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TOXIC HOLOCAUST: O FUTURO QUE NÃO QUEREMOS

Para aqueles que começaram a curtir a sonoridade típica do metal underground por volta da virada para os anos 2000, o multi-instrumentista estadunidense Joel Grind muito rapidamente se tornou uma espécie de referência. Afinal, ele vinha atuando em vários projetos musicais diferentes, todos focados no lado mais brutal da mistura metal/punk, e sempre com qualidade inquestionável, o que tornava difícil não apreciar o seu trabalho. Vale destacar que, desde os primeiros dias, tanto Joel quanto os fãs pareciam perceber que o Toxic Holocaust seria o projeto principal, aquele ao qual o músico dedicaria o maior tempo e as melhores ideias. Essa impressão começou a se confirmar quando, em 2003, o Toxic Holocaust lançou seu álbum de estreia, Evil Never Dies. Lançado através do pequeno selo alemão Witches Brew (que conta hoje com bandas como Insulter, Fyrecross e Morphetic em seu cast), os pouco mais de trinta minutos de música violenta ali contidos cativaram um bom público ao redor do mundo, e causaram alvoroço instantâneo no undergroud. Antes admirado pelos novos fãs, Joel aos poucos se transformava em ícone mesmo entre seus velhos ídolos e admiradores antigos da música brutal, o que foi se confirmando a cada novo lançamento. Conversamos com Joel sobre o passar dos anos e o mais recente trabalho de estúdio, Primal Future: 2019. 

Para começar, gostaria de dizer que aprecio muito a maneira como tem trabalhado sua música com o Toxic Holocaust. Especialmente desde que iniciou a segunda década, sinto que trabalhou elementos diferentes em cada álbum, mas sempre mantendo um núcleo bastante coeso. 

Joel Grind: Muito obrigado! Bem, desde que comecei o Toxic Holocaust, sempre tive a ideia de que essa banda seria coisa minha, um projeto solo, por assim dizer, já que sabia que sempre permaneceria com a banda. Certo, com isso vale dizer que sempre tive uma visão muito clara daquilo que queria alcançar com a minha música. Eu tinha minhas bandas favoritas, conhecia muito bem a minha sonoridade favorita, basicamente eu sabia como as músicas deveriam ser e como a produção deveria soar, tudo parecia muito claro na minha cabeça desde o começo. Mas, a verdade é que as coisas começam a mudar conforme os anos passam. Veja, o Toxic Holocaust foi criado como meu projeto solo, mas ao longo dos anos fui conhecendo muitos outros músicos com quem trabalhei em estúdio, com quem dividi os palcos. Com o passar dos anos, quer dizer, depois de passar tantos anos tocando esse tipo de música, a influência dessas pessoas que você conhece ao longo do caminho acaba transformando aquela sua visão inicial. Claro que não é uma mudança drástica, afinal de contas todos nós sempre estávamos interessados basicamente no mesmo tipo de som, mas pessoas diferentes trazem referências diferentes, então isso acaba te transformando aos poucos, e acho que é por isso que você pode sentir essa diferença ao longo dos anos. Quanto ao núcleo em comum, é porque sempre serei eu tocando, sempre estarei lá como força motriz do Toxic Holocaust, então certas coisas jamais mudarão. 

Bom, para começarmos a falar sobre essas ‘mudanças’ ao longo dos anos, voltaremos até 2011, quando saiu Conjure And Command. Além da capa diferente, em preto e branco, sinto que naquele disco você incorporou mais elementos do black metal dos anos 80 do que havia em An Overdose of Death… (2008) e Hell On Earth (2005). 

Joel: Sim, eu diria que você está absolutamente certo quanto a isso. Veja, eu sempre declarei que algumas das minhas principais referências quanto a música que queria fazer com o Toxic Holocaust eram Venom e Bathory, que são o melhor do black metal dos anos 80. Claro, eu também amo aqueles primeiros registros do Sodom e tantas outras coisas, então acho que mais cedo ou mais tarde essas referências apareceriam de forma mais clara na minha música, e foi justamente isso que aconteceu quando trabalhei em Conjure And Command. 

Primal Future: 2019 – eOne/Hellion – NAC

Lembro que na época algumas pessoas até estranharam isso, mas não é como se fosse algo totalmente novo na sua música. 

Joel: É verdade, eu lembro disso também. Mas é como você disse, não era algo novo para mim, eu amo esse tipo de música, e já havia declarado isso muitas vezes. Além disso, não é como se fosse a primeira vez que alguns elementos de black metal apareciam no Toxic Holocaust, acho que só foi a vez em que eles apareceram mais claramente. Ainda sinto que aquele foi um momento importante na história dessa banda, e um passo importante para mostrar nossa música. 

Depois disso, sinto que Chemistry of Consciousness (2013) foi um álbum bem mais focado no velho e bom crossover thrash. 

Joel: Novamente, tenho que concordar. Inclusive, acho que foi nele que encontrei o ápice daquela forma mais caótica e direta do Toxic Holocaust. Não lembro se tem alguma música que ultrapasse os três minutos naquele disco… 

Tem apenas uma, Rat Eater, mas ela não alcança os quatro minutos. 

Joel: É verdade. Então veja, é isso que digo, naquele álbum alcançamos o nosso melhor nessa fórmula mais direta, músicas curtas e brutais, bem crossover mesmo. Claro que Conjure And Command tem muito disso também, os primeiros registros e até mesmo esse novo também trazem essa característica, mas sinto que Chemistry of Consciousness levou essa fórmula à um novo patamar. 

