
Por Leandro Nogueira Coppi
Fotos: Roberto Sant’Anna (*exceto onde indicado)
Antes de qualquer acorde ecoar no Allianz Parque, o Monsters of Rock 2026 já enfrentava um julgamento antecipado. Realizado no dia 4 de abril, o festival teve seu line-up — com Guns N’ Roses, Lynyrd Skynyrd, Extreme, Halestorm, Yngwie Malmsteen, Dirty Honey e Jayler — no centro de discussões acaloradas, comparações com edições anteriores e uma enxurrada de críticas que colocavam em dúvida a força do evento antes mesmo de acontecer. A escalação, marcada por uma inclinação mais voltada ao hard rock e ao classic rock, dividiu opiniões desde o anúncio.
Pesou nesse cenário o fato de muitos reclamarem da ausência de nomes mais ligados ao heavy metal, enquanto outros questionavam a escolha do Guns N’ Roses como headliner, já que a banda havia se apresentado no país menos de um ano antes. Também houve críticas à presença dos grupos novatos Dirty Honey e Jayler, vistos como ainda pouco conhecidos e distantes do status associado ao próprio nome do festival. Para muitos, o veredito parecia claro — ainda que prematuro.
Mas nem sempre vale se guiar pelo que se lê nas redes sociais. Apesar de a edição mais recente do festival ter sido alvo de críticas na internet — com muitos afirmando que não compareceriam por considerá-la a mais fraca desde a estreia no país, em 1994 —, e de, nas primeiras horas, o público ainda ser reduzido, o evento ganhou força ao longo do dia e terminou com cerca de 45 mil pessoas — um bom número, considerando que a capacidade do estádio suporta 55 mil em grandes eventos.
Admito que concordo com muitos dos apontamentos em relação aos nomes escalados. No entanto, é preciso considerar que, com várias bandas anunciando aposentadoria, cancelamentos de turnês por problema de saúde, além da dificuldade de negociação com certos artistas por diferentes fatores, tem se tornado cada vez mais desafiador para qualquer festival anual montar um line-up. Por outro lado, é justamente por essas e outras razões que vejo com bons olhos a presença de novas promessas — afinal, é preciso apostar na renovação do rock e do heavy metal.

Os mestres de cerimônia
A condução do festival ficou nas mãos de dois nomes de peso no universo do rock. O norte-americano Eddie Trunk, um dos jornalistas e apresentadores mais respeitados do gênero — conhecido por programas como That Metal Show e Trunk Nation —, retornou ao Brasil após participar da edição de 2013 do Monsters of Rock, reforçando sua relação com o público brasileiro e com o próprio evento. Ao seu lado esteve uma figura já tradicional do festival, nosso velho guerreiro Walcir Chalas, fundador da loja e antigo selo Woodstock e ex-apresentador do programa Comando Metal da rádio 89FM, personagem marcante na difusão do rock e do heavy metal no país ao longo de décadas e presença constante em iniciativas ligadas à cena.
Jayler
Formada há apenas quatro anos, a banda Jayler foi convidada para abrir a edição de 2026 do Monsters of Rock. O fato de ter sido escalada mesmo contando apenas com um EP em sua discografia, A Piece in Our Time, de 2023, remete à história do início de carreira do Dr. Sin, quando o grupo brasileiro se apresentou no extinto Hollywood Rock, em 1993, também ainda sem ter um álbum completo lançado.
No caso dos jovens músicos britânicos James Bartholomew (vocal, guitarra e gaita), Tyler Arrowsmith (guitarra), Ricky Hodgkiss (baixo) e Ed Evans (bateria), eles se preparam para dar um passo importante na carreira com o lançamento de seu primeiro álbum, Voices Unheard, previsto para o fim de maio.

Confesso que estava receoso quanto à recepção do público, principalmente pelo fato de a banda ser descaradamente influenciada pelo Led Zeppelin — tanto no som quanto no visual e, sobretudo, no estilo vocal de Bartholomew, características que ajudaram o Jayler a viralizar nas redes sociais em 2025.
As madeixas loiras encaracoladas e os gestuais do frontman no palco não deixam dúvidas sobre a admiração por Robert Plant. Ainda assim, ao contrário da resistência frequentemente enfrentada pelos americanos do Greta Van Fleet, também taxados de cópia do Zep, o Jayler foi, curiosa e positivamente, melhor assimilado pelo público brasileiro — afinal, beber da fonte da banda de Plant, Jimmy Page, John Paul Jones e John Bonham não é exclusividade das duas bandas contemporâneas; no passado, nomes como Great White e Kingdom Come já evidenciavam esse viés.
Mesmo com o horário cedo, às 11h30, a apresentação do Jayler foi respeitada — e, em vários momentos, ovacionada, com aplausos e palmas acompanhando a banda ao longo do set.

