Shane Embury sempre encontrou maneiras de ultrapassar os limites do que se espera de um músico de grindcore. Paralelamente ao trabalho no Napalm Death, o baixista construiu uma extensa trajetória por projetos que transitam por música eletrônica, industrial, ambient e metal experimental. Agora, porém, ele mergulha em um território ainda mais pessoal com Bridge To Resolution, primeiro álbum lançado sob seu próprio nome.
Em entrevista à revista Prog, Embury explicou que o disco nasceu inicialmente dentro da mesma proposta de seu projeto Dark Sky Burial, mas ganhou outra direção quando começou a incluir vocais. O resultado combina elementos eletrônicos, pós-punk, avant-pop e rock progressivo, revelando de maneira mais evidente influências de bandas como Cardiacs e Rush.
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O álbum também está diretamente relacionado a um período de intenso questionamento pessoal. Depois da pandemia de Covid-19, Embury conta que enfrentou dificuldades tanto em casa quanto durante as turnês. Foi nesse contexto que iniciou um processo de terapia de orientação junguiana, que o levou a confrontar aspectos de sua própria personalidade e a utilizar a música como uma forma de expressar essas descobertas.
“Ainda sou um trabalho em andamento. Depois da Covid, eu estava tendo dificuldades em casa e também estava tendo dificuldades em turnê. A criatividade estava fluindo, mas às vezes eu ainda não gosto de mim mesmo, da maneira como sou perto de outras pessoas. Comecei a fazer terapia junguiana e vi muitas coisas nas quais preciso trabalhar, e a música me permitiu expressar um pouco disso”, afirmou.
O músico também revelou que voltou a enfrentar problemas com álcool nos últimos anos. Segundo Embury, a situação foi particularmente difícil, mas ele conseguiu interromper novamente o consumo.
“Tive um problema sério com álcool novamente nos últimos dois anos. Parei agora, finalmente, mas da última vez foi bastante difícil.”
O processo de autoconhecimento acabou se conectando diretamente com a maneira como Embury passou a enxergar algumas de suas maiores referências musicais. Entre elas está Neil Peart, baterista e principal letrista do Rush, cuja obra ganhou um significado diferente para o baixista à medida que envelheceu.
“Nós achávamos que éramos indestrutíveis quando éramos jovens, mas não éramos. Sempre gostei da frase de Neil Peart: ‘Somos imortais apenas por um tempo limitado’ (N.R.: referência à letra da música Dreamline, do álbum Roll the Bones). Ele acertou em cheio, como sempre.”
A relação com Peart vai além da admiração pelo músico. Embury afirma que, depois de começar a estudar filosofia junguiana e outras correntes de pensamento, voltou aos textos escritos pelo baterista e passou a perceber novas camadas em suas letras.
“Para mim, o Rush era principalmente sobre os riffs insanos e a musicalidade, mas, à medida que envelheço, as letras tiveram um impacto enorme.”
Apesar de Bridge To Resolution apresentar uma faceta mais progressiva e experimental, Embury não abandonou a agressividade e a estranheza que marcam sua trajetória. Ele cita especialmente o Cardiacs como uma influência importante na construção do material, ao lado de referências como Devin Townsend e a fase mais experimental do Killing Joke.
A ideia de explorar esse lado também representa um desafio pessoal para o baixista, que considera a possibilidade de levar o material aos palcos. Ele revelou que tenta conseguir uma oportunidade no festival holandês Roadburn e já conta com o interesse de Adrian Erlandsson, do At The Gates, para assumir a bateria. Embury também convidou guitarristas para participar e chegou a consultar Kavus Torabi, do Cardiacs.
“Seria bom fazer isso. É algo diferente. Por mais nervoso que eu fique, quero me jogar um pouco no desconhecido.”
A agenda do músico, entretanto, continua longe de ficar vazia. Embury trabalha com Russ Russell na conclusão do segundo álbum do Tronos, projeto que mantém a parceria entre os dois. Paralelamente, está gravando material novo do Napalm Death e afirma que já existem 12 músicas registradas. Outro álbum do Dark Sky Burial também está nos planos.
Mas há ainda um projeto que parece ocupar um espaço especial em sua lista de prioridades: um disco inspirado pelo Cardiacs. Embury explica que nem todo o material segue essa direção, embora algumas faixas tenham uma sonoridade próxima à banda britânica. Outras, segundo ele, remetem ao Gong e a diferentes vertentes da música experimental.
A multiplicidade de projetos não parece ser apenas uma questão de produtividade. Para Embury, criar tornou-se uma necessidade pessoal.
“Às vezes fico deitado pensando: ‘Sim, eu tenho um problema’. Não consigo parar de fazer isso, e é uma necessidade. Me dizem para me acalmar porque estou sempre dez passos à frente. Mas não sei o que faria sem essa válvula de escape. Isso me ajuda a atravessar o dia. Faça o que você ama.”
Com Bridge To Resolution, o baixista apresenta justamente esse outro lado: menos interessado em reproduzir a brutalidade pela qual ficou conhecido e mais disposto a transformar experiências, influências e conflitos internos em música. O resultado é provavelmente seu trabalho mais abertamente progressivo e, sobretudo, um dos mais pessoais de sua trajetória.
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