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ROTTING CHRIST – São Paulo (SP)

29 de fevereiro de 2024 – Carioca Club

Por Samuel Souza

Fotos: Dani Moreira

Os shows “no meio da semana” sempre guardam algumas surpresas, especialmente quando se considera o transporte e os horários. Essa mistura de sensações também se estende ao público, principalmente para aqueles das cidades vizinhas que se esforçam para prestigiar suas bandas favoritas. Neste caso específico, uma banda em particular: os gregos do Rotting Christ, em plena quinta-feira, no último dia de fevereiro, 29, no já conhecido Carioca Club. Para nossa agradável surpresa, os fãs compareceram em peso, formando uma longa fila. O local não estava lotado, mas estava bastante cheio, quente e emanando uma energia digna de um grande show de Heavy Metal.

Velho conhecido do Brasil, o Rotting Christ tem uma longa relação também com toda a América Latina, contemplada com este giro batizado de “35 Years Of Evil Existence”, o que é curioso, já que a banda foi formada em 1987, ainda que tocando grindcore. Por aqui, apenas três datas, abraçando a divulgação da recém-lançada biografia “Non Serviam”, escrita em parceria com o jornalista inglês Dayal Patterson e os irmãos Sakis e Themis Tolis, respectivamente, guitarra/vocal e bateria. O livro foi lançado no país pela Estética Torta Editora, responsável pelos shows e que em suas redes sociais, deram a entender que uma segunda parte da tour pode acontecer no próximo semestre.

Sem bandas de abertura, pontualmente às 20h30, o quarteto subiu ao palco recebendo um caloroso salve dos fãs ali presentes, empolgados com o mantra satânico de “666” (a escrita em grego “Χ ξ ς'” figurou o telão do palco durante todo o espetáculo), faixa do álbum “Kata Ton Daimona Eaytoy”, prestigiado nesta noite com cinco canções. E dele pudemos ouvir a pesada e intensa “P’unchaw kachun- Tuta kachun” seguida da melódica “Demonon Vrosis” do anterior “Aealo”. Voltamos então à faixa-título de “Kata”, brutalmente executada. Estávamos no início, mas ficou bem claro que a qualidade sonora absurda ajudou a tornar essa experiência ainda melhor, somando aos excelentes músicos Kostas Heliotis (baixo) e Kostis Foukarakis (guitarra), que entregaram uma presença de palco entusiasmada, sempre mantendo alguma forma de interagir com a audiência. Falando de interação, o líder Sakis Tolis por inúmeras vezes saudava os fãs, arriscava algumas poucas palavras e contagens em português. Sim, o Rotting Christ é uma banda que aborda em profusão o caminho da mão esquerda, mas tem um raro carisma que não é muito bem a escola do black metal.

É interessante como a banda construiu seu setlist, dando a impressão de que as músicas seguem uma abordagem semelhante na parte lírica e até mesmo musical. Do espirituoso disco “Rituals” temos a oração ironizada, digamos assim, na perturbadora “Apage Satana”, que por aqui conhecemos como “Pai Nosso”. Os mais desavisados, pegando fora do contexto, pensariam em se tratar de uma conversão mística. O dissabor religioso segue com “In the name of God”, referenciando o filósofo alemão Nietzsche em sua última estrofe, culminando com “Pix Lax Dax”, nova canção do álbum “Pro Xristou”, a ser lançado pela gravadora Season of Mist em maio deste ano. E aqui vai um adendo: desde quando o Rotting Christ mudou drasticamente seu som, incorporando algo mais ritualístico, tendo essa pegada que a mídia especializada gosta de chamar de vedic black metal, o uso de V.S. (trilhas pré-gravadas) nos shows parece não incomodar tanto o público. Confesso que de alguma forma preferia ver ali um tecladista controlando essas pistas de coros e vozes dobradas e, claro, tocando as partes realmente necessárias do bom e velho synths.