Apesar de o Jayler ainda não ser muito conhecido em terras brasileiras, a banda conseguiu convencer o público que compareceu ao Monsters — e também quem esteve na Audio dois dias antes, quando o grupo realizou um show de aquecimento ao lado do Dirty Honey (leia a cobertura aqui).
Do repertório, algumas músicas se destacaram ao vivo, como a energética Down Below, que abriu a apresentação e ganhou videoclipe semanas antes de a banda desembarcar em São Paulo, além de The Getaway, Riverboat Queen e, principalmente, The Rinsk, que encerrou o set com uma longa improvisação — incluindo um solo de guitarra do próprio James Bartholomew, executado, em parte, com o instrumento nas costas.
No palco, ele é mesmo o grande destaque: carismático e comunicativo, o frontman canta muito bem, com segurança e sem economizar nos agudos. Em alguns momentos, quando não está na guitarra, assume a gaita e adiciona ainda mais personalidade às músicas.
O Jayler fez um set de apenas 45 minutos, mas deixou uma impressão bastante positiva. Com mais tempo de palco, dificilmente alguém reclamaria — apesar de a qualidade de som não ter sido das melhores, especialmente por conta da reverberação natural de um espaço ainda longe de estar cheio, com um público que só aumentaria ao longo do dia.

Dirty Honey
Também ainda pouco conhecido do grande público brasileiro, o Dirty Honey foi a atração seguinte do dia e, como já mencionado, havia dividido o palco da Audio com o Jayler na quinta-feira, 2 de abril, sendo o headliner na ocasião. A banda já soma quase dez anos de atividade e dois discos de estúdio — o mais recente, Can’t Find the Brakes, lançado em 2023. Nesse período, o grupo ganhou visibilidade ao se tornar a primeira banda independente a liderar as paradas de rock da Billboard, além de ter aberto shows para nomes como KISS e The Who.
Contando com uma qualidade de som um pouco superior à do Jayler, o quarteto formado por Marc LaBelle (vocal), John Notto (guitarra), Justin Smolian (baixo) e Jaydon Bean (bateria) abriu a apresentação com Won’t Take Me Alive, faixa de seu trabalho mais recente. Na sequência, LaBelle — usando óculos de lentes amarelas que refletiam até a alma —, apresentou a banda como oriunda da Califórnia, criando o gancho para California Dreamin’, um dos principais destaques da carreira do Dirty Honey.

E falando em hits, o Dirty Honey já acumula um punhado deles, facilmente conferidos no YouTube por meio de seus videoclipes. Além dos dois singles já mencionados, não faltaram no repertório outros como Don’t Put out the Fire, Another Last Time, When I’m Gone e Rolling 7s.
Um dos momentos mais marcantes do show aconteceu durante Don’t Put out the Fire. Na hora do solo de John Notto, Marc LaBelle desceu do palco para sentir de perto o calor do público brasileiro, indo cantar junto à galera que estava encostada na grade que separava a pista premium do pit dos fotógrafos — no show da quinta-feira, ele foi ainda mais longe, literalmente, ao levar uma cadeira até o meio da pista para cantar dali, em meio à plateia.

Assim como o Jayler, musicalmente o Dirty Honey bebe diretamente da fonte do rock clássico dos anos 70, com influências claras de Aerosmith e The Black Crowes — banda que também construiu sua identidade explorando esse tipo de sonoridade e estética vintage. A similaridade com os “corvos negros” ficou ainda mais evidente na bonita balada Another Last Time. E, à semelhança da primeira atração do dia, o Dirty Honey também conquistou o público brasileiro, tanto pela sonoridade quanto pela presença de palco e pelo carisma de seu vocalista.
A produção do Monsters of Rock, ao apostar na abertura de espaço para novas promessas do rock, acabou acertando nas escolhas. Antes criticadas por não soarem atrativas para parte do público, Dirty Honey e Jayler se mostraram boas revelações, capazes de aproximar novas e antigas gerações da sonoridade e do espirito do rock da década de 70, provando que nem sempre uma banda precisa soar moderna ou original para ser cativante.
Halestorm
Exatos dez anos separavam o Halestorm do Brasil desde sua terceira visita ao país, quando se apresentou no extinto festival Maximus Festival, poucos meses após conquistar um Grammy na categoria “Melhor Performance de Hard Rock/Metal” com Love Bites (So Do I), tornando-se a primeira banda de rock com uma vocalista mulher a vencer nessa categoria.
De lá para cá, o grupo consolidou ainda mais seu nome dentro do rock contemporâneo, impulsionado por turnês consistentes, números expressivos nas plataformas digitais e reconhecimento na indústria. Liderado pela carismática Lzzy Hale, que no início de 2024 realizou alguns shows como vocalista do Skid Row, auxiliando a banda após a saída do sueco Erik Grönwall, o Halestorm retornou ao Brasil em turnê do álbum Everest, lançado em 2025.

