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SAMSUNG BLUES FESTIVAL 2018, 16 de setembro de 2018, São Paulo/SP

Auditório do Ibirapuera – Oscar Niemeyer (Plateia Externa) – São Paulo/SP

No último dia 16 de setembro, rolou em São Paulo mais uma edição anual do “Samsung Blues Festival”, evento que tem por tradição reunir artistas nacionais e internacionais. O festival gratuito que em anos anteriores trouxe ao Brasil nomes como Joe Satriani e Richie Sambora + Orianthi (RSO), dessa vez recebeu outros dois respeitados guitarristas norte-americanos: Tom Morello (Rage Against the Machine, Audioslave, Streets Sweeper Social Club, Prophets of Rage) e John 5 (Rob Zombie, Marilyn Manson, 2wo, David Lee Roth). No dia 15, ambos já haviam se apresentado no Samsung de Porto Alegre (RS), acompanhados das atrações nacionais, a guitarrista dinamarquesa radicada no Brasil Isa Nielsen (Volkana, Robertinho de Recife, Detonator e as Musas do Metal, Morpheus’ Dreams) e a banda instrumental potiguar Camarones Orquestra Guitarrística. No dia seguinte, todos eles foram recebidos em São Paulo por um número muito grande de pessoas no Parque do Ibirapuera.

Momentos antes de sacudirem os paulistanos, Tom Morello, John 5, Isa Nielsen e Ana Morena (representando o Camarones) concederam coletiva à imprensa. A maioria das perguntas, como imaginado, eram dirigidas aos músicos estrangeiros. Questionado por mim sobre qual tipo de público se interessa por sua carreira solo, John 5 comentou que sua música atrai para seus shows fãs das bandas em que tocou, e entusiastas de diversos estilos, inclusive do country tradicional, além de guitarristas ‘shredders’ e até mesmo crianças. A outros profissionais, ele respondeu sobre assuntos como, por exemplo, a personalidade variante de seu ex “chefe” Marilyn Manson; Por sua vez, Morello falou de guitarra, vídeo game, de seu ativismo político de esquerda, do pai (Ngethe Njoroge), que foi o primeiro embaixador do Quênia na ONU, esclareceu não ter interesse em ser candidato a nada, deixou mensagem de apoio ao povo brasileiro que luta por dias melhores e mostrou desapontamento com o assassinato da ex-vereadora do Rio de Janeiro Marielle Franco – morta em 14 de março último; Já Isa Nielsen anunciou que não faz mais parte da lendária banda brasiliense Volkana, enfatizou estar focada em seu trabalho solo e disse se sentir bem mais confortável podendo, na guitarra, variar entre estilos; Por fim, Ana Moreno falou da força da cena independente brasileira e de Tom Morello ser inspiração artística e ideológica. Agora vamos aos shows…

Acompanhada de Thiago Oliveira (guitarra), Vando Lucena (baixo) e Ricardo Ramesh (bateria), Isa Nielsen deu início à mais recente edição do “Samsung Blues Festival”, pontualmente às 18hs, executando um cover para A Fistfull of Dollars, música que foi tema do filme de mesmo nome (estrelado por Clint Eastwood), lançado em 1964, e que foi composta, orquestrada e conduzida pelo italiano Ennio Morricone, porém tocada pela guitarrista numa versão mais próxima à da antiga banda inglesa Babe Ruth. Infelizmente, nesse início de show a guitarrista foi prejudicada pela falha técnica na qual o som de seu instrumento simplesmente não saiu – A banda seguiu tocando normalmente. Com tudo resolvido, Isa deu continuidade em sua performance instrumental e foi bem acolhida pelo público ao executar suas próprias músicas, Slide e a pesadíssima Synthetic Inoxia – nessa, o som da bateria de Ramesh ficou exageradamente alto. Para fechar o curto set, uma versão parecida à de Jeff Beck para Going Down, do saudoso blueseiro americano Freddie King.

Algo impressionante foi a rapidez com que a equipe de palco deixou tudo preparado para a próxima atração. Demorou apenas cinco minutos para que o Camarones Orquestra Guitarrística desse as caras. O grupo entrou tocando duas músicas seguidas de seu mais recente álbum Feeexta, que foi lançado em 2017: SinksMania e Praia de Leste. Também apresentando um repertório curto e que incluía músicas de seus outros álbuns – Camarones Orquestra Guitarrística (2010), Espionagem Industrial (2011) e Rytmus Alucynantis (2015) -, o grupo formado pela mencionada baixista Ana Moreno, pelos guitarristas Anderson Foca e Alexandre Capilé e pelo baterista Yves Fernandes convenceu o público com um som instrumental empolgante e cheio de swing. O que se viu foi um mix entre o peso do rock setentista, com guitarras sujas e referências da música regional, como o maracatu, por exemplo. Tudo isso, à base de boa movimentação de palco, especialmente por parte da simpática e sorridente Ana.

