Por Leandro Nogueira Coppi
Quando Dave Mustaine anunciou, em 2025, que o novo e homônimo álbum marcaria a despedida do Megadeth, a reação inicial foi marcada por desconfiança. Para muitos fãs, soou como mais um anúncio calculado — um golpe de marketing do tipo que tantas bandas usam para inflar expectativas, impulsionar vendas e, no fim, voltar atrás. No entanto, esse ceticismo começou a se dissipar quando o icônico fundador, vocalista e guitarrista de uma das bandas mais importantes do thrash metal detalhou as razões por trás da decisão. Ao expor as limitações físicas que vêm comprometendo sua execução na guitarra — incluindo a progressão da contratura de Dupuytren, condição degenerativa que afeta os tendões das mãos, além de dores crônicas e problemas na coluna —, o discurso ganhou peso real. A partir daí, a ansiedade dos fãs se intensificou, e a espera pelo disco deixou de ser apenas curiosidade para assumir contornos de comoção, tristeza e gratidão. O álbum Megadeth passou a ser percebido não só como um lançamento aguardado, mas como um possível ponto final carregado de significado para uma das carreiras mais longevas e influentes do metal. Ao admitir que já não consegue tocar a própria música que criou com o mesmo conforto, Mustaine, de 64 anos, transforma este 17° álbum de estúdio em um registro de despedida consciente, marcado pela noção de encerramento e pela necessidade de concluir o ciclo em seus próprios termos.
Apesar dos problemas relatados, Mustaine não aliviou nos riffs e solos. Ao lado de seu novo companheiro de cordas, o finlandês Teemu Mäntysaari, entrega um trabalho visceral, à altura de uma banda que, ao longo de sua trajetória, se tornou referência para gerações de guitarristas. Na cozinha, Dirk Verbeuren e James LoMenzo — baixista que registra aqui seu terceiro trabalho de estúdio com a banda, 17 anos após Endgame — formam uma espinha dorsal afiada ao longo de todo o disco e também encontram espaço para momentos de destaques individuais.
Megadeth, aliás, entra na prateleira dos trabalhos mais colaborativos da banda. Exceto por uma única música assinada apenas por Dave Mustaine, todas as demais contam com participações de outros integrantes no processo de composição. Mäntysaari, por exemplo, estreia quebrando o recorde do brasileiro Kiko Loureiro, que no álbum anterior do Megadeth selou parceria com Mustaine em oito músicas, tornando-se agora, com nove coautorias, o guitarrista que mais colaborou em composições em um único disco do grupo.
De modo geral, Megadeth não soa como uma simples continuidade dos trabalhos anteriores, o premiado Dystopia (2016) e The Sick, The Dying… And the Dead! (2022). Trata-se de um disco que preserva o peso e a velocidade característicos da banda, mas que vai além ao resgatar referências do início de carreira e, sobretudo, o senso melódico, mais cadenciado e climático, explorado em álbuns como Countdown to Extinction (1992), Youthanasia (1994) e Cryptic Writings (1997). Há ainda pequenos acenos a outros trabalhos posteriores, enquanto as composições se mostram mais diretas, com estruturas mais enxutas e objetivas.
Por carregar esse caráter de despedida, Megadeth não se presta a uma análise superficial ou restrita às faixas de maior impacto. Com ótima produção, novamente assinada por Chris Rakestraw e Dave Mustaine — parceria iniciada em Dystopia —, o disco pede um olhar direto, música por música, já que cada faixa cumpre um papel na construção desse possível encerramento. Um ‘track by track’ se mostra, portanto, a abordagem mais adequada para compreender o álbum em sua totalidade.

Track by Track
Tipping Point: primeiro single do álbum, abre o novo material com um riff, executado por Teemu que gruda de imediato. Em seguida, um breve solo de Mustaine antecipa um segundo e mais furioso riff de seu parceiro, imprimindo à composição uma velocidade atroz, especialmente sob a condução voraz de Dirk Verbeuren. Após os solos principais, a música desacelera gradualmente até ganhar um ‘plot twist’, com novo riff e uma levada claramente inspirados pela N.W.O.B.H.M.
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