Instantes após Eddie Trunk anunciar a banda, Lzzy, seu irmão Arejay Hale (bateria), o guitarrista Joe Hottinger, seu namorado há mais de vinte anos, e o baixista Josh Smith invadiram o palco mostrando o peso de seu hard rock moderno com Fallen Star, música que também abre o novo trabalho. Em seguida, veio a não menos energética Mz. Hyde, do segundo álbum The Strange Case of (2012).
Apesar de ser bem mais conhecida no Brasil do que as bandas anteriores, o Halestorm ainda divide opiniões entre o público. Particularmente, considero Lzzy Hale uma cantora talentosíssima, uma das melhores dos últimos tempos, além de ser uma frontwoman de muita atitude e carisma, e também uma guitarrista e pianista competente. Seu irmão, Arejay Hale, é um baterista visceral e, na minha opinião, o segundo grande destaque da banda. Ainda assim, nem tudo do Halestorm me fisga em estúdio; ao vivo, porém, a impressão é bem mais positiva.

Como de praxe, Lzzy Hale mostrou ter o público nas mãos: a cada grito rasgado, em que demonstrava um fôlego invejável, a cada solo — individual ou em parceria com Joe — e a cada interação, a cantora levava o público — especialmente o feminino — à loucura.
Várias músicas também agitaram a plateia, como I Miss the Misery, a premiada Love Bites (So Do I), Watch Out!, a pesada Freak Like Me e a balada Like A Woman Can, na qual Lzzy entregou uma performance impecável, se desdobrando entre vocais, guitarra e teclado.
Porém, nada superou o momento seguinte do show. A começar pela forma como a cantora seduziu geral ao anunciar a próxima música: “Esperei alguns anos para dizer algo… Brasil, você me ama? Brasil, você realmente me ama?” — a resposta dos fãs, claro, foi positiva. “Eu sinto prazer com vocês. Sintam prazer comigo!” Foi a deixa para I Get Off, do primeiro álbum da banda, Halestorm (2009). Nessa, Lzzy realmente deu um show, especialmente no trecho em que a banda deixou o palco e ela conduziu a performance sozinha, dando uma verdadeira aula de canto e de interpretação.

Na sequência, Lzzy Hale deixou a guitarra de lado e voltou a brilhar em Familiar Taste of Poison, para depois dominar o palco em Rain Your Blood On Me até a entrada do breve solo de seu irmão, que arrancou algumas risadas do público quando trocou o par de baquetas convencionais por outro de tamanho gigante.
Após I Gave You Everything, outra do novo álbum Everlast, na qual Lzzy novamente se dividiu entre a guitarra e o teclado, a banda se despediu e distribuiu palhetas e setlists para a plateia. Em uma apresentação marcada pela entrega e pela forte sinergia com os fãs, o Halestorm agradou inclusive muitos daqueles que torciam o nariz. Depois de matar a saudade do público paulistano, a banda seguiu para Curitiba em companhia do Extreme, que ainda estava por vir.

Yngwie Malmsteen
Com o estádio já bem mais cheio, a expectativa para o show de Yngwie Malmsteen dividia opiniões. Confesso que, assim como alguns, peguei certo ranço do desairoso. Primeiro, porque há tempos ele não lança nada que chegue aos pés de suas obras-primas do passado; segundo, porque, ao optar por não contratar um vocalista, decidiu assumir a função e o resultado é bastante questionável.
Mas a gota d’água, de fato, foi o que ele aprontou em sua passagem anterior por São Paulo, em 2022, quando, momentos antes da apresentação, simplesmente vetou os shows das bandas de abertura e ainda proibiu a entrada dos próprios funcionários da casa durante a passagem de som. Isso sem contar que já deu no saco as declarações de Yngwie reclamando de seus ex-vocalistas.
Mas, enfim, vamos ao show…

Faltando quinze minutos para as duas da tarde, estava tudo pronto para que o ícone do metal neoclássico, influenciado por Niccolò Paganini e Johann Sebastian Bach, assumisse o palco. De repente, da coxia, ele disparou algumas notas de sua guitarra. Logo em seguida, Eddie Trunk voltou ao palco e perguntou: “Vocês ouviram essa guitarra? Vocês sabem que essa guitarra só pode ser de uma pessoa, certo? Um dos maiores guitarristas do mundo está aqui hoje no Monsters of Rock. Vocês estão prontos? Por favor, recebam no palco o maestro Yngwie Malmsteen!”.
Sob uma introdução de teclado, Malmsteen surgiu sorridente por trás de uma parede de carcaças cenográficas de amplificadores Marshall, chutando o ar e fazendo caras e bocas, dando início à clássica Rising Force — música que dá nome ao seu álbum de estreia, de 1984, quando ainda tinha apenas 21 anos. Apesar do disco de mesmo nome, Rising Force só foi gravada no quarto trabalho de estúdio, Odyssey, de 1988, um registro de sonoridade mais acessível e voltado às canções. Originalmente interpretada por Joe Lynn Turner, no show foi o tecladista Nick Marino quem assumiu os vocais.