Agora sou eu quem precisa concordar com você. 

Joel: Isso é bom, isso significa que estamos na mesma página naquilo que se refere à música (risos). 

Quanto ao novo álbum, a primeira grande mudança é que ele é o primeiro após muito tempo fora da Relapse Records, certo? 

Joel: Sim, minha parceria com a Relapse durou até Chemistry of Consciousness, então, quando finalmente comecei a pensar em um novo disco, sabia que precisaria encontrar um novo selo para lançá-lo. 

Você sente que isso, de alguma maneira, influenciou a maneira como trabalhou nas novas músicas? 

Joel: Talvez, não sei dizer ao certo, mas talvez a consciência de que um ciclo havia se fechado tenha corroborado de alguma forma na minha vontade de fazer algo diferente dessa vez. A verdade é que desde o primeiro momento, desde que comecei a trabalhar nos primeiros riffs para Primal Future: 2019 já sabia que queria fazer algo diferente dos seus antecessores. Então, sinto que o novo álbum foi algo de voltar às raízes, uma sensação despertada pelo fato de, depois de tantos anos, não ter uma gravadora, estar no 20º aniversário e querer voltar para o jeito que comecei, quanto estava trabalhando como em um projeto solo. 

Imagino que os velhos fãs até esperavam que algo assim fosse acontecer em algum momento. 

Joel: De fato, eles estavam esperando por isso, e até pedindo. A verdade é que desde que fiz The Yellowgoat Sessions (N.R: álbum solo lançado em 2013), eu sempre era questionado pelos fãs, perguntando ‘quando você vai fazer um solo do Toxic Holocaust de novo?’. Então, aqui estamos nós. 

Uma das coisas que mais curto nesse novo registro é que soa como um disco mais ‘crust’ em certos momentos, e digo isso quanto às estruturas musicais. 

Joel: Entendo o que você quer dizer, e novamente preciso concordar. Veja, uma das bandas que mais amo é o Discharge. Aqueles caras simplesmente lançaram as bases de como a música brutal deveria soar, o d-beat, os vocais, os riffs, tudo em um ambiente caótico e uma produção apenas boa o suficiente para ouvir cada elemento. É muito difícil conseguir algo como o Discharge, Venom, Sodom e Bathory conseguiram nos anos 80, sonoramente falando, pois, todo mundo usa novos equipamentos nos estúdios de gravação, mas ainda podemos acessar aquela energia na composição, e foi justamente esse caminho que tentei seguir neste novo álbum. 

A despeito disso que falamos, a faixa de fechamento, Cybernetic War é bem na cola do hard’n’heavy dos anos 80, não acha? 

Joel: Nossa, se você me falasse isso há uns dez anos atrás, eu te odiaria do fundo do meu coração (risos gerais). Você sabe, quando somos muito jovens, isso pode soar como uma ofensa (risos). Mas, você está certo mais uma vez, essa música tem aquela vibração do hard rock dos anos 80 com algo de metal clássico do mesmo período, e tenho que te dizer que isso foi intencional. Eu queria que o ouvinte tivesse aquela sensação de estar em uma máquina do tempo, assistindo a um daqueles filmes de ficção científica dos anos 80, mas com uma trilha sonora melhor (risos). Sei lá, como se eu tivesse escrito uma música para o Blade Runner original (N.R: filme de 1982, dirigido por Ridley Scott), ou algo assim. 

Agora que você mencionou, senti ‘vibrações oitentistas’ na arte da capa. Ela me fez pensar em coisas como luzes de neon e partidas de ‘laser tag’, por exemplo. 

Joel: Bem, acho que faz muito sentido. Essa dicotomia, ou esse contraste entre o futuro e o passado é algo que queria explorar nesse álbum. Você sabe, nos anos 80 existia um clima muito estranho no ar, as pessoas tentavam viver sua vida com alegria e leveza, os filmes no cinema indicavam uma época feliz e cortês, e ao mesmo tempo, estávamos preocupados com o dia em que uma bomba nuclear cairia dos céus sobre as nossas cabeças. Existia o medo de uma guerra química ou biológica, de um acidente radioativo, enfim, era um cenário abastecido por luzes de neon que burlavam o nosso cérebro e vendiam certa alienação, enquanto tentávamos lidar com o medo do dia a dia. Enfim, nada muito diferente do que vivemos hoje. Acho que o artista (N.R: Steve Crisp, que já trabalhou com Benediction e Righteous Pigs, entre outros) trabalhou muito bem nessa ideia. 

Apesar disso, você não diria que este é um álbum conceitual, certo? 

Joel: Pois é, eu não diria que é um álbum conceitual porque uma música não está diretamente conectada a outra, sabe? Tipo, não é como se existisse uma narrativa sendo desenvolvida capítulo por capítulo em cada canção, então não acho que seja certo dizer que é um álbum conceitual. Porém, existe um tema central que percorre várias canções, que é esse espelho do passado, presente e futuro sob um aspecto da ficção científica, essa coisa do homem sempre desenvolver novas tecnologias para controlar e subjugar o próprio homem. No passado, temíamos a época que vivíamos, e temíamos o futuro que teríamos. Hoje, não é diferente, mas vejo que inevitavelmente estamos rumando para o futuro que não queremos. As armas químicas continuam sendo usadas de forma nem tão velada assim, a radiação ainda é uma ameaça, os vírus ainda podem ser usados como armas, e criamos a guerra cibernética, ou seja, não eliminamos nenhum risco e ainda criamos novas ameaças. É meio que essa visão que norteou meu pensamento nesse novo álbum. 

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