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LIVING COLOUR – São Paulo/SP, 11 de maio de 2018

Desde a última passagem pelo Brasil, quando se apresentou no Rio de Janeiro pela quinta edição do mega festival “Rock in Rio” e em São Paulo no Bourbon Street, o Living Colour levou longos cinco anos para retornar. Dessa vez o grupo nova-iorquino fez uma única apresentação no país, novamente em São Paulo, agora para divulgar seu novo álbum, o bastante elogiado “Shade”, sexto de sua brilhante carreira, que já dura 34 anos (descontando o período de inatividade entre 1995 à 2000). E é curiosa – embora compreensível – a relação de amor entre o Living Colour e o público brasileiro, que desde sempre abraçou a bem administrada mistura sonora da banda, que funde, com maestria, hard rock, funk, hip hop, jazz fusion e punk, adicionando letras que falam sobre o cotidiano, englobando fatores pessoais e político-sociais e culturais, em que, inclusive, é abordada a questão da segregação racial nos Estados Unidos.

A Tropical Butantã, que de maneira bem sucedida já vinha acolhendo uma série de shows (Sons of Apollo, Glenn Hughes e Saxon, respectivamente), outra vez se viu completamente lotada. E a euforia tomou conta de cada alma ali presente quando “Runnin’ with the Devil” começou a tocar no som mecânico – tal clássico do Van Halen tem servido de introdução para os shows do quarteto americano. Mas os sorrisos só estamparam as centenas de rostos na pista e nos camarotes mesmo quando o Living Colour surgiu no palco. Com um ‘bottleneck slide’ no dedo, o guitarrista inglês Vernon Reid puxou o riff de “Preachin’ Man”, música do saudoso blueseiro Robert Johnson, que apesar de já ter sido usada como abertura do show feito em São Paulo em 2013, só foi gravada em “Shade”, que fora lançado em setembro último. Apesar de terem começado com um cover, e de levada arrastada, os elegantes Reid e Corey Glover (vocal), mais os despojados Doug Wimbish (baixo) e Will Calhoun (bateria) agitaram os fãs mesmo assim. Mas a coisa melhorou ainda mais com a dobradinha que veio a seguir, formada pelas empolgantes “Middle Man”, em que boa parte do tempo Glover cantou sentado na caixa de som à frente do palco, próximo ao público, e “Desperate People”. Além dessas duas, várias outras estavam por vir para representar o premiado debut “Vivid”, que em 2018 completa 30 anos de seu lançamento.

Na sequência, foi a vez de o grupo apresentar o novo álbum, e a primeira das músicas pinceladas pra compor o repertório foi a pesada “Freedom of Expression (F.O.X.)”. Sob iluminação e qualidade de som igualmente impecáveis, o quarteto só teve o trabalho de continuar escancarando toda a sua exuberância musical, se permitindo improvisar em várias de suas músicas. O público correspondia cantando em uníssono os vários clássicos que iam sendo executados. De maneira intercalada, outras duas de “Vivid”, “Funny Vibe” e “Memories Can’t Wait” (cover do Talking Heads), se misturaram às bem recebidas “Wall” e “Ignorance is Bliss”, que foram as únicas do terceiro álbum “Stain” (1993) à serem tocadas. Falando em “Wall”, é interessante notar o quão atual é sua letra, que fala de algo bastante aflorado hoje em dia, que é o ódio na sociedade motivado pela diferença entre as pessoas. Nessa, foi de arrepiar quando Glover fez do final um mantra, ao repetir por diversas vezes o refrão que diz: ‘the wall between us all must fall’. A mensagem serviu de reflexão. Já em “Ignorance is Bliss”, em que Glover detonou nos agudos, uma falha no som da guitarra de Reid no decorrer fez com que os talentosos Wimbish e Calhoun improvisassem até que tudo se normalizasse.

O cover do rapper americano The Notorious B.I.G. para “Who Shot Ya”, um dos singles de “Shade”, caiu muito bem ao vivo, não apenas pelo peso, mas, principalmente, pelo groove vocal de Corey Glover. Aliás, é um absurdo o que esse frontman está cantando. Na contagiante “Open Letter (To a Landlord)”, por exemplo, ele mostrou o quão etérea é a sua voz, e deu um show à parte, fazendo praticamente um solo vocal no início e no final da música, tirando onda de regiões altas e “brincando” com os drives e os falsetes, lembrando até o saudoso Prince. Depois dessa, a vez de brilhar foi de Wimbish, que por alguns instantes fez do palco um lugar só seu. Ele tocou uma música de sua autoria, a bonita instrumental “Swirl”, que integra seu segundo álbum solo, “Cinema Sonics” (2009). Nessa, além de fazer o que bem quis com as quatro cordas, fez uso de loop para gravar algumas bases pra poder solar em cima, experimentou efeitos em sua pedaleira e ainda mostrou que no baixo também é possível solar com os dentes, como alguns guitarristas adoram fazer. Assim que Coulhoun, Reid e Glover retornaram, os quatro deram início a uma jam session, que na verdade se revelou em um dos hits mais esperados pelo público: a dançante “Glamour Boys”. Se o começo improvisado não teve a inesquecível introdução de baixo, ao menos ganhou um riff mais suingado de Vernon Reid e um groove de batera de Calhoun, que foi ressaltado por uma inusitada levada no cowbell. Também no cowbell, num ritmo que lembrou bastante o da música “Temperamental” do Mr. Big, Calhoun deu início a última das novas, “Who’s That”.