Ao longo da execução de Rising Force, Malmsteen passou a reclamar do microfone com a equipe. Antes da troca do equipamento, ele e sua banda encaixaram trechos de Top Down, Foot Down e No Rest For the Wicked, faixas instrumentais presentes em World on Fire, lançado há exatos 10 anos.
Antes da música seguinte, o guitarrista voltou a demonstrar insatisfação, e o microfone acabou sendo substituído — ainda assim, seu roadie também ouviu queixas em relação à guitarra. Saiba: trabalhar com Malmsteen é estar sempre atento e suar a camisa, literalmente.

Com tudo aparentemente nos conformes, Yngwie assumiu o microfone em Soldier, mais uma de World on Fire, que também não foi tocada na íntegra. Honestamente, não acho que ele faça feio na função; cumpre o básico sem desafinar, mas está longe de se comparar a qualquer um de seus ex-vocalistas — Joe Lynn Turner, Jeff Scott Soto, Marc Boals, Göran Edman, Michael Vescera, Doogie White, Tim “Ripper” Owens, Mats Levén e Jorn Lande.
Em 2025, Malmsteen lançou seu novo álbum ao vivo, Tokyo Live — gravado em maio de 2024, em Tóquio, como parte da turnê mundial que celebrou seus 40 anos de carreira — e, no Monsters of Rock, pelo menos até Wolves at the Door, ele manteve a mesma sequência no repertório, cantando também em Now Your Ships Are Burned, entre outras.
Após Wolves…, o guitarrista executou um medley com trechos de algumas composições próprias, encerrando com a parte do solo de Bohemian Rhapsody, do Queen. Ao longo do set, outro clássico do rock que ganhou uma breve versão foi Smoke on the Water, do Deep Purple — já bastante saturada —, que não soou bem na voz de Malmsteen. Também, pudera: se não dá para compará-lo aos cantores mencionados, imagine com Ian Gillan!
Resumo geral da “ópera”: para os guitarristas aficionados por Yngwie Malmsteen, a apresentação foi, como esperado, uma verdadeira vitrine de arpejos, sweep picking e escalas harmônicas menores. Já para quem não domina o instrumento, mas aprecia a obra do sueco — especialmente o período entre os anos 80 e o início dos 90 —, o saldo positivo ficou mais concentrado na segunda metade do show, marcada por clássicos como Fire and Ice, Evil Eye, Trilogy Suite Op: 5, Black Star e a derradeira I’ll See the Light Tonight. Pena que alguns outros clássicos ficaram de fora, tais como I’m A Viking e You Don’t Remember, I’ll Never Forget, que talvez teriam funcionado na voz de Nick Marino, que se mostra mais consistente como cantor do que Yngwie.
Para quem não se encaixava em nenhum desses perfis, era visível certo cansaço e apatia, algo compreensível diante de um repertório majoritariamente instrumental. Soma-se a isso um pacote de recursos de palco que já perdeu o impacto com o tempo — solos com os dentes, guitarras arremessadas ao alto e demonstrações de velocidade extrema.
No fim, fica a impressão de um artista que ainda sustenta sua reputação pela técnica e pelo legado, mas cuja apresentação pouco dialoga com o presente — agradando mais pela memória do que pelo fator surpresa.

Extreme
Do início do dia até o fim do show de Yngwie Malmsteen, o calor predominou em São Paulo. Bastou, porém, o palco estar pronto para o Extreme que a chuva começou a cair com força. O grupo de Boston, liderado pelo guitarrista português Nuno Bettencourt, atravessa um momento favorável na carreira desde o lançamento de seu álbum mais recente, Six (2023), que foi bem recebido por crítica e público — inclusive no Brasil.

Os fãs da banda tiveram que esperar longos quinze anos por um novo trabalho desde Saudades de Rock, que passou praticamente despercebido por aqui. Em contraste, Extreme II: Pornograffitti foi um fenômeno global no início dos anos 90, impulsionado sobretudo pelo enorme sucesso de More than Words, além dos hits secundários Hole Hearted e Get the Funk Out. Já o disco seguinte, Three Sides of Every Story, de 1992, manteve a banda em evidência com singles como Rest in Peace, Stop the World e Tracig Comic, antes de o grupo perder espaço no cenáro brasileiro.
Quase três anos após a última passagem, já em turnê de Six, o Extreme reencontrou o público paulistano e, pontualmente às 16h45, subiu ao palco abrindo com duas músicas de …Pornograffitti: as dançantes It (‘s A Monster) e Decadence Dance. Antes da próxima, felizmente a chuva foi embora e não retornou.