Nem eram 19hs ainda, quando a terceira atração da noite entrou em ação. John William Lowery, que você conhece como John 5, deixou todo mundo de olhos vidrados. Ele mostrou que um show de música instrumental pode se transvestir de shock rock, e deu à sua apresentação um viés de horror show. Acompanhado de sua banda The Creatures, que é completada por Ian Ross (baixo) e Logan Miles Nix (bateria), John surgiu trajando uma indumentária toda branca, usando maquiagem típica das que acostumamos a ver em seu rosto nos shows de Rob Zombie e Marilyn Manson, e com um protetor dental que emitia luzes. Atualmente, o músico divulga seu álbum ao vivo It’s Alive! (lançado no início do ano) e foi nele que baseou seu setlist. 5 começou fritando as cordas com a curta Flight of the Vulcan Kelly e com a divertida Six Hundred and Sixty Six Pickers in Hell, CA., de pegada western. Em Here’s to the Crazy Ones, que iniciou mandando a técnica de ‘two hands’, John 5 surpreendeu ao dar uma de baixista, ‘slapeando’ as cordas de sua Fender J5 Telecaster. Apesar de instrumental e com bem mais tempo de palco do que os artistas nacionais, o repertório de 5 não soava cansativo, já que sua variedade técnica e musical abria leque para vários estilos. O público foi arrebatado pelo peso de This is My Riffle e da sombria Season of the Witch, pelas divertidas Hell Haw, Black Grass Plague e Making Monsters, e foi ao delírio com a versão de Enter Sandman (Metallica), em que a melodia vocal de James Hetfield foi traduzida para a guitarra.

Pra não dizer que John 5 não falou com o público, antes do último ato ele soltou um irônico “olá”. O encerramento veio com um medley forrado de hinos de Van Halen, Iron Maiden, Ted Nugent, Alice In Chains, White Zombie, Slayer, Kiss, Deep Purple, The Police, Rush, Ozzy Osbourne, Led Zeppelin, Marilyn Manson, Pantera e até do Rage Against the Machine, em que 5 fez os fãs de Tom Morello pular com a comemorada Killing in the Name – pena que não tocou a sua releitura contagiante para Beat it, de seu ídolo Michael Jackson. John 5 ganhou novos fãs com suas habilidades guitarrísticas e impressionou até mesmo quando resolveu tocar banjo e uma mini guitarra. E não houve quem não tenha curtido a sua teatralidade com viés de horror show. Em uma de suas músicas, John usou uma boneca para tocar como se fosse um slide, em alguns momentos do show ficou com uma aparência fantasmagórica ao cobrir o rosto com um véu fúnebre, e também sorria a todo instante para o público com o mesmo semblante lunático de Marilyn Manson. Como se não bastasse, teve o auxílio de figuras sinistras: uma personagem corcunda e um palhaço, que surgiam para lhe trazer os citados adereços, além de um fantasma, que no final passeou pelo palco segurando a bandeira do Brasil. De longe, foi o melhor show do dia. O público agradeceu e ovacionou John 5, gritando seu nome em coro.

A partir de então, a euforia tomou conta do parque, pois era chegada a hora do show do músico mais aguardado pela maioria do público. Quando Tom Morello e sua banda Freedom Fighter Orchestra entraram, com ele cantando e tocando a grooveada It Begins Tonight, música de seu terceiro álbum, World Wide Rebel Songs (2011), que lançou sob o alter ego The Nightwatchman, o chão tremeu. No microfone e na guitarra, Morello comandou também outra de suas composições: One Man Revolution, do homônimo debut de 2007. E se os fãs já estavam empolgados, a coisa ferveu na música seguinte, que foi dedicada ao amigo e companheiro de Audioslave, o saudoso Chris Cornell. Na verdade, foi só um trecho de Cochise, que, assim como outras, foi executada de maneira instrumental, porém cantada em alto e bom som pelos fãs. Prestes a lançar seu novo álbum solo, de nome The Atlas Underground, Morello mandou a nova e suingada Vigilante Nocturno, que até aquele dia só havia sido apresentada ao público brasileiro. Depois dessas, a única música solo que Tom Morello tocou foi The Road I Must Travel, outra de seu primeiro álbum.

Na segunda metade do show, o ‘axeman’ ofereceu aos paulistanos um repertório com covers de algumas de suas bandas. Do Street Sweeper Social Club tocou Ghetto Blaster e do Rage Against the Machine fez os fãs comemorarem com Sleep Now in the Fire e Guerilla Radio – tocada numa versão totalmente diferente, ou seja, cadenciada, com pegada bluesy e vocais em estilo “falados”. Morello também arriscou trechos de Mr. Crowley (Ozzy Osbourne) e Time (Pink Floyd), e tocou na íntegra The Ghost of Tom Joad, numa longa e cansativa versão, que ficou bem mais próxima a do próprio Bruce Springsteen, do que a da que foi gravada pelo Rage Against the Machine em Renegades (2000). E foi justamente nessa música que Tom arrancou aplausos dos fãs ao solar sua guitarra com os dentes, virando-a propositalmente para exibir o adesivo com os dizeres “justiça para Marielle” – muito justo, só faltou, porém, ele se lembrar de fazer um apelo também em nome do motorista da ex-vereadora, Anderson Pedro Gomes, de 39 anos, que, junto a ela, também foi assassinado, e no exercício da profissão. Aliás, parece que muita gente se esquece disso. Pra fechar, Morello deixou os fãs de RATM pra lá de eufóricos, tocando aquela que eles mais aguardavam: Killing in the Name.  

Particularmente falando, por mais que eu curta a carreira musical de Tom Morello e ache que ele trouxe técnicas criativas para a guitarra, com o passar do tempo passei a considerá-lo um músico superestimado. Explico… Assim como muita gente reclama do fato de Kirk Hammett ter se limitado ao uso do Wah Wah (ou Cry Baby, se preferir), me incomoda que em muitas músicas Morello também se exceda, tanto na prática do mesmo pedal usado pelo integrante do Metallica, quanto na do Whammy, efeitos esses que acabaram se tornando sua marca registrada como guitarrista. De qualquer modo, os fãs do americano saíram felizes e o Samsung Blues Festival proporcionou ao público mais uma boa edição.

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