E agora chegamos de fato na primeira grande sequência e ápice da noite. Quando as primeiras notas de “King of a Stellar War” do excelente “Triarchy of the Lost Lovers” soltam dos falantes, os punhos cerrados dos fãs cortam os ares e cruzam as luzes azuis e púrpuras em meio à fumaça que vinha do palco. Logo depois da primeira estrofe, a resposta também veio com o uníssono “ô ô ô ô ô” que a canção gradualmente pede. Sem trégua, a rápida “Archon”, do mesmo play, funcionou com um belo soco no estômago, levando o público a formar aquela roda nada aconselhável para o povo da terceira idade, e isso inclui esse escriba. A parte melódica da canção quebrou muitos pescoços! Era evidente a felicidade dos caras da banda com tamanha resposta do público e mantendo o nível lá em cima, emendaram com o clássico absoluto “Non Serviam”, reverenciado a cada passagem. Que música! Em seguida, vem o cover para “Societas Satanas” dos conterrâneos do Thou Art Lord, banda que Sakis também empresta seu talento desde 1993. Para muitos não foi uma grande surpresa, já que o Rotting Christ vem tocando ela, eventualmente, nos últimos anos. Pertinente destacar que a essência e a forma que o Metal Negro é praticado na Grécia tem sua própria verve e não há como negar que esse diferencial os coloca no panteão profano do black metal.

Voltemos aos “trabalhos mais atuais” da banda e para dar aquela meio desacelerada, tocam “In Yumen-Xibalba”, que na verdade só tem o começo litúrgico para depois desencadear uma porrada sem precedentes. A empolgante e pegajosa “Grandis Spiritus Diavolos” veio na sequência, com os fãs mais uma vez respondendo à altura. A bandeira do Brasil então começou a ocupar os bumbos do discreto e preciso Themis Tolis, que sempre que podia, levantava para saudar os fãs, e o clima de despedida chegava com a expressiva “The Raven”, inspirada no melancólico conto do poeta americano Edgar Allan Poe. Com essa sonoridade dramática, já não restava sequer alguma dúvida que realmente presenciávamos um belo espetáculo. Isso é música para bater cabeça por horas a fio! A escolha de “Noctis Era” para encerrar o set talvez não seja lá tão relevante, é uma faixa que sinceramente acho repetitiva e abusa da fórmula que eles adotaram nos últimos anos e a gente percebia isso por parte de alguns fãs, que pediam por músicas de “A Dead Poem”, infelizmente esquecido por eles nesta noite.

De qualquer maneira, é bom perceber que o público do Rotting Christ também deu uma renovada. Muito diferente quando passou por aqui no Brasil em 1998 pela primeira vez, tendo que tocar com instrumentos emprestados, a banda visivelmente evoluiu, ainda que tenha se distanciando daquela aura maldita, suas músicas encontram morada nessa nova geração, que respondeu muito bem por elas durante todo o show.

Notoriamente, as ideias do passado estão solidificadas e convivem estreitamente quando revisam seus clássicos. Eles não precisavam provar isso, mas quando voltam para o encore, aquela combustão subterrânea que estreita cores, raças, regiões, países e continentes, simbolicamente materializou ali quando Sakis convida o músico brasileiro Fernando Iser (das notáveis bandas Lalssu, Torqverem, Exterminatorium, Iron Woods, entre tantas outras) para dividir os vocais na apocalíptica e devastadora “The Sign of Evil Existence”, com seus dois minutos de potência e ladeira abaixo que abre o obrigatório “Thy Mighty Contract”, primeiro full da banda lançado nos idos de 1993. Para encerrar de vez, o canto do cisne veio com enigmática e hino “Fgmenth, Thy Gift”, que já figurava os tape-traders mundo afora e é sem dúvidas uma das canções antigas que mais representa a distinção que o Rotting Christ tomou o underground de assalto.

Essa passagem do Rotting Christ por aqui, mais uma vez, mostrou uma celebração da longevidade e da evolução da banda, numa jornada através de décadas de música e uma prova do poder duradouro de sua arte com um desafio hercúleo, no bom sentido, de alcançar novos e velhos fãs, emanados numa performance de conexão íntima com o público. Os gregos reafirmaram seu lugar não apenas como pioneiros do black metal, mas como ícones do underground. Enquanto as luzes se apagavam e os ecos da sinfonia negra se dissiparam, ficava claro que essa noite não seria facilmente esquecida, deixando para trás uma lembrança vívida e uma promessa de mais memórias inesquecíveis nas futuras incursões do Rotting Christ pelo Brasil e além. Que noite!

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