Chamou a atenção o cuidado visual: com exceção de It (‘s A Monster), que foi acompanhada pela imagem do gorila Pakenuga — nome formado com as iniciais dos integrantes e presente na capa de Six — à partir de Decacende…, sempre que Nuno Bettencourt (guitarra e vocal), Gary Cherone (vocal), Pat Badger (baixo e backing vocals) e Kevin Figueiredo (bateria) executavam músicas do álbum de maior sucesso do Extreme, a capa do disco tomava conta do fundo do palco, compondo um cenário muito bonito.

Antes de dar prosseguimento, Nuno Bettencourt, porta-voz do Extreme e sempre atento à comunicação com o público em português de Portugal, perguntou como todos estavam, celebrou o retorno ao Brasil e puxou o pesado riff de #REBEL, a primeira do set extraída do álbum mais recente.
Na sequência, em uma curiosa coincidência com a apresentação de Yngwie Malmsteen, a banda também homenageou o Queen, uma de suas maiores influências, mandando trecho de um clássico da banda britânica, no caso We Will Rock You, que foi emendada com Play with Me, única representante de seu injustiçado álbum de estreia homônimo. Nessa música, Nuno — fã assumido de futebol — tocou usando um boné da Seleção Brasileira e, antes da próxima, o lançou de presente para a plateia.

Am I Ever Gonna Change?, de Three Sides to Every Story, começou com Nuno estabelecendo o clima na guitarra. Na sequência, a pesada e moderna Thicker than Blood, de Six, trouxe efeitos no som do baixo, da bateria e em trechos do vocal de Gary Cherone. Na primeira parte da execução, porém, houve um visível momento de tensão: Nuno Bettencourt entrou cantando o refrão antes do tempo. Atento, Cherone segurou a marcação e corrigiu o rumo da música — possivelmente, os próprios efeitos acabaram confundindo o guitarrista. Apesar do breve deslize, a banda foi bastante aplaudida ao final.
O momento seguinte do show foi especial. Kevin Figueiredo surgiu à frente do palco usando uma boina ao melhor estilo Brian Johnson (AC/DC), com um bumbo de menor polegada que o de sua bateria e um pandeiro nas mãos. Empunhando um violão de doze cordas e consultando discretamente uma “colinha” no teleprompter, Nuno perguntou quem havia estado no primeiro show do Extreme no Brasil, em 1992 — ocasião em que a banda se apresentou no extinto Hollywood Rock.

Ao perceber o número considerável de mãos levantadas, sorriu, comentou que tocariam algo daquela época e recebeu um chapéu de seu roadie. Para os fãs mais atentos, a disposição dos integrantes no palco já denunciava: tratava-se de Hole Hearted, cantada em coro e bastante celebrada. Vale destacar como o Extreme se beneficia de dois backing vocals de alto nível no hard rock: Nuno e Pat — este último, muitas vezes subestimado, mas um bom baixista e dono de um vozeirão, caso muito similar ao de Michael Anthony, ex-Van Halen.

Dando sequência, Pat, Gary e Kevin deixaram o palco para Bettencourt, que, sentado em um banquinho, agora com um violão de seis cordas, dedicou ao público a instrumental Midnight Express — acompanhado por uma percussão no som mecânico — que, em minha opinião, é uma das poucas faixas que se salvam no quarto álbum do Extreme, o irregular Waiting for the Punchline (1995).
O àpice do show veio na sequência. Nuno pediu que o público fizesse barulho para seu “irmão” Gary Cherone, que retornou ao palco e se sentou ao lado do companheiro de longa data. A dupla então tocou More than Words, uma das baladas mais conhecidas do rock, acompanhada em uníssono pela plateia. Nuno não escondeu a satisfação e sorriu diante da resposta do público. É o velho paradoxo: muitos dizem estar cansados de canções assim, tocadas à exaustão, mas, ao vivo, cantam como se fosse a última vez.
Após o grande hit, uma abelha zombeteira irritou o ouvido de muitos pelos alto-falantes. Era o prenúncio do virtuoso solo Flight of the Wounded Bumble Bee, registrado em …Pornograffitti como introdução da música He-Man Woman Hater. Ao final, Nuno se reuniu novamente aos companheiros para a contagiante e grooveada Get the Funk Out, uma das músicas mais funkeadas do Extreme. O encerramento ficou por conta de Rise, principal destaque de Six, cujo videoclipe ultrapassou mais de 1 milhão de visualizações logo na semana do lançamento, impulsionado também pela repercussão do solo de guitarra de Bettencourt. Em ótima forma e com um repertório que equilibra passado e presente, o Extreme deixou o palco reafirmando sua conexão com o publico brasileiro – uma relação que, ao que tudo indica, segue longe de se desgastar.

