho ao vivo dos gaúchos, que também contam com dois EPs em seus quatro anos de existência.

No intervalo de quase uma hora entre as apresentações, um problema: pouco antes de começar o show principal, um encrenqueiro, por algum motivo, quis crescer pra cima dos funcionários da casa e de outros presentes ao redor, e foi retirado do recinto com um mata-leão. Do lado de fora, a polícia foi acionada. O que houve depois, confesso que não sei, pois os headliners logo entrariam em cena.
Finalmente, às 21h30 foi o momento em que os suecos do Marduk subiram no palco. Agora, sim, qualidade! Sob gritos e aplausos, a banda veio com sua poderosa Panzer Division Marduk, o que faz sentido, pois estão comemorando esse álbum, um de seus maiores clássicos (talvez o maior), nessa turnê. Curta, reta e direta, como é de se esperar do gênero. Mal deu tempo de respirar e veio outro clássico, Baptism by Fire! O setlist seguia exatamente o mesmo que vinham fazendo em sua turnê na América do Sul, o que era esperado. Sob gritos de “Marduk, Marduk”, um breve “good evening, São Paulo” e já foram com mais pedrada, Christraping Black Metal, seguida por Scorched Earth.

O som do Manifesto Bar estava impecável, a iluminação, para os padrões do que se espera do black metal, era boa, embora confesso que vermelho demais ou azul demais incomoda um bocado olhando por muito tempo. Tecnicamente, como dito anteriormente, essa é possivelmente a melhor formação da banda! Embora não tenha gravado o disco em questão, Daniel Rótsen faz as linhas de voz perfeitamente, e em vários momentos, até melhor que seu antecessor, Legion, vocalista na gravação original. O público estava realmente curtindo – bem, da forma que é comum o pessoal do estilo curtir, e a cada novo som, a banda era mais ovacionada. A frieza na interação entre banda e plateia, porém, não é incomum, mas para quem não é acostumado a shows do tipo, gera alguma estranheza.

O disco Panzer Division Marduk foi tocado em sua íntegra, mas com apenas oito músicas de duração relativamente curta, tinha espaço para mais, claro. Agora, era hora de temas variados. As escolhas foram certas, sem arriscar: Those of the Unlight, do disco de mesmo nome, foi seguida de With Satan and Victorious Weapons. Seguimos com Shovel Beats Sceptre, Slay the Nazarene e The Black… O show terminou com The Blonde Beast, e a banda saiu do palco em seguida. Curiosamente, todos ficaram esperando durante vários minutos para o bis, mas logo desistiram – o som ambiente voltou a tocar, e nem sinal de que voltariam para o encore. Diferentemente do que vinham fazendo até agora na tour, Wolves ficou de fora, por algum motivo inexplicável. Um pouco decepcionante, eu diria, mas tudo bem, o que apresentaram valeu.

Um show curto, de apenas uma hora e dez minutos, é difícil dizer que valeu o valor do ingresso, mas a performance, o som, o horário e o setlist – mesmo que reduzido em uma música para nós – compensaram! Não foi uma apresentação histórica, não foi o melhor show que um fã podia esperar, mas de forma alguma é possível dizer que alguém tenha saído desapontado! A banda entrega o black metal “raiz”, aquele que todo apreciador do som extremo nórdico espera, e dessa vez com uma ótima produção, o que é um bônus. O Marduk é figurinha carimbada no roteiro de shows pelo Brasil e com frequência vem girar por aqui – a última vez havia sido em 2023 –, então posso dar a garantia: veremos eles de novo, a não ser que alguma tragédia aconteça. Quem os viu pela segunda ou mais vezes, presenciou um ótimo show, o que era esperado. Quem nunca os tinha visto, com certeza saiu satisfeito. Só, por favor, no próximo, que tenhamos uma apresentação mais longa!


Marduk setlist:
Panzer Division Marduk
Baptism By Fire
Christraping Black Metal
Scorched Earth
Beast of Prey
Blooddawn
502
Fistfucking God’s Planet
Those of the Unlight
With Satan and Victorious Weapons
Shovel Beats Sceptre
Slay the Nazarene
The Black…
The Blond Beast

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