Ainda que o Living Colour não tenha trazido nada de “Collideøscope” (2003) e “The Chair in the Doorway” (2009), não podia faltar no repertório algo do segundo álbum, “Time’s Up” (1990). Assim sendo, o grupo mandou em sequência dois clássicos desse disco que lhe rendeu um Grammy Award: “Love Hears its Ugly Head” e “Type”, que além de ganhar uma versão mais “vitaminada”, teve inserção de trecho da música “Police & Thieves”, do falecido músico jamaicano de reggae Junior Murvin, e um malabarismo vocal de Glover, que em uma das pausas praticou um verdadeiro ‘trava-língua’. Estava demorando, mas finalmente o hino “Cult of Personality” foi tocado. Esse hit-single de “Vivid”, que na época que foi lançado alcançou a 13° posição no chart Billboard Hot 100, 9° no Billboard Rock Album Tracks e em 1990 levou a banda a conquistar seu primeiro Grammy Award, na categoria “Melhor Performance Hard Rock”, fez a Tropical Butantã tremer, tamanha a agitação dos fãs. Na veloz “Time’s Up”, rolou até algumas rodas na pista. Depois dela, foi a vez de a banda mandar um cover para uma das músicas mais manjadas da história do funk: “Get Up (I Feel Like a) Sex Machine”, de James Brown. Pra ser sincero, de tanto essa ser explorada, principalmente em comerciais de TV, confesso que não curti o fato de o Living Colour incluí-la em seu set list. Teria sido mais legal se ao invés dela o grupo tivesse tocado algum de seus muitos outros clássicos, à escolher entre “I Want to Know”, “Broken Hearts”, “Which Way to America”, “Pride”, “Elvis is Dead”, “Go Away”, “Bi”, “Auslander”, “Never Satisfied”, “Nothingness”, “Young Man”, “Behind the Sun”, “Leave it Alone” ou “Solace of You”.

Próximo do fim do show os holofotes se viraram para o genial Will Calhoun, um dos bateristas mais respeitados que existem. Tudo bem há quem reclame de solos de bateria, mas Calhoun é daqueles que fazem valer à pena, por conta de sua criatividade. Nos primeiros minutos, ele que já vinha debulhando durante as músicas, e sempre tocando com uma pegada bastante forte, prendeu a atenção de todos para o que demonstrou atrás de seu kit, que na parte convencional percussiva de diferente mesmo dispunha de um prato Boomywang de 18”, modelo Shield Vibrato Hybrid, da Hammerax, que tem um som bastante diferente dos tradicionais. Mas a parte mais interessante ficou para o final do solo, em que Calhoun se levantou, revelando seu abadá branco, executou alguns ritmos em seu pad eletrônico Korg Wave Drum com uso de loop e de sons hipnóticos, e depois voltou pra sua bateria, só que agora tocando com baquetas coloridas e iluminadas. Como se não bastasse, ele foi até a frente do palco e despertou a curiosidade do público tocando apenas com as mãos um aFrame, instrumento que nada mais é do que um cilindro de estrutura eletrogênica.

Quando a banda toda voltou a se reunir no palco, contrariou os que pensavam que o encerramento seria com o tradicional cover de “Should I Stay or Should I Go” (The Clash). A saideira se deu com “Rock and Roll”, do Led Zeppelin, que terminou com trecho de “What’s Your Favorite Colour? (Theme Song)”, outra de “Vivid”. Após duas horas de show, os fãs saíram de alma lavada. Assim como o Ramones e o Motörhead, o Living Colour consegue agregar fãs de diversos estilos, só que com o diferencial de não serem apenas os amantes das vertentes do rock and roll, mas também pessoas que curtem outras praias musicais. Particularmente falando, foi muito bacana a coincidência de me deparar e assistir o show junto com Pepper Keenan, vocalista e guitarrista do Corrosion of Conformity, que no dia seguinte tocaria em São Paulo. Ao encontrá-lo no hotel durante à tarde, para uma entrevista que acabou não rolando devido à um problema na agenda da banda, o informei que a noite o Living Colour tocaria na cidade. Surpreso com a notícia e entusiasmado, Keenan pediu à produção que o acompanhava que o levasse ao show. Enquanto o Living Colour tocava, Keenan agitava o tempo todo e tecia alguns comentários elogiosos. Ele ainda me contou sobre a amizade que tem com a banda, principalmente com Doug Wimbish. Enfim, foi uma noite para não ser esquecida, como acontece todas as vezes que o Living Colour se apresenta no Brasil. Quem já os viu ao vivo por aqui, sabe do que estou falando.

LIVING COLOUR – Set list:

  1. Intro (Runnin’ With the Devil – Van Halen)
  2. Preachin’ Man (cover de Robert Johnson)
  3. Middle Man
  4. Desperate People
  5. Freedom of Expression (F.O.X.)
  6. Funny Vibe
  7. Wall
  8. Memories Can’t Wait (cover do Talking Heads)
  9. Ignorance is Bliss
  10. Who Shot Ya? (cover de The Notorious B.I.G.)
  11. Open Letter (To a Landlord)
  12. Swirl (Doug Wimbish)
  13. Glamour Boys
  14. Who’s That
  15. Love Rears its Ugly Head
  16. Type / Police & Thieves (cover de Junior Murvin)
  17. Cult of Personality
  18. Time’s Up
  19. Get Up (I Feel Like a) Sex Machine (cover de James Brown)
  • Solo de bateria
  1. Rock and Roll (cover do Led Zeppelin)
  2. What’s Your Favorite Colour? (Theme Song)
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