Lynyrd Skynyrd
Antes de assumir o palco, o Lynyrd Skynyrd já carregava consigo o peso de uma trajetória que ultrapassa décadas e o status de uma das formações mais emblemáticas e influentes do southern rock. Surgida em 1964, em Jacksonville, Flórida, a banda construiu sua identidade a partir de um repertório que se tornou referência dentro do gênero, com músicas que seguem como pilares de seus shows até hoje.
Mesmo após inúmeras mudanças de formação e perdas importantes ao longo do tempo, o grupo manteve sua essência intacta, sustentado por músicos experientes e por uma base sólida que inclui múltiplas guitarras, teclados marcantes e backing vocals bem definidos. Elementos esses que, somados ao legado è a relevância da banda nos corações dos fãs, fazem dela uma instituição da música norte-americana que ainda atrai multidões, o que confronta os argumentos de muitos que resumem o Lynyrd de hoje como uma mera banda tributo de luxo.
E, caro (a) leitor (a), se você não esteve presente na recente edição do Monsters of Rock, sinto em lhe dizer que você perdeu não apenas a melhor apresentação do dia, como, ao menos no meu caso, um dos melhores e mais comoventes shows que já assisti.

Após a exibição de uma espécie de curta-metragem no telão — destacando o legado do Lynyrd Skynyrd e mesclando imagens fictícias com registros de diferentes fases da banda, dentro e fora dos palcos —, o grupo, atualmente liderado pelo vocalista Johnny Van Zant, irmão mais novo de Ronnie Van Zant (cantor original que morreu no trágico acidente aéreo envolvendo a banda em 1977), chegou quebrando tudo com Workin’ for MCA, faixa já tradicional na abertura de seus shows. Hoje em dia, o Lynyrd segue apostando em apresentações calcadas em seu material clássico, com foco especial na produção da década de 1970.
No palco, o line-up se destaca pela consistência técnica, pelo entrosamento entre os integrantes e pela força de seu característico trabalho de guitarras, hoje comandado por Rickey Medlocke — também conhecido por seu trabalho à frente do Blackfoot e que, em sua primeira passagem pelo Lynyrd Skynyrd, no início dos anos 1970, integrou a formação como baterista — ao lado de Mark Matejka e Damon Johnson, que assumiu a vaga do lendário Gary Rossington, falecido em 2023. Completam a formação as backing vocals Carol Chase e Dale Krantz-Rossington (viúva de Gary), o pianista Peter Keys, o baterista Michael Cartellone e o baixista Robbie Harrington, que passou a integrar a banda em meados de 2025.

Antes de outra pérola do southern rock, a contagiante What’s Your Name, Johnny falou de sua “gangue”: “São Paulo, Brasil, os Skynyrd estão na casa!”. Em seguida, eles mandaram That Smell, faixa do quinto álbum de estúdio, Street Survivors (1977). É indiscutível o quanto essa música remete a trabalhos mais pop dos Rolling Stones.
Era hora da primeira balada no repertório, mas antes de anunciarem I Need You, Van Zant elogiou as demais bandas do festival: “É tão bom estar aqui esta noite com vocês, com o Guns N’ Roses e todos os outros grandes nomes. Sabe, honestamente, amamos vocês e precisamos voltar aqui muitas e muitas vezes para lhes ver.” Em seguida, galanteou a plateia feminina: “Nós amamos vocês e vamos mandar algumas… estou olhando para o público esta noite. Há muitas mulheres brasileiras lindas aqui. Então essa vai para as garotas.”
Ao final da música, Johnny arremessou alguns bonés ao público, olhou para Cartellone — que já passou por nomes como Ted Nugent, Damn Yankees, Accept e John Fogerty — e ao dizer “Devolvam-nos nossas balas!” levantou a bola para o baterista puxar Gimme Back My Bullets.

Apesar da coesão entre os integrantes e seus talentos individuais, vale destacar três nomes no palco. O primeiro é o próprio Johnny Van Zant, que conquista a plateia com carisma – a propósito, em 2024 ele e seu irmão Donnie Van Zant, cofundador do .38 Special, lançaram um belo álbum intitulado Always Look Up, de temática cristã, com o projeto Van Zant.
Outro destaque é Peter Keys, pianista garboso, de presença marcante, posicionado na lateral do palco e virado de frente para os companheiros, comandando as músicas como se fosse o capitão do time, daqueles que sabem acrescentar linhas bem escolhidas às canções e assumindo seus momentos de protagonismo. Por fim, Rickey Medlocke, figurão de longas madeixas brancas e de herança nativo-americana (de ascendência lakota e blackfoot), chama atenção por seu estilo visceral de tocar, pela contribuição sólida nos vocais de apoio e também pela postura de estar sempre com cara de mau, característica que lhe confere um ar rebelde e quase cinematográfico.

Ao longo da apresentação, a plateia, contagiada, cantava tanto as músicas menos conhecidas quanto clássicos como Saturday Night Special e Down South Jukin’ , entre vários outros que ainda seriam executados. Muitos momentos de emoção estavam reservados. Um dos principais veio com Tuesday’s Gone (conhecida por muitos pela versão do Metallica), dedicada a Gary Rossington. Foi impossível conter as lágrimas ao ler no telão “Para nosso líder, nosso irmão, nosso ‘freebird'” enquanto a música era acompanhada por diversas imagens do saudoso guitarrista exibidas ao fundo. E haja lenço ou gola/manga de camisa para darem conta de secar mais lágrimas derramadas a seguir com a comovente Simple Man, principalmente com a homenagem ao Brasil por meio da bandeira do país respeitosamente mostrada nos telões. Antes de cantá-la, Johnny pediu que quem estivesse com seus celulares iluminasse o local: claro, foi um espetáculo de luzes.
Depois disso, Van Zant convocou o público a fazer ainda mais barulho e participar ativamente do próximo momento, lembrando que o Guns N’ Roses já estava chegando, mas que o Lynyrd Skynyrd ainda tinha algumas cartas na manga. Começaram pela descontraída Gimme Three Steps, seguida pelo cover de J.J. Cale para Call Me the Breeze, até desembocarem em Red, White & Blue (com as bandeiras brasileira e americana lado a lado no telão) e em Sweet Home Alabama, hino que fez o estádio vibrar em uníssono — cantado a plenos pulmões até por quem não acompanha tanto a banda. Para fechar, claro, a peça central do repertório do Lynyrd Skynyrd e uma das canções mais emblemáticas da história do rock sulista americano: Free Bird, que pôs mais um bom punhado de marmanjos a chorar. Na despedida da banda, foi bacana ver Johnny Van Zant com uma bandeira do Brasil no pescoço e segurando outra que era metade Brasil, metade Estados Unidos.
Ao fim de tudo, ficou a sensação de que o Lynyrd Skynyrd entregou exatamente aquilo que se espera de uma banda com esse peso histórico: um espetáculo ancorado em sua própria trajetória, conduzido com respeito ao legado e executado com competência por uma formação que, mesmo distante da original, entende perfeitamente a responsabilidade de carregar esse nome. Em tempos em que muitos ainda questionam sua legitimidade, a apresentação foi uma resposta clara: o legado pode até ter mudado de mãos, mas continua pulsando com força no palco.

Guns N’ Roses
(Fotos cedidas pela banda)
Nem seis meses haviam se passado desde sua última passagem por São Paulo com a turnê “Because What You Want & What You Get Are Two Completely Different Things” e, como já havia sido anunciado na ocasião, o Guns N’ Roses retornou ao Allianz Parque — palco onde parece se sentir em casa na cidade —, desta vez com sua “World Tour 2026”, encabeçando o Monsters of Rock. A proximidade entre as duas visitas naturalmente levantava uma questão inevitável: até que ponto a banda conseguiria entregar algo que não soasse como mera repetição recente?
A resposta começou a se desenhar dias antes de a banda desembarcar no Brasil, quando o Guns N’ Roses publicou uma breve nota em suas redes sociais informando que a tecladista Melissa Reese não participaria dos shows seguintes da turnê. Sem entrar em detalhes, o comunicado limitou-se a afirmar que “Melissa Reese não se juntará à banda em turnê devido a imprevistos pessoais. Esperamos que nossos fãs compreendam.”.
Sejamos sinceros e sem faltar com respeito à Melissa? Na prática, sua ausência pouco impactou a experiência ao vivo. Isso porque o protagonismo nos teclados segue historicamente concentrado em Dizzy Reed, cuja presença é muito mais perceptível nas execuções das músicas. Embora Melissa Reese atue também com sintetizadores e programações, os clássicos do Guns N’ Roses nunca combinaram para tais elementos, que estão mais associados às músicas lançadas à partir do modorrento Chinese Democracy (2008).

Sem atrasos, os telões e alto-falantes começaram a exibir a introdução pontualmente às 20h30. Outro indicativo de que a banda buscou evitar a repetição esteve nas imagens projetadas, mais simples e distintas das utilizadas na apresentação anterior, que traziam cenas futuristas e de estética vampírica, além de destacar a capa do álbum de estreia, o estrondoso Appetite for Destruction, que em 2027 completará 40 anos. Ao final da introdução, a região da Água Branca estremeceu quando Axl Rose, Slash, Richard Fortus, Duff McKagan, Dizzy Reed (na percussão) e Isaac Carpenter chegaram tocando Welcome to the Jungle.

A próxima música do show, Slither, cover da ex-banda de Slash e Duff McKagan, o Velvet Revolver, provavelmente passaria despercebida neste texto não fosse por uma cena quase tragicômica ocorrida perto do fim da execução. Enquanto cantava, Axl Rose se aproximou de Slash e, ao apoiar a mão direita no ombro do parceiro, o guitarrista — pego de surpresa — girou o corpo quase no mesmo instante e acabou acertando, sem querer, um direto no queixo do vocalista com o headstock de sua Gibson. Estranhamente, não houve risadas por parte de ambos após o encontrão e Slash não fez menção de se desculpar. Axl seguiu cantando como se nada tivesse acontecido, mas tratou de se afastar do homem da cartola logo em seguida.

Quanto ao repertório, não há do que reclamar quando se tem It’s So Easy, Mr. Brownstone, Bad Obsession, Dead Horse, Double Talkin’ Jive, You Could Be Mine, Civil War, Sweet Child O’ Mine, Nightrain, as baladas November Rain e, principalmente, Estranged, sem esquecer Paradise City, presença constante nos encerramentos do Guns N’ Roses.
Para quem aprecia os covers incorporados ao repertório da banda, rolou um monte: a já mencionada Slither, Live and Let Die (Wings), Knockin’ on Heaven’s Door (Bob Dylan) e New Rose (The Damned), que contou com Duff McKagan assumindo os vocais – a esposa Susan Holmes McKagan assistia ao show na lateral do palco e em alguns momentos apareceu nos telões. Houve ainda a estreia de Junior’s Eyes na turnê. Apesar de válida pela homenagem ao saudoso Ozzy Osbourne, a música do Black Sabbath não funcionou na versão do Guns.
A boa surpresa do setlist ficou por conta da inclusão de Bad Apples, música do álbum Use Your Illusion I que não era tocada ao vivo havia 35 anos!

Na reta final do show, o grupo concentrou seus momentos mais reconhecíveis, conduzindo o público a um encerramento baseado na catarse coletiva — daqueles em que o protagonismo se divide entre palco e plateia.
Guns N’ Roses
Welcome to the Jungle
Slither (cover do Velvet Revolver)
It’s So Easy
Live and Let Die (cover do Paul McCartney)
Mr. Brownstone
Bad Obsession
Rocket Queen
Perhaps
Dead Horse
Double Talkin’ Jive
Nothin’
You Could Be Mine
Civil War
Junior’s Eyes (cover do Black Sabbath)
Only Women Bleed (Alice Cooper cover) / Knockin’ On Heaven’s Door (cover de Bob Dylan)
New Rose (cover do The Damned)
Atlas
– solo de Slash
Sweet Child O’ Mine
Estranged
Bad Apples
November Rain
Nightrain
Paradise City

Lynyrd Skynyrd
Workin’ For MCA
What’s Your Name
That Smell
I Need You
Gimme Back My Bullets
Saturday Night Special
Down South Jukin’
Still Unbroken
The Needle and the Spoon
Tuesday’s Gone
Simple Man
Gimme Three Steps
Call Me the Breeze (cover de J.J. Cale)
Red, White & Blue / Sweet Home Alabama
Free Bird

Extreme
It (‘s A Monster)
Decadence Dance
#REBEL
We Will Rock You (cover do Queen) / Play with Me
Am I Ever Gonna Change?
Thicker than Blood
Hole Hearted
Midnight Express
More than Words
Flight of the Wounded Bumble Bee (solo de Nuno Bettencourt)
Get the Funk Out
Rise

Yngwie Malmsteen
Rising Force
Top Down, Foot Down
No Rest for the Wicked
Soldier
Into Valhall
Baroque and Roll
Relentless Fury
Now Your Ships Are Burned
Wolves at the Door
Concert #4 / Adagio / Far Beyond the Sun / Bohemian Rhapsody (cover do Queen)
Fire and Ice
Evil Eye
Smoke on the Water (cover do Deep Purple)
Trilogy Suite Op: 5
Overture
Badinerie / Black Star
I’ll See the Light Tonight

Halestorm
Fallen Star
Mz. Hyde
I Miss the Misery
Love Bites (So Do I)
WATCH OUT!
Like A Woman Can
I Get Off
Familiar Taste of Poison
Rain Your Blood On Me
Freak Like Me
Wicked Ways
I Gave You Everything

Dirty Honey
Won’t Take Me Alive
California Dreamin’
Heartbreaker
The Wire
Don’t Put Out the Fire
Another Last Time
Lights Out
– solo de guitarra
When I’m Gone
Rolling 7s

Jayler
Down Below
The Getaway
No Woman
Riverboat Queen
Lovemaker
Need Your Love
I Believe to My Soul
Over the Mountain
The Rinsk


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